terça-feira, 5 de janeiro de 2010

LUGARES DE CONDEIXA-A RUA PRINCIPAL

A PRAÇA



O antigo Terreiro,passou a designar-se Praça da República logo após a implantação desta.

Porque é um espaço muito importante da vila,terá na devida altura direito a crónica própria.

À esquina da estreita entrada para Condeixinha,há um grande edifício revestido de pedra,o único exemplar do género existente na terra porque o proprietário era dono das pedreiras de Condeixa-a-Velha,onde se extraiam as mós de moinho,as melhores,exportadas até para o estrangeiro.

Neste prédio está ainda instalada a Farmácia Rocha.O pai das actuais proprietárias,Dr.Júlio Pires da Rocha,licenciado em Farmácia,era criador de vários medicamentos que manipulava no seu laboratório.

Até há bem pouco tempo,a farmácia configurava-se como exemplar característico dos estabelecimentos congéneres do século XIX.

Armários onde se alinhavam os diversos medicamentos,um pequeno balcão e ao centro deste a indispensável balança de precisão encerrada num cofre de madeira e vidro.

Embora muitos dos medicamentos fossem já de venda comum nas farmácias,alguns remédios eram ainda de outro século:papas de linhaça que tanto davam para amolecer um furúnculo como para tratar uma pneumonia;pomada das infecções,negra como pez,vendida em pequenas caixas cilíndricas,além dos "poses p'ró estômago",soluções alcalinas ou simplesmente bicarbonato de sódio.´Até aos meados do século XX,o passeio da farmácia servia de local de tertúlia onde ao fim da tarde se reuniam algumas das personalidades da vila(médicos,juiz,pároco,etc.).


Um pouco mais adiante,o Café Imperial,de António Caridade Paula(António Miro).

Creio ter sido em 1945 que uma antiga loja de cereais há muito encerrada,foi transformada num belo café,cotado entre os melhores do distrito.

Amplo,tinha nas paredes laterais grandes espelhos redondos e candeeiros a gás,para suprir a eventual falha eléctrica e um lindo tecto de gesso repuxado e pintado,dando a ideia de lago de águas encrespadas brilhando em prata.O robusto mobiliário de madeira,foi executado por encomenda.

Na frontaria,uma pequena montra de um lado e larga vidraça do outro,conferiam ao estabelecimento boa luminosidade.Completava o conjunto a esplanada,roubada ao espaço do passeio,com pala superior de armação de ferro e vidro martelado.

Devido à magnífica localização,o Café Imperial era o mais frequentado da vila.Mas o proprietário também contribuía para a reputação do estabelecimento.Competente profissional,sabia como servir bem os clientes.

O lote de café era das melhores marcas e a máquina,duas elevadas torres niqueladas,com torneiras,aquecida por fogareiro a petróleo,só utilizava a quantidade de café conveniente para o correcto número de "bicas".As borras,ainda com boa capacidade de reutilização,eram dadas a pessoas necessitadas.

Antes do advento da televisão,os relatos de futebol através da rádio,especialmente os desafios de hóquei em patins,no tempo áureo da Selecção Nacional,campeã mundial da modalidade,eram escutados com fervor no rádio do café.E os clientes deliravam com os fantásticos golos do Jesus Correia ou do Sidónio Serpa e as defesas acrobáticas do Emídio Pinto.

O Café Imperial foi indubitávelmente um marco da vida social condeixense daquela época.

O prédio seguinte,era um estabelecimento de fazendas e pertencia a Manuel Alípio Coelho de Paula.(hoje é um restaurante).


Depois,a mercearia de David Salazar.No subterrâneo da sua casa existia uma gruta,a "cova funda",que ia quase até ao meio da Praça,paralelamente ao troço escondido do rio Caldeirão,exactamente ao encontro do local onde se situava a frontaria do prédio,posteriormente demolido,do Palácio dos Sás.Dizia-se que esse túnel servia,em tempos remotos,de escapatória aos proprietários do palácio,caso se tornasse necessário.


Logo a seguir,na esquina,a pequena papelaria da Sra.Marquinhas Pena,vulgarmente conhecida como "Marquinhas Bicha".Recordo-a como uma senhora de idade,baixinha e muito simpática,que vendia os cadernos e as lousas para os miúdos das escolas e falava com eles como se estivesse a tratar com adultos.No mesmo prédio,depois da esquina,a loja de sua filha,Soledade(Bicha).O estabelecimento tinha prateleiras onde se alinhavam urnas de pinho cru,sem qualquer ornamento.Curiosamente,apesar da estranha mercadoria,a loja não inspirava a natural aversão que motiva a presença dos artefactos macabros.


Depois,a papelaria de Isaac Pinto,com departamento de fotografia,esta última função da responsabilidade de seu filho José Pinto,fotógrafo artista,de quem ainda hoje podemos apreciar valiosos clichés que retratam o quotidiano condeixense do tempo.Isaac Pinto foi uma das mais importantes figuras culturais da vila,na primeira metade do século XX.Conhecedor profundo da vida social e cultural de Condeixa por nela participar activamente,foi,como ele um dia escreveu no jornal "A Pátria",co-fundador do Orfeon de Condeixa.Deixou para a posteridade grande número de escritos que documentam não só a época,mas factos antigos obtidos por persistente investigação.Muitos desses testemunhos,manuscritos,ficaram em mãos de familiares ou amigos e nunca foram editados.Felizmente,um dos mais importantes,um trabalho reunido em onze fascículos com o título genérico "Subsídios para a História de Condeixa",realizado em parceria com o veterinário municipal Dr.Fernando de Sá Viana Rebelo,foi editado pela Tipografia Ética,de Condeixa.Também a Igreja de Santa Cristina,na reconstrução que sofreu no princípio do século XX,beneficiou bastante com a sua sensibilidade artistica e profundo conhecimento da história daquele templo.Dos diversos artigos vendidos na papelaria:jornais,revistas e livros,contava-se uma publicação bissemanal de banda desenhada,"O Mosquito",bastante apetecida pelos garotos do meu tempo.Na falta de capacidade monetária para a adquirir e como o meu pai era assinante do jornal "O Século",em dia de saída do caderninho de bonecos,era eu que ia buscar o diário pois o Sr.Isaac deixava-me ler aquela edição infantil.No mesmo prédio,o Café Conímbriga,propriedade de José Pinto e Jaime dos Santos.Este café tinha nas paredes interiores belos frescos alusivos a alguns dos mais interessantes mosaicos de Conímbriga.


Com este estabelecimento,termina a Rua da Praça.


LARGO RODRIGO DA FONSECA MAGALHÃES


Começa o Largo,com a Igreja Matriz,dedicada a Santa Cristina,padroeira dos moleiros,profissão muito disseminada na vila.

Dizem os historiadores que em 1502 quando o Rei D.Manuel I passou a caminho de Santiago da Galiza,por achar a igreja muito pequena e em mau estado de conservação,mandou que novo templo se construísse.Disso encarregou os frades de Santa Cruz de Coimbra.Recorro à Monografia do Capitão Santos Conceição,que refere o livrinho do Cartório daquele Mosteiro,datado de 1521:"Contrato e obrigações que fizeram os moradores de Condeixa-a-Nova à fábrica do corpo da Igreja e altares dela;e o mosteiro se obrigou à fábrica da Capela Mor".Já em 1522,dizia o mesmo livro:"Obrigação que fizeram os moradores de Condeixa-a-Nova de darem toda a prata que for necessária para ornato e serviço da Igreja de Santa Cristina".

A nova Igreja deve ter sido acabada em 1543.Possui ampla nave e tinha o tecto abobadado,pintado com lindos frescos que,devido às sucessivas inflitrações da chuva, ficou bastante degradado e foi coberto com paineis de madeira,já na década de 1960.A Igreja,toda feita em pedra de Ançã lavrada,tinha os lambris das paredes interiores forrados com azulejos dourados.Havia nesta Igreja três capelas particulares,uma de D. Lourenço de Almada,senhor do Paço dos Almadas,outra de João de Sá Pereira,da Casa dos Sás e ainda outra dos Morgados de Morais Botelho,da Casa do Salgueiro.Hoje só a Casa dos Sás mantém a "sua" Capela.

O templo foi completamente destruído por incêndio durante as invasões francesas e muito mal restaurado no século XIX,quando inclusivamente entaiparam algumas capelas.No início do século XX foi remodelada com grande rigor,graças à sensibilidade artística e intelectual de Isaac Pinto e do Padre Dr.João Antunes.

Em frente à Igreja,um edifício que foi propriedade de João Pimentel das Neves,personalidade de grande importância no percurso cultural da vila.Foi encenador de vários grupos de teatro amador e ocupou ainda por diversas vezes o cargo de presidente do Clube de Condeixa.Em 27 de Abril de 1974,chefiou a Comissão Administrativa da Câmara Municipal,conjuntamente com António Caniceiro da Costa e Fortunato Pires da Rocha.

O prédio ao lado pertencia a José Dias Ferreira e,como já tive oportunidade de referir,foi ali que nasceu Rodrigo da Fonseca Magalhães.No rés-do-chão está instalado o mais antigo estabelecimento de Condeixa,sempre do mesmo ramo,uma centenária loja de ferragens.

No espaço entre o corpo da Igreja e os actuais Paços do Concelho,existiu também outra loja de ferragens que pertencia à família Pires Machado,mas era conhecida como "a loja do Sr.Franklim".

O largo que se inicia após este estabelecimento era um dos locais utilizados pelo mercado bissemanal e por isso conhecido como Feira das Galinhas.O seu nome verdadeiro é:

LARGO ARTUR BARRETO

O edifício dos actuais Paços do Concelho domina todo o local.Datado da primeira metade do século XVII,pertenceu aos Condes de Portalegre e também foi conhecido como Palácio do Capitão-Mor.Para a posteridade ficou no entanto o nome de família de um dos proprietários,Figueiredo da Guerra,embora a pedra de armas que ostenta sobre o portão seja dos Cabrais,também seus antigos donos .

Numa visita que fiz às ruínas da Quinta de S.Tomé,vi embutidos na parede interior da capela dois brasões dos Figueiredos da Guerra,sendo um deles presumivelmente o que esteve na frontaria do palácio do Largo Artur Barreto.Tem forma rectangular e é ladeado por duas volutas,uma invertida da outra.Lavrado em pedra calcária(Ançã?),está decorado com artistico entrelaçado de folhas de acanto gótico em relevo.No centro tem um escudo no qual estão cinco folhas de figueira,duas em cima,duas em baixo e uma ao centro.De cada lado desta,as letras A e I.A encimar o escudo,um elmo com leão coroado .Por cima desta pedra,estava um escudo mais pequeno,em tudo semelhante ao anteriormente descrito,mas sem leão sobre o elmo.Dado o estado de ruína da referida capela e temendo a derrocada iminente com a consequente destruição das pedras de armas,em 2005 pedi ao Presidente da Câmara,Eng,Jorge Bento que as mandasse retirar.Ele mais tarde informou-me tê-lo feito e ordenado que fossem recolhidas no estaleiro(?),junto ao cemitério!

Na terceira invasão francesa,as tropas de Massena e Ney,além de muitos outros edifícios da vila,também vandalizaram e incendiaram o palácio dos Figueiredos da Guerra.Em 1857 foi vendido a Albino Justiniano de Carvalho,que o mandou reconstruir respeitando a primitiva arquitectura.Porém os belos azulejos do século XVII representando motivos de caça e que decoravam as escadas e varanda do pátio interior,não foram recuperados.O velho edifício foi posteriormente herdado por Artur da Conceição Barreto que o doou,juntamente com alguns prédios confinantes,à Fundação Hospital D.Ana Laboreiro d'Eça.Já no século XX estiveram lá instalados vários serviços.No 1º andar,o Tribunal Judicial e a sede do Clube de Condeixa.No rés-do-chão,um armazém de mercearias,um estaleiro de materiais de construção e uma oficina de marcenaria.Entretanto a Câmara adquiriu o imóvel.Depois de profundas obras de reconstrução e remodelação,transformou o vetusto edifício em Paços do Concelho,um destino que dignificou os serviços ali instalados e preservou o património arquitectónico da vila.

A velha Feira das Galinhas é hoje um agradável jardim que colocou em maior destaque o Monumento aos Mortos da 1ªGrande Guerra,o primeiro a ser erigido no nosso país,exactamente em 9 de Março de 1921.Quando o largo era um simples terreiro,ali se realizavam espectáculos ao ar livre com companhias de saltimbancos,grupos de acrobatas que percorriam o país de lés a lés,actuando nas pequenas localidades.

Em frente à Câmara,o prédio que tem a placa com o nome do largo,foi desenhado pelo conceituado arquitecto Raul Lino,autor de vários projectos como a"Casa dos Patudos",em Alpiarça e o palacete do Dr.Ângelo da Fonseca,onde está instalado o Governo Civil de Coimbra.

Paredes meias,era a loja de solas e cabedais de José Lopes Cardoso que no Canto,por detrás do prédio do estabelecimento,montou uma pequena industria de manufactura de calçado.A sapataria tinha uma curiosa forma de comercializar a sua mercadoria.Os clientes adquiriam uma caderneta onde era afixada a quantia periódica paga e constituía no final,a importância do valor comprado.A cada caderneta era atribuído um número.Semanalmente,se esse número correspondia aos últimos algarismos do primeiro prémio da lotaria nacional,o dono da caderneta era brindado com a oferta do calçado sem precisar de continuar a pagar prestações.

Depois de um breve passeio que marcava a antiga cota do largo, existiu um alto patamar com escada.Quando se fez o rebaixamento da rua que segue para a Faia,as casas já existentes ficaram numa cota superior.Daí a necessidade de construir patamares para seus acessos.

A terminar o Largo Artur Barreto,a casa onde nasceu o médico e romancista Dr.Fernando Namora que legou todo o seu espólio literário e pictórico a Condeixa.Hoje o prédio é a Casa Museu Fernando Namora.

RUA D.ELSA FRANCO SOTTO MAYOR

Começava a rua com o armazém de vinhos da firma Moita & Companhia,um longo barracão de parede e telhado,com tonéis e vazilhas do alcoólico líquido.Esta rua,no meu tempo,pouco tinha a assinalar.A actual Rua Fernando Namora,(que ia dar aos terrenos do Paraíso,ao fundo da fonte do Outeiro,um local várias vezes utilizado para instalações de circos e barracas de diversão ou,por vezes,barracas de teatro itinerante), tem mesmo à esquina,um prédio que,quando andava em construção originou um episódio engraçado.A futura inquilina foi ver como decorriam as obras.Ao passar junto à inacabada casa-de-banho,disse ao dono da obra:"Então e o bidé?Não se equeça de mandar colocar o bidé!".O homem que nunca tinha ouvido falar em tal coisa,calou-se.Durante o decorrer da visita,a senhora falou várias vezes no acessório e quando ia a despedir-se,ainda recomendou:"Não se esqueça do bidé!"Aí ele passou-se!Desconhecendo em absoluto para que servia tal coisa,perguntou desabridamente:"P'ra que raio quer a senhora o bidé?"A casa ficou,após isto,conhecida como "a casa do bidé".

Quase ao fim da rua existia a Fonte da Caraça,designação para mim incompreensível pois nada lá havia que justificasse o nome.Localizava-se numa cota bastante inferior à rua e o acesso fazia-se através de escada de longos degraus.A fonte,própriamente dita,era bonita,toda em azulejos policromados,mas o local estava sempre conspurcado.As pessoas lançavam de cima toda a qualidade de lixo e,como era habitual naquele tempo,por falta de instalações sanitárias,muita gente aproveitava o facto de ser um sítio recatado e utilizavam-no como retrete pública.Aliás,não era apenas a Fonte da Caraça que servia de sentina.O Penedo,local ermo e sem iluminação,era por excelência o sítio mais apetecido.

Quando construíram as instalações da Casa do Povo,a fonte foi tapada.Mas nessa altura retiraram de lá os bonitos azulejos que hoje estarão a decorar algum jardim particular.

Um pouco mais abaixo,junto ao actual acesso ao Quartel da GNR,era a Auto-Mecânica de Condeixa,um estabelecimento polivalente com estação de serviço,lavagem de viaturas,venda e mudança de pneus,oficina de automóveis,secção de pintura e bombas de abastecimento de combustíveis.Edificada no início da década de 1950,era bastante moderna para a época.

Mais além,aquela que deu nome popular à rua,a Faia,uma frondosa árvore bem no entroncamento de três vias importantes,a Estrada Nacional nº1,a estrada para Soure e a estrada para Alfarelos.

O nome derivava do facto de ali ter existido uma grande árvore desta espécie.No entanto,aquela que chegou aos nossos dias,mesmo centenária,não era faia.Podemos talvez situá-la na família dos plátanos.A Faia,apesar de ser considerada árvore de interesse público por decreto de 6 de Fevereiro de 1942,foi abatida por motivo das obras que se operaram com a abertura da estrada para Tomar.

Para finalizar a descrição da Rua Pricipal,resta falar no Faia-Bar,mais conhecido por Café do Arranhado.Era propriedade de Joaquim Pocinho(Quim Arranhado).O pai,Joaquim Duarte Pocinho,era um excelente serralheiro de ferro forjado e esteve longos anos emigrado na Venezuela.

Terminou esta viagem no tempo pela Rua Principal.Porque se trata da maior artéria da vila,tive alguma dificuldade em retirar da memória factos e pessoas duma época já tão distante.Quando refiro factos históricos,baseio-me em informação que devidamente referi.Porém essa fonte é a mais fácil de obter,porque está ao dispor de quem a queira procurar.A outra,a estória de pessoas e factos ocorridos com elas é,no fundo,a que mais me incentivou a escrever estas crónicas.Porque afinal,a memória de um local está na vivência dos seus habitantes,num determinado momento da vida.Evidentemente,muitas coisas ficaram por contar.Das referidas,uma ou outra será susceptível de contestação.Naturalmente,terei de assumir a respectiva responsabilidade e as criticas adjacentes.

Condeixa,ano de 2007 Cândido Pereira




quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

LUGARES DE CONDEIXA-A RUA PRINCIPAL

continuação



Em frente há dois grandes edifícios.Em um deles estiveram instalados os serviços de Tesouraria da Fazenda Pública e a Repartição de Finanças.No outro,a Estação de Correios.
Esta última casa(actualmente, firma Coelho e Viais),foi também sede do Clube de Condeixa.No vasto salão,tinham lugar os jogos de bilhar livre,ping-pong e jogos de cartas ou dominó.
Quando se realizavam bailes,o que era frequente,as mesas eram retiradas e sobre o bilhar colocava-se um estrado que servia de palanque à orquestra.No pequeno compartimento sob as escadas estava instalada a aparelhagem sonora que,na falta de orquestra animava(e de que forma!)os bailes.Era constituída por um amplificador de som,um gira-discos de agulha e um microfone.Os discos de 33-45 ou 78 rotações,forneciam a necessária música.
O operador deste aparato era eu e muitas vezes punha o disco a tocar e saltava para a pista de baile para dançar.Certa vez ,para animar a sessão,promovi uma prova de resistência na qual o par vencedor seria o que mais tempo aguentasse a dançar.Quando a agulha chegava ao fim do disco,num movimento rápido colocava-a no início e assim sucessivamente,até que deixou de haver agulha.E disco,claro!
o 1ºandar estavam localizadas as salas de jogos de cartas,gabinte da direcção e biblioteca.Esta era formada por cerca de 600 volumes,adquiridos através de uma comissão organizada para o efeito.A aceitação do evento colheu rápidos resultados.
A biblioteca do Clube teve uma função meritória na formação cultural de alguns jovens de Condeixa,Num tempo de dificuldades financeiras,comprar livros constituía um luxo(ainda constitui,apesar de terem passado 60 anos!),quando outras necessidades mais prementes se sobrepunham ao alimento do espírito.
Esta,resumidamente,era a vivência do Clube de Condeixa naquele local e nessa época.
Ao lado do Clube,era a latoaria de Hermenegildo Pinho de Carvalho.Hoje chamar-se-ia Micro Unidade de Produção Artesanal,pois ali se fabricavam os mais variados utensílios de folha de flandres.
A partir de uma simples lâmina e apenas com o recurso a ferramentas vulgares habilidosamente manuseadas,surgiam tachos,panelas,almotolias,cântaros para a água,os mais diversos objectos indispensáveis à vida quotidiana desse tempo.
Na proximidade do dia de finados,a produção destinava-se à pia homenagem aos mortos queridos.
Simples candeias com pouca lata e muito vidro ou artísticas lanternas de folhas lavradas e ramos retorcidos e entrelaçados.Verdadeiras obras de arte!As mãos que produziam tão úteis e admiráveis peças,eram do próprio Hermenegildo Carvalho,de seu filho Alberto e de seu sobrinho Vital Preces.
Do outro lado da rua e pegada a uma barbearia,era a casa da Carmo Macia.Viúva ainda nova e com um filho para criar,tinha uma pequena mercearia de pouca freguesia,que ainda por cima utilizava o sistema:"aponte aí,que eu depois pago..."Quando pagava! Por tudo isto,a Carmo Macia era uma mulher brusca,de feitio azedo.Um dia,andava ela a varrer a loja, quando entrou pela porta um desses caixeiros-viajantes aperaltados.Pensando estar a falar com uma criada,perguntou pelo senhor Macio.Ora este não era o verdadeiro apelido,mas sim alcunha,da qual ela pouco gostava.Assim,respondeu furiosa:"O senhor Macio,está na raiz da puta que o pariu!"
Depois,um espaço formado pela junção de três ruas,o antigo Largo António Granjo que tem na casa do Rui da Costa(actualmente é de sua filha),mais um dos Passos do percurso da Procissão,encimado por lindo painel de azulejos com a data de1752 inscrita no cume.
Não se conhece a origem da Procissão dos Passos.Sabe-se apenas que em 1682,D.Lourenço Vaz de Almada,José Rodrigues Ramalho e Francisco Moniz Maginário,assinaram o Compromisso da Confraria das Almas,mas só em 1885 esta se passou a chamar Confraria das Almas e Senhor dos Passos.No entanto,pela data inserida nos azulejos,não há qualquer razão para duvidar:a Procissão realizava-se já,pelo menos,nesse recuado tempo!



Com o Largo António Granjo,termina a Rua de Lopo Vaz.


A casa que agora ostenta a placa com o nome da Rua 25 de Abril,foi em tempos a habitação e estabelecimento de barbearia de António de Oliveira(António do Zé Velho),patriarca da família Oliveira,tão importante no panorama cultural da vila.António de Oliveira foi,além de excelente profissional,um profícuo compositor musical popular.As suas músicas eram executadas por diversos conjuntos folclóricos e andavam na boca de toda a gente.Ainda hoje essas belas melodias são escutadas com muito agrado.
Com seus filhos Ramiro e Saúl,o primeiro com a faculdade também da composição poética,formou um trio responsável pelas mais belas canções,algumas delas difundidas através das revistas populares condeixenses de meados do século XX.
A barbearia era a mais conceituada de Condeixa.A maior parte dos profissionais,na vila ou mesmo de fora,passou como aprendiz da Barbearia Progresso.
Recordo um episódio passado neste estabelecimento.Uma das formas de tratar do cabelo,quando este não era suficientemente comprido para justificar um corte maior,consistia em "dar um caldo",ou seja,aparar apenas na nuca e sobre as orelhas.O preço,além disso,era inferior ao corte mais radical.A "aparadela",motivou o equívoco.Um dia,sentou-se na cadeira um freguês que desconhecia o termo.Quando mestre António ,depois de lhe fazer a barba,perguntou se queria "um caldinho",ele respondeu:" Muito obrigado,acabei agora de almoçar".
Por cima da barbearia,esteve instalada a primeira sede do Clube de Condeixa.
Nesse tempo era uma colectividade elitista,só admitindo como sócios determinadas figuras gradas da terra.Mais tarde,o Clube passou para o outro lado da rua,para o prédio chamado"do Coronel Monteiro"(um belo edifício,demolido e dando lugar a uma vulgar imitação).
Com a nova localização,abriu-se colectividade à democrática inscrição de associados..
A actividade social colectiva estava nesse tempo confinada à Casa do Povo,que nesse tempo era na Feira das Galinhas(Largo Artur Barreto) e possuía apenas uma sala onde se jogava pig-pong, jogos de damas e se lia a Flama e o Amigo do Povo,jornais do regíme então vigente.
Era portanto insuficiente a oferta de locais de lazer para a juventude.
O Clube,no prédio do Coronel Monteiro,veio colmatar essa falta.Vasto,nos seus dois andares e águas-furtadas,possuía condições sofrívelmente aceitáveis para a prática de algumas actividades.Recordo dessa altura a realização de um Ciclo de Cinema e Exposição Fotográfica.Foi também a partir dessa data que se construiu o primeiro campo de futebol,na Quinta dos Silvais,mesmo ao lado do actual.Para além disso,a sede oferecia aos sócios as habituais diversões de jogos.As cartas,para os sócios adultos,já com certa estabilização económica,tinham uma sala no 2ºandar,mas os jovens utilizavam o pequeno compartimento da trapeira,que transformaram numa espécie de casino,com jogos a dinheiro.O montante das mesas nunca suportava grandes quantias,mas apesar disso já constituía algo de monta para as nossas fracas capacidades financeiras.
O prédio descrito,foi mais tarde adaptado a pensão residencial,chamada Pensão Lapa.Também no rés-do-chão esteve instalado o talho de Manuel Claro.
Em frente,era a casa de Adelino Guiné,com estabelecimento de padaria e respectivo forno.
O filho,Adelino também,com uma profissão deveras esgotante,enquanto a massa levedava e o forno aquecia,aproveitava o breve momento de descanso para fazer "uma perninha" no nosso casino.Muitas vezes o acompanhei depois até à padaria para lhe fazer companhia ou eventualmente prestar alguma ajuda.A paga consistia em poder comer aquele delicioso pão acabadinho de sair do forno.
Apesar de passar a noite a trabalhar,o Adelino de manhã pegava na "pasteleira",uma pesada bicicleta com um cesto de verga de cada lado do suporte e ia dar a volta,na venda do pão.Isso exigia um esforço extraordinário,mas ele,embora baixo,era bem constituído e musculado.A sua capacidade física permitia que realizasse corridas de bicicleta onde os opositores eram sempre vencidos.Foi por esse motivo convidado a integrar a equipa do Clube Académico do Porto,uma colectividade dedicada ao ciclismo e detentora de vários prémios na Volta a Portugal.Não foi porém longa a sua carreira.Pouco tempo depois partiu para a Venezuela como emigrante e lá se radicou.
Do mesmo lado da rua e um pouco mais abaixo,num prédio onde agora existe uma ourivesaria,era a loja da Julinha Pires que fazia uns deliciosos rebuçados de mel.
No tempo da 2ª Grande Guerra, não havia açucar por causa do "racionamento" imposto pela escassez de bens de consumo.Então,para adoçar o café ou o leite,comprava-se esses rebuçados que obtinham quase o mesmo efeito.Pelo menos eram muito mais saudáveis.
O proprietário da casa contígua,era o Zé Bacalhau(José Júlio Bacalhau).Tinha no estreito rés-do-chão um estabelecimento de mercearia e vinhos.O filho deste comerciante,Júlio da Costa Bacalhau,contou-me uma história que,a par de tantas outras,retrata os tempos difíceis que então se viviam.
Condeixa,sendo trajecto obrigatório do trânsito Lisboa-Porto,por cá passavam camionetas de mercadorias de empresas especializadas em transportes.Passavam e paravam,para os tripulantes tomarem as refeições.Quase sempre nos Antónios ou no Zé David,mas também no Zé Bacalhau.
Essas camionetas tinham normalmente duas pessoas,o condutor e o ajudante.O primeiro,dada a função que exercia,ganhava mais que o ajudante,talvez até o dobro.Quando vinham do Porto,o motorista comprava sempre na Mealhada um pouco de leitão e o seu parceiro pedia que lhe dessem algum molho e trazia-o num frasco.Quando paravam para almoçar no Zé Bacalhau,enquanto o motorista colocava a sua dose de leitão num pão e comia,acompanhando com um bom tinto,o ajudante pedia à esposa do lojista para lhe aquecer o molho e vertia-o sobre o pão.Era a refeição que a sua parca capacidade monetária permitia!

Dois ou três prédios adiante,termina a Rua 25 de Abril.
continua


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

LUGARES DE CONDEIXA-A RUA PRINCIPAL


Em 2006 escrevi um exercício de memória(já aqui publicado),que pretendia ser o retrato de um dos mais típicos bairros da vila, no caso Condeixinha. Dei-lhe então o nome de"Estrada de Pedra",porque hoje aquela íngreme e coleante via, empedrada não sei porque peregrina ideia, perdeu a pacatez de rua interior, para adquirir a indesejada condição de estrada obrigatória para quem pretende aceder à Estrada Nacional.

Posteriormente, disse para os meus botões:"E porque não descrever outros bairros, outros lugares, exercícios que, reunidos, formassem um todo intitulado- «Lugares da minha terra»?

Pesava no entanto o reconhecimento de quão difícil seria a tarefa, mormente para quem não pode arriscar-se, por falta de capacidade literária, em compridas laudas.

Entretanto, o grande incentivo do desafio era poder deixar aos meus descendentes ou a quem eventualmente venha a ler estes escritos, testemunho da vila de Condeixa na primeira metade do século vinte.

No momento em que escrevo, passaram-se mais de sessenta anos sobre essa data. A maior parte das pessoas que refiro, senão a totalidade, desapareceu, e até os locais descritos estão, aqui e acolá, completamente alterados.

O Paço dos Almadas, foi demolido. A casa dos Antónios ,com o seu bonito alpendre e escada de pedra, deu lugar a um inestético bloco habitacional, em cimento .Quanto aos Borregas ,nem descendentes têm já na terra!

Dizem os entendidos que é o progresso! Será! As pessoas vivem e morrem. Ninguém pode fazer seja o que for para o evitar! Mas destruir sistematicamente locais que caracterizam uma terra, não se pode chamar progresso e sim insensibilidade, ou pior desprezo pelas raízes."Um País sem memória, é um País incapaz de compreender a sua própria história",disse José Cardoso Pires.

Já que os edifícios, as características de um lugar, a própria mística que envolvia os nossos bairros, tudo desapareceu, fique ao menos a recordação dos Tis e das Tis que, em boa verdade, creio já nem existirem!

Em Condeixa, a "Rua Principal" era simultaneamente a Estrada Nacional nº1.

Entrava pelo Paço ,junto ao Tanque do Galaitas e abandonava a vila deixando para trás a velha Faia e o Café do Arranhado, o Faia-Bar.

Embora hoje possa dizer-se que outras ruas têm estatuto idêntico, a verdade é que aquele comprido trajecto é ainda o mais apetecido em termos de comércio. E este, outrora incipiente ao inicio da rua, intensificava-se até à Feira das Galinhas (Largo Artur Barreto)e quase desaparecia Faia abaixo.

Vou começar o exercício, referindo os vários nomes da "Rua Principal".


RUA FRANCISCO DE LEMOS

Chama-se assim a antiga Rua de São João, desde o Paço até ao antigo edifício dos Paços do Concelho e o nome foi-lhe atribuído em honra a D. Francisco de Lemos Ramalho de Azeredo Coutinho, primeiro Presidente da Câmara Municipal e sobrinho-neto do Bispo-Conde D. Francisco de Lemos, Reitor reformador da Universidade de Coimbra, que mandou restaurar e transformar em lindo palácio o velho solar da Senhora da Piedade (hoje Palácio Sotto Mayor), para nele receber condignamente o Rei D. José, convidado a vir inaugurar os Estudos Gerais. Esta visita não chegou a realizar-se e em lugar do rei veio o seu Ministro, Marquês de Pombal, amigo íntimo do Bispo. Refiro a propósito ter sido o Bispo quem fez questão de pagar as despesas de funeral do antigo Ministro, quando este, caído em desgraça, faleceu em Pombal.

RUA DE LOPO VAZ

Entre o antigo prédio da Câmara e o outrora chamado Largo António Granjo, ao fundo da Rua Venceslau Martins de Carvalho (Rua Nova), o curto trajecto tem o nome de um ministro da Rainha D. Maria II, que almejou para Condeixa a categoria de sede de Comarca Judicial.

RUA DA REGENERAÇÃO/ RUA 25 DE ABRIL

O espaço que vai desde o final da rua anterior até à Praça, já teve várias designações.

No tempo em que a Estrada Real entrava pelo Cigano(por detrás da Casa do Povo),corria marginando o lado esquerdo do Caldeirão,surgia no Canto,em frente à Igreja,passava no Terreiro pelo Palácio dos Sás,percorria a estreita Rua Direita(Rua Dr.Fortunato de Carvalho Bandeira)e seguia para os Silvais,rumo a Coimbra,aquele trajecto,muito estreito,chamava-se Rua dos Fornos por ali existirem alguns desses locais comunitários onde o povo cozia a brôa.Mais tarde,já com a via alargada e melhorada,o trânsito passou a processar-se por lá e recebeu o nome de Rua da Regeneração,atribuição feita pelo presidente D.Francisco de Lemos,para honrar o seu Partido Regenerador.E com este nome ficou até outro presidente,desta vez do Estado Novo,alterar a designação para,como não podia deixar de ser,Rua Dr.Oliveira Salazar.Logo após a Revolução dos Cravos,foi-lhe atribuido o nome que ainda hoje ostenta:Rua 25 de Abril.

PRAÇA

Desde a cortada para Condeixinha e até à Igreja,a rua não tem um nome específico.Chama-se apenas "A Praça".
LARGO RODRIGO DA FONSECA MAGALHÃES

O Adro da Igreja,antigamente chamado também Largo do Conde,tem o nome de um ilustre filho de Condeixa.Rodrigo da Fonseca Magalhães,nasceu em 1788(na casa que pertence ao Dr.José Dias Ferreira,onde está instalada uma loja de ferragens,em frente à Igreja).Enquanto estudante pertenceu ao Batalhão Académico que combateu as tropas invasoras de Napoleão.Já no reinado de D.Maria II,foi presidente do Ministério e Conselheiro de Estado.Dos muitos serviços prestados à terra que o viu nascer,destacam-se a restauração do Concelho de Condeixa e o traçado definitivo da Estrada Nacional Lisboa-Porto.O Partido Regenerador,organizado em 1851,teve-o como primeiro presidente.Também Lisboa prestou homenagem a esta insigne figura,atribuindo o seu nome a uma das mais importantes ruas da capital.

LARGO ARTUR BARRETO

O antigo Largo da Feira das Galinhas tem o nome de um prestigiado benfeitor que legou ao Hospital D.Ana Laboreiro d'Eça importantes doações,nas quais estava incluído o Palácio dos Figueiredos da Guerra,actual edifício da Câmara.

RUA D.ELSA FRANCO SOTTO MAYOR

Finalmente,após o entroncamento com a rua que vem do Outeiro,toda aquela descida até à Faia,tem o nome de uma das mais altruístas senhoras de Condeixa,proprietária do palácio Sotto Mayor.

Este era o trajecto principal da vila.Quem viajava de norte para sul ou vice-versa,pela Estrada Nacional,tinha forçosamente de passar por dentro da vila,percorrendo as referidas ruas.

No final da década de 1950,iniciaram-se as obras do novo traçado da EN1,o desvio,que desde a Faia atravessa a Quinta das Fontainhas,Quinta do Travaz e a Varzea,seguindo para Coimbra.

Hoje Condeixa tem várias ruas de grande movimento.O Outeiro,a Palmeira,a Avenida e até a Serrada, mesmo sem tal pretenderem,têm o estatuto de estrada.Há sessenta anos,tirando o Outeiro,caminho obrigatório para o trânsito dirigido a Miranda ou Tomar,era de facto o trajecto entre o Paço e a Faia,a Rua Principal de Condeixa.

O meu propósito é retratar tão fielmente quanto for capaz,as ruas que compõem este caminho,as casas e pessoas que valha a pena referir.




O PAÇO
A entrada de Condeixa era assinalada por imenso reservatório de água,o Tanque do Galaitas,construído para movimentar a Fábrica,uma curiosa construção da época da Revolução Industrial,misto de lagar e moagem de cereais.
Durante largos anos serviu de piscina onde,além dos normais exercícios de natação,os condeixenses tomavam banho,no sentido de higiene corporal.Nesse tempo,eram raras as habitações que possuíam casa de banho ou sequer abastecimento público de água.
Aos domingos de manhã o local povoava-se de crianças e adultos,do sexo masculino (a decência imposta pela mentalidade da época,impedia meninas ou senhoras de participar naquelas divertidas e úteis práticas),devidamente apetrechados com toalha e sabão(as posses dos habituais utilizadores,não permitiam o uso do sabonete e o champô era coisa que desconheciam),para a higiene semanal.
Depois,era o Paço dos Almadas,que deu nome ao local,uma sólida construção com fachada,alas e jardim protegido por longo gradeamento de ferro fundido.
O edifício,provávelmente datado do século XVI,mas bastante alterado no decorrer do tempo,pertenceu na sua origem ao Conde de Avranches,D.Lourenço de Almada,combatente de Alcácer-Quibir,onde foi ferido e feito prisioneiro.
Era pai de D.Antão Vaz de Almada,que no dia 1º de Dezembro de 1640 aclamou D.João,Duque de Bragança,como rei de Portugal,o IV de seu nome,pondo fim a um domínio espanhol que durou 60 anos.A trama que levou a este desfecho,desenrolou-se no palácio dos Almadas,no Largo de S.Domingos,em Lisboa e que por essa razão passou a chamar-se Palácio da Independência.
Como todas as construções senhoriais da época,o Paço dos Almadas possuia capela,mas esta localizava-se fora do corpo do edifício e um pouco afastada,no largo em frente.Inicialmente era de culto a São João e durante muito tempo deu nome à rua.Mais tarde,passou a chamar-se Capela do Senhor da Agonia,pois era ali que o Senhor dos Passos ficava,quando da Procissão,de sábado para domingo.Neste dia,a imagem saía da capela e encontrava-se com o andor da Senhora da Soledade que entretanto ficava na capela da Senhora da Piedade.O Sermão do Encontro era proferido do alto da varanda do Palácio dos Lemos.Em 1940,o novo proprietário do Paço,Dr.Cândido Sotto Mayor,mandou derrubar a capela.que na altura já era considerada bem do povo e recolheu os santos no seu palácio.
O largo em frente ao Paço,onde estava a capela,tinha algumas habitações humildes.
A culminar a farta linha de água chamada "Regueira de Santo António",estava uma pirâmide artificial de estalactites a servir de pano de fundo ao "Quelhorras",curiosa estátua em pedra mostrando um soldado napoleónico(ou o próprio Napoleão?),com o tradicional chapéu de dois bicos colocado atravessado e a mão sobre o peito.A figura estava sentada sobre um enorme canhão de pedra,do qual jorrava a água que depois seguia para o Tanque do Galaitas.
O talhe da estátua era grosseiro,mostrando uma arte incipiente.Penso que tenha sido executada por algum dos muitos canteiros que existiam pela vila.
Quanto ao título,Quelhorras,há várias teorias para o justificar.Julgo ter sido atribuido espontâneamente por alguém ao ver aquele imenso falo,o canhão.Para tão descomunal sexo,seria necessário ter grandes testículos(quelhões,na gíria),que pelo tamanho,teriam de ser quelhorras.
O termo sempre foi depreciativo e as gentes da altura,afinavam quando alguém de fora lhes perguntava se o Quelhorras estava melhor.A estátua encontra-se actualmente colocada no pátio interior do Palácio Sotto Mayor.
O velho Paço dos Almadas foi demolido para no seu lugar erguerem a Pousada de Santa Cristina,apesar de uma empresa contratada pela Câmara Municipal ter indicado a necessidade de considerar o Paço e toda a sua envolvência,espaço de interesse histórico,recomendando a reconstrução do edifício!

RUA FRANCISCO DE LEMOS

No prolongamento da agora Pousada de Santa Cristina,há um longo edifício de dois pisos.Em 1947 foi adaptado para quartel da G.N.R.Era comandado por um cabo de nome Coelho e tinha apenas quatro ou cinco praças sob as suas ordens.Recordo os soldados Pimentel,Ribas,Gomes,Caldeira e Fernandes.

Em frente,a bonita fachada chã-maneirista,século XVIII,do antigo Palácio dos Lemos,hoje Palácio Sotto Mayor.

O Palácio,assim vulgarmente designado,até ao início da década de 1950 era uma das mais importantes entidades empregadoras de Condeixa.

A casa e respectiva quinta,a Quinta da Ventosa na Barreira e várias outras propriedades no concelho,necessitavam de uma verdadeira legião de trabalhadores em serviço permanente.Entre profissionais dos vários ofícios,criados e criadas,uma equipa de jardineiros,pessoal de lavoura,tudo isto gerido por um administrador e uma governante,elevava a contagem a muitas dezenas de pessoas.No entanto,todo este pessoal era insuficiente quando a proprietária,D.Elsa,promovia as suas festas,particulares ou populares. Estas últimas,realizadas no grande pátio interior,tinham um pagamento de entrada simbólico e o apuro total revertia a favor do Hospital.Desta forma,a D.Elsa divertia-se e ao povo e contribuia generosamente para a referida unidade de saúde,sustentada apenas com os donativos de benfeitores.

Recordo a última destas festas.Foi no verão de 1947,um ano antes do súbito falecimento da altruísta senhora.

Durante a montagem dos vários "Stands",alguns miúdos,entre eles eu próprio,colaboravam da forma que a pouca idade consentia.A meio da tarde íamos à copa,onde nos serviam cacau quente e pão com marmelada caseira.

Uma das atracções das festas era a roda gigante,não tão gigante assim,porque teria meia-dúzia de metros de altura.No entanto,para os nossos olhos infantis,tinha tamanho descomunal.Adorava a subida nos compartimentos móveis,mas a rápida descida provocava calafrios,com o estômago a querer chegar à garganta!

Desta festa,recordo um episódio, comum naquele tempo.A D.Elsa era madrinha de uma infinidade de gente(minha também).No Natal,reunia todos os afilhados num grande bodo seguido de distribuição de prendas.Na festa que já referi,quando ela desceu ao terreiro,formou-se grande fila de afilhados que pretendiam beijar-lhe a mão,ao que ela,magnânimamente acedia,qual Rainha condescendente!

No dia seguinte,a tarde foi preenchida com uma garraiada na qual marcou presença um jovem bandarilheiro,mais tarde grande nome do toureio,Manuel dos Santos.

O espectáculo foi ainda completado com um momento cómico proporcionado por um espontâneo que saltou para a arena. Foi retirado com as calças rasgadas de alto a baixo e a esconder "as vergonhas".


Em frente à Capela da Senhora da Piedade(capela do palácio),a estrada dos Loureiroa,actualmente chamada Rua Comandante Matoso.Antigamente existiam apenas três habitações:a casa do João Borrega,a do António Borrega e a de meus pais.
Ao início da rua,a fazer esquina,morava o João Borrega(penso que o verdadeiro apelido desta família, era Ramos).Um homem curioso.Barbeiro de profissão,exercia o seu mister num compartimento da entrada,com pouca luz e escasso mobiliario:um velho espelho,a grande cadeira de madeira com encosto para a cabeça e um pequeno móvel onde colocava os apetrechos da profissão.O banco corrido encostado à parede,completava o mobiliário.
Como artista,era medíocre e a escassez de clientes bem o atestava.Além da alcunha de Borrega,tinha ainda outra,Alemão,advinda do facto de ser fisicamente semelhante ao padrão humano que Hitler pretendia, e defender a política do sanguinário ditador.
Durante a 2ªGrande Guerra,a propaganda nazi que era profusamente distribuída em Portugal com o beneplácito do Estado Novo,ia toda parar-lhe às mãos.Penso que,ao contrário de muitos outros, perfeitamente conscientes das intenções dos prospectos,entre eles algumas figuras importantes da terra,a sua ideologia era mais influenciada pela única literatura à disposição,que por convicção política.
Tocava sofrivelmente violino e fazia sempre parte dos conjuntos musicais compostos para abrilhantar bailes ou acompanhar eventuais agrupamentos folclóricos.
Um dia realizou-se uma festa na Barreira.O pavilhão tinha,como habitualmente,um espaço destinado à "orquestra",coberto com esteiras,não fosse o relento da noite constipar os tocadores ou enferrujar os instrumentos.A determinado momento,o João Borrega enfiou o arco do violino entre as esteiras e,em vez de procurar desembaraçá-lo,continuou a tocar,provocando uma chiadeira incrível que originou a paragem do baile.
A seguir à casa do João,era de seu tio António.
Tendo casado,António Borrega cedo foi abandonado pela mulher que o deixou com três filhos pequenos para criar,com as terríveis condições que nesse tempo tinham as pessoas de baixos recursos.
Tornou-se um homem sorumbático,quase não falava,todo o dia metido na pequena oficina de ferreiro que possuía no pátio dos fundos da casa,ou então num pequeno quintal,um pouco mais abaixo junto à primeira curva e que trazia sempre primorosamente cultivado.Como profissional,a sua especialidade era dar têmpera aos picões,uma espécie de escopro para picar as mós de pedra dos moinhos.
A última casa era a moradia da minha família.O edifício pertence ainda ao Palácio e o meu pai,como seu funcionário,tinha direito contratual a habitá-lo.O início da nossa locação remontava ao ano de 1946.Fui para lá com nove anos e saí aos vinte e três,quando casei.Passei lá parte da minha infância e toda a adolescência.
Dizia-se que a casa estava assombrada,embora na altura ninguém falasse nisso para evitar perturbar as crianças.Parece que a minha mãe e os meus irmãos mais velhos ouviam de noite passos e ruídos estranhos.Pessoalmente nunca me apercebi de tal.E muitas eram as vezes que chegava a casa,altas horas da noite!Superstições!
Voltando à Rua Francisco de Lemos,duas casas depois do João Borrega,morava a Ti Albertina Boneca.Recebia hóspedes de cama,mesa e roupa lavada.Uma pequena pensão familiar.
A seguir,morou José da Costa.
Em Condeixa,quase toda a gente tinha uma alcunha,às vezes genérica,abrangendo toda a família,mas frequentemente personificando cada membro do clã.
Não é pois de estranhar que José da Costa fosse mais conhecido por Zé Barbeiro.O nome foi herdado da família e nada tinha a ver com a sua profissão.Na verdade tratava-se de um excelente mecânico de automóveis.No entanto, a confusão da alcunha com a profissão,valeu-lhe ser protagonista de um episódio curioso.
Certo dia chegou a Condeixa uma viatura com sério problema mecânico.Quando o proprietário pediu a informação de quem poderia resolver a avaria,indicaram-lhe o Zé Barbeiro.
O homem ficou apreensivo,pensando tratar-se de algum rapa-queixos com habilidade.Mas enfim,,a necessidade obriga e resignou-se a procurar a pessoa indicada.
É claro que o Zé Barbeiro,aplicando a sua reconhecida competência profissional,depressa resolveu o problema.No fim,depois de acertadas as contas pelo trabalho prestado,disse-lhe o dono do carro:"Como é que o senhor,sabendo tanto de mecânica,não deixa a profissão de barbeiro?".
Ao lado,morava quem era o claro exemplo do que há pouco disse.O António Torres utilizava o oficial apelido apenas em documentos obrigatórios.No mais,era sempre o António Capado,"da Ti Glória",para o diferençar de outros Capados que pela terra existiam.
Dos dois filhos,o mais velho tinha o mesmo nome e alcunha do pai,mas o outro,Mário,além de Capado ainda arcava com outros dois epítetos:"Quelhéu" e "Lola".
A Ti Glória,matriarca da família,apesar da humilde profissão de sardinheira e,suponho,possuir apenas a instrução primária,tinha um aceitável grau cultural,adquirido no gosto pela leitura.
Dizia-se até,na comunidade de sardinheiras a que pertencia,que ela lia o jornal quando estava sentada no penico.No penico,sim senhor!Em momentos de aperto,a única solução era utilizar esse objecto hoje em desuso,mas de primordial importância nas casas de então,onde até uma simples retrete era luxo só permitido aos ricos.
Então,se a vontade impunha,as necessidades fisiológicas vertiam-se no "vaso" e,ou despejava-se este no monte de estrume que depois ia adubar as terras,ou lançava-se o mal-cheiroso conteúdo na vala mais próxima.
A seguir,o prédio dos Antónios,de José António Júnior.Não cheguei a conhecê-lo,mas diziam ser um homem alto e forte,com aspecto marcial, apelidado de "Homem de Bronze".
Tinha três filhos e uma filha:o António,"Manco" de alcunha pelo defeito físico,o Francisco e o Manuel,"Manelão",dado o seu corpo avantajado.Da filha,Maria do Carmo,recordo apenas que era muito bonita.Morreu de parto do primeiro filho.
A grande propriedade ocupava o espaço desde a casa do Capado,virava para o Penedo atè à Capela da Senhora do Amparo e ainda ocupava razoável espaço na actual Rua Comandante Matoso.
Marcava o início do prédio um alto portão,seguido de estabelecimento de mercearia,fazendas e miudezas.
No vasto pátio franqueado pelo portão,era a taberna e a adega.Possuíam ainda os Antónios mais propriedades rústicas,mas certamente delas poucos rendimentos obtinham.
No final dos anos de quarenta ou inicio da década de cinquenta,montaram no grande quintal uma pequena unidade de manufactura de calçado, com pequena duração e pouco resultado financeiro.No entanto,essa actividade proporcionou a vinda para Condeixa de alguns bons sapateiros.
Em frente ao prédio anteriormente descrito,era a residência da família Ribeiro.
O Dr.João Ribeiro,médico e filho de um médico com o mesmo nome,era uma figura bastante popular na vila.Ainda estudante,pertencia já a organizações políticas da esquerda clandestina.Isso valeu-lhe ser detido pela Pide,polícia política do Estado Novo.Depois de formado,foi ainda outras vezes preso na cadeia de Caxias.Após uma delas,quando o libertaram,a sua chegada a Condeixa foi apoteótica,com dezenas de pessoas à sua espera,tributando-lhe uma homenagem,aliás bem merecida,pois nunca cobrou aos conterrâneos quaisquer honorários pelos serviços prestados.Mais tardee, depois do 25 de Abril de 1974,tomou algumas atitudes políticas controversas que causaram mal-estar.No entanto,quando prematuramente faleceu,o seu funeral constituiu sentida demonstração da consideração do povo.
Com as casas do Dr.Ribeiro e dos Antónios,termina a Rua Francisco de Lemos.
continua





RUA DE LOPO VAZ

No bonito prédio de fachada de azulejos onde está colocada a placa com o nome da rua,existe ainda um dos sete Passos que compunham a Via-Sacra da Procissão do Senhor dos Passos.



A seguir,estão a decorrer as obras de reconstrução do antigo e emblemático prédio onde até há poucos anos esteve instalada a Câmara Municipal.Edifício histórico,creio merecer a propósito uma breve resenha retrospectiva do percurso da autarquia.

Quando em 1839,pouco tempo após a Rainha D.MariaII ter devolvido à vila o estatuto de sede do Concelho,a vereação.presidida por D.Francisco de Lemos pretendeu realizar a primeira Assembleia Municipal,teve de utilizar a residência de Bacharel José de Azevedo Amado(pelas poucas referencias existentes,este prédio corresponde à casa da família do Dr.Ribeiro, já anteriormente referida),porque a autarquia não dispunha de sede própria.Mais tarde foi adquirido um prédio no Outeiro,pertença do Mosteiro de S.Marcos(localizado onde existe agora a casa de Evaristo Manaia e outro prédio,até ao Largo Manuel Filipe),e aí foram instalados condignamente,para a época,os Paços do Concelho.No rés-do-chão funcionava a cadeia municipal.O prédio foi demolido em 1972,para alargamento da perigosa curva de uma estrada que tinha muito movimento dirigido a Tomar.Essa a única razão,embora discutível,que pode justificar o derrube do histórico edifício.

Entretanto,na Rua Lopo Vaz existia um prédio abandonado desde a sua destruição pelas tropas de Massena e Ney.Era um palacete referenciado como tendo pertencido à Condessa de Anadia.No entanto,quando foi comprado, pertencia a uma senhora chamada D.Rosa Chaves .O estado de absoluta ruína em que se encontrava,causava mau estar aos moradores da vila e aos passageiros das diligências que ao tempo ali passavam.Foi adquirido pela Câmara que o mandou reconstruir quase de raiz.A mesma coisa aconteceu recentemente.Depois da Câmara mudar de local,o velho edifício entrou em acelerada degradação.Hoje já tem um aspecto dígno e bonito,pois toda a frontaria foi preservada,inclusivamente o frontão onde está inserido o brasão de Condeixa.

Em frente,era a loja do Zé David,misto de mercearia,taberna e casa de pasto.A esposa,uma excelente cozinheira,(já mencionada em Figuras Típicas) mantinha a casa com fama,léguas em redor,graças ao seu afamado "cabrito assado com batatinhas e grelos".

Ao lado,um prédio agora velho e degradado mas conservando ainda um resto do seu aspecto gracioso.Era propriedade de um barbeiro chamado Adolfo Leitão que emigrou para o Brasil e por lá morreu.

No início dos anos cinquenta,mandou fazer obras no prédio e instalou um café.A inauguração decorreu num sábado de Passos.Mas um estabelecimento desses,ao lado de uma tasca tão afamada,estava destinado ao fracasso.Poucas semanas após a inauguração,fechou as portas!

Este Adolfo era filho de outro barbeiro,o Ti Ernesto,que além de cortar cabelos e fazer barbas,também executava pequenos actos de cirurgia,como extirpar furúnculos e arrancar dentes.Nas terras pequenas,à falta de clínicos devidamente habilitados,era frequente encontrar este tipo de faz-tudo,pomposamente auto intitulados "barbeiro-cirurgião".Em "As pupilas do Senhor Reitor" de Júlio Dinis,esta figura está bem representada.

Era curiosa a forma como aqueles profissionais antigamente faziam a barba.Introduziam um dedo na boca do paciente,perdão,do cliente,para dilatar a bochecha e mais facilmente aplicar a navalha.Ou então,metiam-lhe na boca um figo.No caso do freguês comer a peça de fruta,o preço da barba aumentava.

Logo a seguir,o talho de António Vicente,ou melhor,da esposa,Celina "Carraça",pois o negócio dele era outro,comprava e vendia gado.

Um dia o Vicente adoeceu gravemente,ficando às portas da morte.A mulher,prevendo um desfecho fatal para a doença do marido,mandou fazer um fato ao António Pita,alfaiate que morava e tinha a oficina mesmo em frente.É claro,como a vestimenta estava destinada à cova,não tinha necessidade de bolsos e forros interiores.

Só que o Vicente era de rija têmpera,deu um pontapé na morte e sobreviveu,apesar de ficar a sofrer de hidropisia,com uma barriga enorme obrigando-o a ir frequentemente retirar a água acumulada.

O pior foi quando mais tarde descobriu no fundo da arca a mortalha que a mulher tão precocemente tinha tido o cuidado de mandar preparar. Caiu "o Carmo e a Trindade"!Os seus impropérios soaram por toda a vila!Lançou uma praga para que a mulher e o alfaiate "fossem desta para melhor" antes dele.E não é que isso aconteceu mesmo !

continua...