domingo, 1 de novembro de 2009

FIGURAS TÍPICAS DE CONDEIXA

Em Condeixinha,no antigo Beco do Seiça,havia uma tasca,propriedade de um homem bastante singular:Joaquim Lamas,mais conhecido por Loirinho.
Vivia em pobreza e,nem o facto de ser proprietário de um estabelecimento, lhe permitia algum desafogo.Antes pelo contrário!
A taberna,igual a tantas outras da terra,era de chão terreo,com balcão,uma ou duas pipas de vinho e um barril de aguardente.A sua particularidade residia no facto de serem os próprios fregueses a servirem-se da bebida e a colocarem o respectivo valor numa ranhura do balcão,para descanso do tasqueiro,pouco amigo de esforços.
Mais tarde,já na última fase da vida do Loirinho,uma doença qualquer tolheu-lhe os membros superiores e passou a vender cautelas da lotaria.Quando alguém lamentava o facto de não poder servir-se das mãos,respondia com aquela graça peculiar :"Deixa lá,eu também nunca precisei delas!"
Era solteiro,mas um dia resolveu deitar os olhos para uma senhora que tinha um defeito numa das pernas.Naturalmente tímido,pediu a alguém que intercedesse por si.Esse amigo lembrou-lhe que a senhora era coxa,ao que ele respondeu:"Não faz mal,eu não a quero para jogar futebol!"
Noutra ocasião,estando em Coimbra e necessitando voltar para Condeixa,encontrou o padre Mota,pároco de Condeixa-a-Velha e pediu-lhe boleia,mas o padre disse-lhe:"Já estou cheio,senhor Joaquim!"resposta pronta do Loirinho:"Pois Nosso Senhor lhe dê uma boa hora,senhor prior!"
Na tasca,aconteceu um episódio que marca a instalação da G.N.R. em Condeixa e teve como consequência a inauguração dos seus calabouços.
Duas das mais carismáticas figuras da vila,eram sem dúvida António Pessa e Joaquim Caniceiro.Dotados de fino espírito de observação e apurado sentido crítico,são inúmeros os ditos chistosos que lhes são atribuidos.Estes dois amigos gostavam de,após os afazeres diários,visitar as "capelinhas" da vila e arredores,petiscando e bebendo o seu copito.Um dia, a "capelinha" escolhida foi a do Loirinho.E como este era bastante condescendente,acabaram por despromovê-lo do cargo de patrão.O Loirinho não terá gostado da brincadeira e berrou que lhe estavam a assaltar a loja.Alguém no exterior estranhou o reboliço e chamou a guarda.Uma patrulha deslocou-se a Condeixinha e prendeu os brincalhões.Levados estes para o posto e,colocados perante o cabo Coelho que,por ser novo na terra, ainda os não conhecia, ordenou que fossem presos até ao dia seguinte,quando deveriam ser apresentados ao Juiz.
Ora acontecia que António Pessa e Joaquim Caniceiro eram pessoas muito conceituadas na vila e quando se soube da prisão,movimentaram-se as influências para a libertação dos dois amigos.Mas eles,fazendo valer a fama de pessoas excêntricas,recusaram ser libertados e exigiram ficar nas celas toda a noite!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DR.JOÃO ANTUNES,O PADRE,O HOMEM E A LENDA

Continuando a relembrar a ilustre figura do Padre Dr.João Antunes,apresento agora uma sua outra faceta,talvez aquela que perdurou através dos anos,criando a aura negativa que,quer queiramos quer não,durante algum tempo manchou a sua memória.Refiro-me à gula,considerado um pecado só pelo facto de ele ser padre.
Voltemos ao livro de M.Rodrigues dos Santos.
«Ficam para trás episódios demonstrativos de que o Padre-Boi era um bom garfo e se não alimentava do ar.
A faceta que dele mais se recorda é,aliás,a sua gula insaciável.Claro que nunca se bateu com um boi inteiro a uma refeição,contráriamente ao que já se afirmou,mas não falta quem jure que certa vez comeu um cabrito que,assado à boa maneira de alguns restaurantes de Condeixa,constitui,na verdade,um saboroso pitéu.
Foi,aliás,um almoço muito falado que selou o bom relacionamento do padre com o Rei D.Carlos,embora não sendo linear que sempre uma boa mesa ajude a cimentar boas amizades.Atesta-o o que se passou,certa vez,na Figueira da Foz,em casa do Capitão da Marinha Mercante,Manuel Guerra.
Este oficial,a quem o Padre Dr.João Antunes acabara de ser apresentado por um amigo comum,Pedro Pipa Fernandes Tomaz,também bom musicólogo e comilão,caiu certa vez na esparrela de convidar a ambos para um almoço em sua casa.
Sabedor,por experiência adquirida,que Pedro Pipa era um bom comedor,o Capitão Guerra providenciou para que na mesa onde ia sentar os dois convidados consigo e sua mulher,a comida fosse farta,capaz de chegar e sobrar para o dobro das pessoas.
Mas Pedro Pipa sabia,por seu turno,que o Padre Antunes era um comilão impenitente e,prevenindo que o Capitão não se visse confrontado com embaraços,arranjou um qualquer pretexto para se esquivar ao almoço.
Ficaram à mesa apenas os donos da casa e esse seu único conviva.
A entrada foi uma terrina de sopa de peixe.Vieram a seguir,duas grandes pescadas,dois quilos de bifes de cebolada,um peru enorme,queijo,fruta,pudins,arroz-doce e outras iguarias.
Em presença da glutonice do convidado,os donos da casa mal petiscaram ,receosos de que a comida não bastasse,enquanto Padre Antunes punha num repente a descoberto o fundo das travessas,afirmando que «as marmotas»estavam um mimo e que o «passarinho»era uma delícia.
Quase logo aseguir Padre Antunes encontra o amigo Pedro Pipa:"foi uma pena não teres comparecido,porque tínhamos lá"um almocinho de estalo"!
Claro que o casal Guerra não ficou satisfeito com tantos diminutivos e garantiu que lá em casa o Padre Antunes não comeria mais nem uma petinga."Vá comer à remôlha",disse o Capitão Guerra,em desabafo.
Continua

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

FIGURAS TÍPICAS DE CONDEIXA

O Lisboa era um pobre vagabundo,mas excelente pintor da construção civil,que andava sempre embriagado.
Numa noite de chuva,estava ele caído na valeta perdido de bêbado.O Padre Pimenta,pároco da vila,vendo o Lisboa naquele estado,exclamou:
-Que miséria!
O bêbado então respondeu:
-Miséria não,senhor prior,fartura,fartura!-referindo-se certamente à grande quantidade de álcool que tinha ingerido.
Mas na verdade o Padre Pimenta tinha razão.Havia miséria,não só no facto de o Lisboa se embriagar,o que já seria razão suficiente.
Lembro-me de no tempo da 2ª Grande Guerra e logo após esta,ver passar por Condeixa grupos de homens sujos e rotos,que percorriam o país de lés a lés,procurando trabalho.Chamavam-lhes «estradeiros»,nome ainda hoje considerado ultrajante quando aplicado a alguém.Estes homens viviam do que podiam,pedindo ou roubando.Por vezes um ou outro ia ficando pelo caminho,porque arranjava trabalho ou por qualquer outra razão.Certamente seria o caso do Lisboa,de quem não se conhecia qualquer parente.
Ou do André,outra figura típica que nesta terra viveu.Dormia em qualquer buraco,de preferência num terreno desocupado que existia na Avenida.Comia o que lhe davam,mas nunca pedia nada. Por sinal,muitas vezes recusava o que lhe queriam dar,insultando os ofertantes.
Recordo agora um episódio passado com a esposa do Dr.Fernando Rebelo,veterinário municipal,quando esta senhora lhe disse:
-Ó André,passa lá por casa para te dar umas calças do senhor doutor.
O André perguntou:
-Então e o casaco?
-O casaco não,só as calças-respondeu ela.
Ele, pondo aquele ar provocante e alheio a todas as conveniências,disse:
-Vá vardamerda com elas!
Irreverente,rude e mal-educado, este André de quem os garotos como eu tinham um medo atroz,nem se atrevendo a colher os belos figos de capa estaladiça e pingando mel,da carregada figueira junto ao seu miserável tugúrio,quando era suposto estar lá recolhida a sua nauseabunda figura.
Diziam que o André tinha estudos superiores.Era(constava)funcionário bancário e estudante.O banco faliu e ele,apanhado no turbilhão em que a sua vida se transformou.não resistiu.
Como andava sempre sujo e mal cheiroso,um dia,em Condeixinha,as irmãs Cavaca,Soledade e Conceição, juntamente com outras raparigas,conseguiram dar-lhe banho e vesti-lo decentemente.Só que o André adoeceu com gravidade.Teria sido porque o esterco no corpo funcionava como capa protectora contra viroses?