domingo, 20 de dezembro de 2009

LUGARES DE CONDEIXA-CONDEIXINHA

continuação
Depois deste passeio sempre agradável pela Lapa,voltamos ao ponto de partida e deparamo-nos com uma das mais bonitas e pitorescas casas de Condeixa,com um azulejo no vértice do frontão indicando tratar-se da "Vila Celeste".Apesar de desvirtuada pelo acréscimo de escada exterior e alpendre,houve no entanto o bom senso de caiar as paredes de branco,com lambrim azul.
Quando no século XIX se efectuaram obras de rebaixamento da rua,as casas já existentes adquiriram patamares para compensar o desnivelamento.Por essa razão,o sítio passou a designar-se "Rua dos Balcões".
A "Vila Celeste" era propriedade de António Florentino,antigo sargento do exército.Possuia uma velha motocicleta barulhenta e daí talvez lhe viesse a alcunha como era conhecido:"Sargento Gasolina".
Mais além,a "Fonte das Bicas"que,apesar do nome,tem uma bica só.Até 1950,data da concretização do abastecimento de água ao domicílio,a única forma de obter o imprescindível liquido,era recorrer às fontes da vila:Bicas;Outeiro;Amores;Caraça;Lapa e da Costa.Mas no inverno,as que ficavam em cota inferior ao caminho,enchiam-se de lama,tornando impossível a sua utilização.Tal acontecia com a Fonte das Bicas.
Esta fonte tinha de facto três saídas e localizava-se um pouco mais acima , do outro lado da rua,numa cova com único acesso através de escada.A pedido dos moradores desse tempo,prejudicados com as precárias condições da fonte,a Câmara reuniu,curiosamente pela última vez em que estiveram presentes os representantes dos três Estados:Clero;Nobreza e Povo,decidindo mandar construir outra fonte.Mais tarde,em 1930 foi restaurada e ficou com o bonito aspecto que ora ostenta.
Nunca este manancial secou,mesmo durante os mais prolongados estios.A sua água era pura e fresca.Hoje continua fresca,mas já não é pura!
Depois,é a Rua de Entre-Moinhos,como o nome indica,local de mais alguns dos muitos engenhos existentes em Condeixinha,alguns de rara beleza,como era o caso do que se encontra ao fundo desta rua,agora completamente adulterado na sua traça original.
Na cortada para a Várzea,num canto formado com a ladeira do Penedo,em terreno cedido pelo Palácio,construiu o Zé Pato uma habitação,quando foi despejado da casa onde vivia,na Senhora das Dores,para nesse local construirem o depósito da água.
O Zé Pato,pedreiro de profissão,tinha muitos filhos,situação comum a muitas famílias daquele tempo.Quando um dia o Dr.Celso Franco,primeiro dentista a ter consultório em Condeixa,lhe chamou a atenção para o número excessivo de filhos,com uma família de tão fracos recursos,respondeu:"Que quer,Sr.Dr.,isto é o arroz doce dos pobres!" Hoje existem outras formas de passar o tempo agradavelmente,como por exemplo,ver televisão...por isso,agora as famílias são mais pequenas!
Voltando à ladeira de Condeixinha,topamos logo com esse terrível obstáculo de pedra,causador de tantas cabeças e dentes partidos a quem descia de bicicleta com velocidade fora do normal.Refiro-me às designadas "escadas do Zé Curto",embora o estabelecimento deste fosse um pouco mais abaixo.
Das muitas lojas da vila,arrisco-me a afirmar ter sido a loja do Zé Curto uma das mais peculiares.
Misto de taberna,adega,mercearia,venda de lenha para queimar no fogão,agência de seguros e"banco particular",comercialmente dominava pelo menos meia Condeixinha.Mas os lucros daí advindos,não seriam significativos.Muitas vezes assisti a pequenas compras de cinco ou dez tostões de açúcar,café ou arroz.Bem sei que"grão a grão,enche a galinha o papo",no entanto creio terem sido os lucros mais abundantees obtidos no empréstimo de dinheiro com altos juros.
O Zé Curto,perdão,os Zés,pois quem geria o estabelecimento eram pai e filho,ambos com o mesmo nome,faziam amiúde alarde da grande fortuna,afirmando medirem o dinheiro que possuiam,em alqueires de moedas!
No entanto eram pessoas muito simpáticas e agradáveis.O Curto pai,costumava brincar comigo,prometendo emprestar-me a"cabeça da víbora",hipotético amuleto infalível para conquistar raparigas.
Um pouco abaixo e do lado contrário,numa casa a vançar para a rua,morava o António Ferreirinha(Renola),motorista de longo curso.O Fernando,seu filho e meu condiscípulo,quando terminou a escolaridade,aprendeu no Tagarela o ofício de barbeiro.Mais tarde radicou-se em Alpiarça.O seu relacionamento com o pai era péssimo.Num pátio que existe ao lado,o pai um dia,como castigo,amarrou-o à estaca que prendia o burro e deixou-o em companhia da alimária toda a noite,como também se tratasse de um animal.
Pegado ao pátio,a mole imensa de um edifício com escada exterior que atenua um pouco a monotonia das linhas arquitectónicas.Pertence à família Bandeira e antigamente tinha um vasto salão de espectáculos com um pequeno palco.Ali se realizaram muitos bailes de agradável memória.Também foi sede da Música Velha,até à extinção desta.O piso érreo era utilizado como garagem,mas também serviu para realização de bailes.
Em frente,morava António Alves(Tónio Amâncio),pintor da construção civil.Um artista!Dava gosto vê-lo pintar com grande precisão os finíssimos traços nos quadros das bicicletas!
Era um homem profudamente espiritual,muito dado a coisas do além.Das muitas "estórias" que me contou,destaco duas.
Dizia a crença popular existir junto à Capela da Lapa um tesouro escondido sob a terra.Ele e um companheiro tentaram descobrir tal maná.Munidos de pás e enxadas,certa noite dirigiram-se ao local e abriram um buraco no solo.Quando já tinham atingido alguma profundidade sem encontrarem o desejado,decidiram sair da toca.Nesse momento,alguém de fora,com voz cavernosa,indagou se precisavam de ajuda.
A noite era negra,o local ermo e a consciência de que estavam a perpetrar algo incorrecto,tudo em conjunto levou-os a pensar tratar-se do diabo que vinha ali castigá-los por ousarem perturbar as suas profundezas.
No dia seguinte,nem sequer se conseguiam lembrar como dali tinham fugido até casa!
Quanto ao tesouro, lá estará,porque após a divulgação deste episódio,ninguém mais teve coragem de desafiar Satanás,legítimo guardião das coisas ocultas.De outra vez,vinha da Eira da Caldeira, localizada em frente à cortada para o Travaz,onde amanhava um terreno ao ano.Já era noite e o lugar nesse tempo não tinha vivalma.Parou para levar um cigarro à boca.Quando procurava os fósforos no bolso,alguém lhe perguntou se queria lume.Olhou para o lado e viu um alta figura toda vestida de negro.Convencido que Lúcifer voltava para o castigar da aventura da Lapa,desatou a correr,completamente aterrado e só parou em casa.Não me disse,mas certamente os fundilhos das calças deviam cheirar mal,após este susto.Admitindo,claro,a sua veracidade!
"Estórias"assim,contadas com a convicção de quem as viveu,ou imaginou e acreditava piamente no transcendental,não davam vontade de rir,antes pelo contrário.Muitas outras lhe ouvi e,confesso, ficava sempre impressionado!
Mais adiante era a casa de Joaquim Duarte Pessoa(Cachareto).Foi o solar do Conselheiro Quaresma e tinha,em tempo que não o meu,grande escada exterior,à semelhança do prédio fronteiro.Quando da reconstrução,a escada foi demolida mas ficou um nicho do Senhor dos Passos no lugar da antiga capela.
Hoje há uma estrada a cortar Condeixinha,mas antigamente o bairro estendia-se até ao Travaz.
Antes da cortada para o solar da família Bacelar,morava um senhor que era carteiro e deslocava-se de bicicleta quando executava a função.Porém,só subia ou descia do veículo quando tinha um ponto para apoiar os pés.Contava-se que um dia,ao regressar da distribuição,ao início da descida de Condeixinha poisou-lhe um moscardo na mão,começando de imediato a sugar-lhe o sangue.A ladeira não tinha qualquer sitio que lhe desse garantias de se apoiar e descer da bicicleta em segurança,por isso decidiu seguir até casa.Ao chegar lá,apeou-se com todo o cuidado e preparou-se para matar o maldito moscardo.Só que este,já saciado,resolveu bater as asas e escapar ao merecido castigo!
Está terminada esta viagem no tempo pela velha Condeixinha.Decerto muitas outras "estórias" ficaram por contar,mais moradores mereciam também ser recordados nestas crónicas.Infelizmente a memória não conseguiu reter outros factos dignos de registo.
Dei-me ao trabalho,agradável, de escrever as minhas recordações de um tempo antigo,porque sei que elas se vão dissipando,não restando em breve quem ainda se lembre como era aquele alegre bairro.
Procurei relatar apenas episódios onde a dignidade dos protagonistas não fosse ofendida.Se num caso ou noutro alguém achar que faltei ao respeito a quem devia,creia que não tive má intenção.
Gostaria que este trabalho pudesse contribuir para um dia ser escrita a real história de um povo simples e trabalhadorEsta é a minha homenagem aos antigos habitantes de Condeixinha.
Condeixa,Julho de 2006 Cândido Pereira

sábado, 19 de dezembro de 2009

LUGARES DE CONDEIXA-CONDEIXINHA

continuação



Em frente,há uma praceta.O beco do Seiça,depois de ter dado uma curta volta,regressa à"mãe".

Um pouco abaixo e junto ao antigo talho do Micaelo,morava outra das figuras marcantes da minha infância,o Luís Videira.

O pai era alfaiate e sofria da terrível doença da época,a tuberculose.Em sua casa o pão não abundava,como em outros lares da vila(e do país!),o que não era de admirar,com os baixíssimos salários desse tempo.

O Luís,logo que terminou a instrução primária,foi aprender o ofício com um carpinteiro.Comia em casa do mestre,único pagamento do seu trabalho.Um dia, ao jantar,após uma cena do patrão com a mulher,o candeeiro de petróleo tombou e a chaminé partida espalhou os cacos sobre a comida do rapaz.Na impossibilidade de retirar todos os vidros e na contingência de ficar sem jantar,ele optou por comer as batatas,bacalhau e grelos com acompanhamento extra de vidros.Como nada de mal lhe sucedeu,dali para a frente,em troca dos tostões de estúpidas apostas,engolia vidros,pregos e outros estranhos objectos.Estas façanhas valeram-lhe a alcunha de "Faquir".Curiosamente,o apodo em vez de o desgostar,parecia até agradar-lhe.

Depois,a Casa dos Arcos ou das Colunas,uma interessante construção do século XVIII,com três arcos de volta completa(actualmente dois estão entaipados),pequenos terraços sobre os mesmos e águas-furtadas.

Esta moradia está quase em total ruína,não valendo de nada a tentativa feita a alguns anos para evitar a queda das paredes,que podem desmoronar-se a qualquer momento.Uma questão de valores monetários entre os proprietários e a Câmara,tem impedido a concretização da compra,com o consequente prejuízo para o património da vila.

O Dr.Deniz Jacinto,ilustre condeixense,pretendia doar a Condeixa o seu vasto e rico espólio,composto por livros de sua autoria e de outros escritores,diversos trabalhos sobre Gil Vicente,de quem foi emérito estudioso,o fato de "Diabo"envergado nas peças Vicentinas em que participou e se notabilizou e ainda a Comenda da Ordem do Infante D.Henrique com que foi agraciado pelo Presidente da República.

A Casa dos Arcos foi o local escolhido para instalação do Museu.Mas a tal mesquinha questão da compra do imóvel e a falta de interesse da Câmara em procurar outro local,contribuiram para impedir a sua resolução.O espólio acabou por ser doado ao Museu Paulo Quintela,de Coimbra e Condeixa perdeu mais um património de grande valor.

Em frente à Casa dos Arcos,existiu um prédio entretanto demolido para dar acesso ao Quintalão da Misericórdia.

Nessa casa morava Américo Pato(Olho e Meio).Era um homem muito doente,também atingido pela tuberculose,esse terrível mal motivador de tantas mortes,não só em Condeixa,mas em todo o país.

O Américo,impedido de trabalhar pela doença que o minava,não tinha meios de prover a sua subsistência e a da família.Resolveu então adquirir ao Augusto Braga uma bicicleta e realizar um sorteio,para o qual vendeu as respectivas rifas.É claro que o lucro final seria pequeno,mas ele tinha a esperança de ficar com o prémio ou,calhando este a algum benemérito, o deixasse ficar com o velocípede para novo sorteio.Infelizmente isso não aconteceu.O premiado,insensível ao drama,não teve contemplação e exigiu o veículo!

Tristes tempos,quando um trabalhador após passar uma vida de duro trabalho,ganhando salários de miséria,ao deixar de ter serventia,por velhice ou doença,herdava um pau e um saco e juntava-se à horda de pedintes famintos.E não se pense que essa situação se passava em tempos remotos!A parte substancial dos direitos e condições sociais,infelizmente agora em risco,foi apenas alcançada com a Revolução dos Cravos,em 25 de Abril de 1974!

O Américo tinha dois filhos,o António e o Américo,este mais conhecido pela alcunha:Zé Cletra.

O António,quando era criança gostava de ir para a Igreja ajudar no arranjo de andores e altares.Certa vez auxiliava o Alvarito a decorar a capela da Srªda Conceição,em cuja base está a imagem de Santo António.Uma deficiente instalação transportava a energia para iluminação da Virgem.O António tocou inadvertidamente num fio e,desconhecendo o efeito da electricidade,ao sentir o choque gritou:"fuja sr.Alvarito,que o Santo Antoninho está zangado!"

A rua de Condeixinha tem três espaços distintos.Desde o seu início até à cortada para a Lapa,é densamente habitada,com as casas a sucederem-se numa linha contínua.Depois,até Entre-Moinhos,apenas algumas casas dispersas e a partir dali,novo aglomerado populacional a terminar,agora,quando é interrompido pela Estrada Nacional.
Ao virar para a Lapa, a casa antigamente acastelada da Quinta da Lapinha,antigo Solar dos Cunhas.Possui um linda gruta de tufo calcário,juncada de densa vegetação,com a água a formar pequena cascata.Nos anos quarenta do século XX,quando era propriedade da famíla Oliveira Batista,chegou a ser atracção turistica de Condeixa.Que pena não continuar a figurar no roteiro da vila!
Em frente,a Quinta da Lapa,cujo solar foi residência do Padre Dr.João Antunes.Este grande vulto intelectual,impulsionador cultural de Condeixa,criou um Orfeão que tinha a característica de ser históricamente o primeiro agrupamento coral popular do país.Mas,para além disso e com a colaboração de reputados mestres,António Gonçalves,Abel Manta,Pedro Olaio,fundou também uma Escola de Artes e Ofícios,destinada a desenvolver nos inúmeros artistas da vila com conhecimentos apenas empíricos,técnicas de desenho industrial.Da importância dessa Escola nos deu conta o romancista de Condeixa e do mundo,Fernando Namora,ele que também lá aprendeu artes plásticas:"...entretanto a vila multiplicava-se em pintores de domingo,marceneiros-artistas,ferreiros,compositores populares...".
Tanto os ensaios do Orfeão como a Escola,tinham lugar no grande solar.
O prestígio do Dr.Antunes grangeou-lhe a amizade de destacados vultos do meio intelectual de então.O poeta Afonso Lopes Vieira,o pianista Rey-Colaço ou o músico Ruy Coelho,eram visitas assíduas da Quinta.Este último,encantado com a paisagem desfrutada das janelas da casa,compôs ali uma bela melodia intitulada"Pôr do Sol em Condeixa".
Após a morte do Dr.Antunes,a quinta passou a ser propriedade de Lino Pedro Augusto.O Alvarito,seu filho,era um homem de rara sensibilidade artística.Ao longo da vida reuniu um valioso acervo constituido por alfaias agrícolas,artesanato vário,colecção de moedas antigas,pinturas,documentos,etc.Este espólio pertence hoje a sua filha.No entanto,seria recomendável que a Câmara tentasse adquiri-lo,para preservação da memória de Condeixa.
A rua da Lapa era antigamente a estrada de ligação entre Condeixa e Montemor-o-Velho.
Quando rebaixaram a rua de Condeixinha,esse trajecto passou a fazer-se pelo novo traçado.A Lapa,por ser um caminho muito estreito e damasiado íngreme,deixou de ter serventia para veículos.Mais tarde acabaram por construir uma escada no troço de maior inclinação.A meio,está a Capelinha da Senhora da Lapa,um templo muito antigo.Segundo a lenda,a imagem da santa foi achada na gruta da Lapinha,em 1400.Nesse mesmo ano construiram a ermida com esmolas do povo e um donativo de António de Almeida.Ao longo do tempo,foi sofrendo alterações.Sempre foi reclamada como propriedade da família Bacelar,do Travaz.No final do século XX estava em grande estado de degradação,ameaçando ruína.Passou então para a posse da Igreja Matriz e foi devidamente reconstruída.
continua

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

LUGARES DE CONDEIXA-CONDEIXINHA

continuação
Entre os Pelomes e o antigo Beco do Seiça(Travessa Nunes Vidal),era o estabelecimento de Constantino Martins Quintas,natural de Santo Tirso e que para lá voltou com a família,após vender todos os seus bens em Condeixa.O espaço onde hoje a Santa Casa da Misericórdia possui serviços de apoio,ao cimo da Palmeira ,era de sua propriedade.
No largo em frente à loja,tinham lugar os maiores festejos dos Santos Populares no bairro.Uma grande fogueira alimentada por todos os trastes sem serventia dos vizinhos,dava o pretexto para os rapazes mostrarem às raparigas a sua valentia,saltando arrojadamente o alto fogaréu.No Beco do Seiça,logo depois do cotovelo da estreita viela e pegada à cavalariça do Dr.Juiz,onde mais tarde os seus filhos e alguns colegas formaram um arremedo de república estudantil,a República das Catacumbas,morava a Ti Cecília,parteira sem diploma,mas muito sabedora na prática de trazer ao mundo uma nova vida.Se calhar,todas as crianças de Condeixinha,pelo menos as nascidas nesse tempo,foram por si aparadas.
No largo,em frente ao beco,morava uma das figuras chave da minha infância,o Luís Pocinho que,já adulto, partiu com a família para o Brasil e lá se radicou.
Dotado de forte personalidade,tinha os requisitos para ser um líder.De certa forma,até o era,pelo menos para a garotada desse tempo.Muitas vezes rude,mas sempre franco e leal,conseguia impor a sua vontade com determinação.
Convivi muito de perto com ele,não só porque éramos condiscípulos e companheiros de jogos de futebol na Praça e de outras aventuras mais ou menos contáveis,mas também porque quando terminou a instrução primária,ingressou como aprendiz do meu pai,na altura electricista do Palácio Sotto Mayor,com a oficina dentro dessa propriedade.
Abro aqui um parêntesis para poder dar uma perspectiva do que era o Palácio naquele fim da primeira e princípio da segunda metade do século XX.
Quando Condeixa teve direito a usufruir dos benefícios da electricidade,em 1932,já o Palácio gozava desse privilégio há muito,mercê de uma central de produção de energia eléctrica,a partir de um motor de combustão.Mais tarde,com a electricidade a ser recebida por linhas exclusivas exteriores,essa central passou a servir apenas de apoio ao consumo da casa quando este era excessivo ou se verificava alguma falha no abastecimento.A central passou então a ser a oficina onde o meu pai exercia a profissão,quer reparando aparelhos da entidade empregadora,quer fazendo trabalhos por sua conta,bobinagem de motores ou construção de baterias para automóveis e reparações destes.
Foi nessa altura que o Luís ingressou num grupo onde eu e os meus irmãos já pontuávamos.
A Quinta do Palácio,linda com os seus jardins de rendilhadas sebes de buxo,coleantes lagos artificiais,terraços,palmeiras,a enorme quinta de arruamentos traçados a régua e esquadro,muitas árvores de fruto e tanques de água,com a particularidade de um deles ter uma casa no meio,um bonito e exótico pavilhão de caça,funcionava,quando os seus proprietários se encontravam em Lisboa,o que era frequente,como nosso lugar privilegiado especialmente aos domingos,para aventuras e caçadas às espécies aladas relativamente abundantes e para passeios de bicicleta.É claro,nas bicicletas das "meninas do Palácio",filhas dos proprietários da quinta.
E é a propósito de bicicletas que conto um episódio protagonizado pelo Luís.
Durante as férias grandes, as "meninas"passavam os dias em corridas pela quinta.Sempre que as máquinas precisavam de qualquer pequena reparação ou de ar nos pneus,dirigiam-se à central buscando o nosso auxílio.E tinham especial preferência pelos serviços do Luís.
Como elas tinham altura física desigual e as bicicletas não chegavam para todas,constantemente estavam a pedir para subir ou baixar os selins.Até que o Luís,farto de as aturar,disse para o meu irmão:"Sr.Zeca,agora vou mudar de nome,passo a chamar-me "Luís Selim,Upa-Upa"!
São tantas as aventuras que vivemos em comum,suficientes para encher muitas páginas.Um dia,quem sabe,talvez o farei.Apenas porque esse nosso glorioso tempo retrata uma época da vida condeixense.
A seguir à casa do Luís e a querer avançar para a rua,era o talho do Fontes.No andar de cima,estava instalado o Cartório Notarial dirigido pelo Dr. José Pedro,cujo fino humor não deixava escapar a mais pequena oportunidade de empregar a veia poética para,com ironia cáustica,ridicularizar quem merecia.
Na porta ao lado da íngreme escada do Cartório,a taberna do Joaquim Loio onde íamos vender ferro-velho.Tinha duas filhas,sendo a mais velha uma das mais bonitas jovens de Condeixa.
Na sequência das estreitas moradias,destacavam-se três casas,pelos seus portões:o talho do Fontes,a taberna do Lóio e a cocheira do velho António Fontes,por esta ordem. Este tinha uma caterva de filhos e era um homem agreste.Talvez não fosse estranho a isto,o facto de ser negociante de gado.Diziam ter pisado um arco de pipa que lhe provocou grave ferimento na canela de uma das pernas.Em vez de ir ao médico,resolveu fazer ele próprio o curativo com os remédios usados nas mazelas dos animais.O resultado foi uma grave infecção seguida de gangrena,sendo necessário fazer a amputação daquele membro inferior.
O mau feitio acentuou-se depois deste desaire.Recordo-me de o ver à porta,sentado num banco e tratando mal quase toda a gente.
A seguir,era a casa da Ti Lina Rasteira(Resmunga).Um dos filhos,o António,era deficiente das pernas.Locomovia-se com grande dificuldade,mas mesmo assim acompanhou um dia o Zé Chorina até ao Paço.Foi no inverno e o tanque do Galaitas estava cheio.Assim transbordante,as rãs repousavam na borda e o António tentou apanhar uma.Infelizmente desequilibrou-se e caiu à água.O Zé ainda tentou socorrê-lo mas não conseguindo,correu à quinta do Paço(hoje Pousada de Santa Cristina),a buscar auxílio.Quando a ajuda chegou,já o infeliz tinha sucumbido.Este foi o único acidente grave registado naquele tanque,tantos anos servindo de piscina da vila.
Na casa ao lado,morava a Ti Adelaide Cavaca,mãe da Soledade e da Conceição.
Creio não errar se disser que as Cavacas eram das mais características moradoras de Condeixinha.E se o bairro tinha gente que se distinguia dos demais habitantes da vila!
A Soledade foi uma das figuras típicas de Condeixa.Com um feitio algo rude e por vezes demasiado extrovertido,tão depressa se zangava,como no momento seguinte já não era nada com ela.Com os seus oitenta e tal anos,era uma memória viva destas últimas quatro dezenas de anos.Também graças a si consegui recordar alguns factos para estas crónicas.
Pouco tempo antes de morrer súbitamente,contou-me uma "estória" que retrata a sociedade provinciana e bacoca da velha Condeixa.
A casa onde actualmente está o Restaurante Madeira,na Praça,foi em tempos uma loja de fazendas.Já depois de ser encerrada,um grupo de jovens pediu o local ao proprietário,Justiniano Geraldes,para ali realizar um baile ,ao qual só teria acesso quem tivesse convite.E estes eram apenas para as "meninas de meia-tigela"(nas palavras da Soledade),ou seja,as burguesinhas da terra.É claro que raparigas como ela,"criadas de servir",não tinham lugar na festa.
Mas José Rasteiro Relvão(Zé Moca),maroto como sempre e com o secreto desejo de ridicularizar os promotores do evento,ofereceu-lhe uma entrada.À noite, foi com a mãe ao baile.Como tinha convite,o porteiro deixou-as entrar.Porém lá dentro,os elementos promotores ficaram escandalizados com a situação e um deles dirigiu-se à Soledade pedindo-lhe para mostrar o convite.Na impossibilidade de expulsar quem estava devidamente documentada e temendo o escândalo,tiveram de aceitar a situação,para desagrado das "meninas" presentes.Entretanto a Soledade,apercebendo-se do que se estava a passar,dançou uma última valsa,como só ela sabia e abandonou o local onde não era desejada,mostrando que os humildes também têm orgulho e não se submetem a subserviências gratuitas.
Ao lado da Ti Adelaide,morou o Zé Caleiras,marceneiro e construtor de móveis modestos.Nunca recusava os pedidos da garotada para fazer rodas de carretas ou construir carros com as caixas de sardinha,dadas ou rapinadas à Ti Maria Barbeira.Nesses carros desciam depois os miúdos ladeira abaixo em corridas só travadas por trambolhões a provocar esfoladelas e cabeças partidas.
A irmã do Zé Caleiras era especialista a "tirar o quebranto",uma prática que consiste na utilização de um prato com água onde se vão vertendo gotas de azeite,acompanhando o acto com rezas, para exorcizar pragas e maus-olhados.
Contava-se que o Caleiras,indo um dia de bicicleta,atropelou uma mulher.Em vez de socorrer a pobre estatelada no chão,disse:"Ó Maria,calha bem porque queria falar contigo!"
continua