terça-feira, 5 de janeiro de 2010

LUGARES DE CONDEIXA-A RUA PRINCIPAL

A PRAÇA



O antigo Terreiro,passou a designar-se Praça da República logo após a implantação desta.

Porque é um espaço muito importante da vila,terá na devida altura direito a crónica própria.

À esquina da estreita entrada para Condeixinha,há um grande edifício revestido de pedra,o único exemplar do género existente na terra porque o proprietário era dono das pedreiras de Condeixa-a-Velha,onde se extraiam as mós de moinho,as melhores,exportadas até para o estrangeiro.

Neste prédio está ainda instalada a Farmácia Rocha.O pai das actuais proprietárias,Dr.Júlio Pires da Rocha,licenciado em Farmácia,era criador de vários medicamentos que manipulava no seu laboratório.

Até há bem pouco tempo,a farmácia configurava-se como exemplar característico dos estabelecimentos congéneres do século XIX.

Armários onde se alinhavam os diversos medicamentos,um pequeno balcão e ao centro deste a indispensável balança de precisão encerrada num cofre de madeira e vidro.

Embora muitos dos medicamentos fossem já de venda comum nas farmácias,alguns remédios eram ainda de outro século:papas de linhaça que tanto davam para amolecer um furúnculo como para tratar uma pneumonia;pomada das infecções,negra como pez,vendida em pequenas caixas cilíndricas,além dos "poses p'ró estômago",soluções alcalinas ou simplesmente bicarbonato de sódio.´Até aos meados do século XX,o passeio da farmácia servia de local de tertúlia onde ao fim da tarde se reuniam algumas das personalidades da vila(médicos,juiz,pároco,etc.).


Um pouco mais adiante,o Café Imperial,de António Caridade Paula(António Miro).

Creio ter sido em 1945 que uma antiga loja de cereais há muito encerrada,foi transformada num belo café,cotado entre os melhores do distrito.

Amplo,tinha nas paredes laterais grandes espelhos redondos e candeeiros a gás,para suprir a eventual falha eléctrica e um lindo tecto de gesso repuxado e pintado,dando a ideia de lago de águas encrespadas brilhando em prata.O robusto mobiliário de madeira,foi executado por encomenda.

Na frontaria,uma pequena montra de um lado e larga vidraça do outro,conferiam ao estabelecimento boa luminosidade.Completava o conjunto a esplanada,roubada ao espaço do passeio,com pala superior de armação de ferro e vidro martelado.

Devido à magnífica localização,o Café Imperial era o mais frequentado da vila.Mas o proprietário também contribuía para a reputação do estabelecimento.Competente profissional,sabia como servir bem os clientes.

O lote de café era das melhores marcas e a máquina,duas elevadas torres niqueladas,com torneiras,aquecida por fogareiro a petróleo,só utilizava a quantidade de café conveniente para o correcto número de "bicas".As borras,ainda com boa capacidade de reutilização,eram dadas a pessoas necessitadas.

Antes do advento da televisão,os relatos de futebol através da rádio,especialmente os desafios de hóquei em patins,no tempo áureo da Selecção Nacional,campeã mundial da modalidade,eram escutados com fervor no rádio do café.E os clientes deliravam com os fantásticos golos do Jesus Correia ou do Sidónio Serpa e as defesas acrobáticas do Emídio Pinto.

O Café Imperial foi indubitávelmente um marco da vida social condeixense daquela época.

O prédio seguinte,era um estabelecimento de fazendas e pertencia a Manuel Alípio Coelho de Paula.(hoje é um restaurante).


Depois,a mercearia de David Salazar.No subterrâneo da sua casa existia uma gruta,a "cova funda",que ia quase até ao meio da Praça,paralelamente ao troço escondido do rio Caldeirão,exactamente ao encontro do local onde se situava a frontaria do prédio,posteriormente demolido,do Palácio dos Sás.Dizia-se que esse túnel servia,em tempos remotos,de escapatória aos proprietários do palácio,caso se tornasse necessário.


Logo a seguir,na esquina,a pequena papelaria da Sra.Marquinhas Pena,vulgarmente conhecida como "Marquinhas Bicha".Recordo-a como uma senhora de idade,baixinha e muito simpática,que vendia os cadernos e as lousas para os miúdos das escolas e falava com eles como se estivesse a tratar com adultos.No mesmo prédio,depois da esquina,a loja de sua filha,Soledade(Bicha).O estabelecimento tinha prateleiras onde se alinhavam urnas de pinho cru,sem qualquer ornamento.Curiosamente,apesar da estranha mercadoria,a loja não inspirava a natural aversão que motiva a presença dos artefactos macabros.


Depois,a papelaria de Isaac Pinto,com departamento de fotografia,esta última função da responsabilidade de seu filho José Pinto,fotógrafo artista,de quem ainda hoje podemos apreciar valiosos clichés que retratam o quotidiano condeixense do tempo.Isaac Pinto foi uma das mais importantes figuras culturais da vila,na primeira metade do século XX.Conhecedor profundo da vida social e cultural de Condeixa por nela participar activamente,foi,como ele um dia escreveu no jornal "A Pátria",co-fundador do Orfeon de Condeixa.Deixou para a posteridade grande número de escritos que documentam não só a época,mas factos antigos obtidos por persistente investigação.Muitos desses testemunhos,manuscritos,ficaram em mãos de familiares ou amigos e nunca foram editados.Felizmente,um dos mais importantes,um trabalho reunido em onze fascículos com o título genérico "Subsídios para a História de Condeixa",realizado em parceria com o veterinário municipal Dr.Fernando de Sá Viana Rebelo,foi editado pela Tipografia Ética,de Condeixa.Também a Igreja de Santa Cristina,na reconstrução que sofreu no princípio do século XX,beneficiou bastante com a sua sensibilidade artistica e profundo conhecimento da história daquele templo.Dos diversos artigos vendidos na papelaria:jornais,revistas e livros,contava-se uma publicação bissemanal de banda desenhada,"O Mosquito",bastante apetecida pelos garotos do meu tempo.Na falta de capacidade monetária para a adquirir e como o meu pai era assinante do jornal "O Século",em dia de saída do caderninho de bonecos,era eu que ia buscar o diário pois o Sr.Isaac deixava-me ler aquela edição infantil.No mesmo prédio,o Café Conímbriga,propriedade de José Pinto e Jaime dos Santos.Este café tinha nas paredes interiores belos frescos alusivos a alguns dos mais interessantes mosaicos de Conímbriga.


Com este estabelecimento,termina a Rua da Praça.


LARGO RODRIGO DA FONSECA MAGALHÃES


Começa o Largo,com a Igreja Matriz,dedicada a Santa Cristina,padroeira dos moleiros,profissão muito disseminada na vila.

Dizem os historiadores que em 1502 quando o Rei D.Manuel I passou a caminho de Santiago da Galiza,por achar a igreja muito pequena e em mau estado de conservação,mandou que novo templo se construísse.Disso encarregou os frades de Santa Cruz de Coimbra.Recorro à Monografia do Capitão Santos Conceição,que refere o livrinho do Cartório daquele Mosteiro,datado de 1521:"Contrato e obrigações que fizeram os moradores de Condeixa-a-Nova à fábrica do corpo da Igreja e altares dela;e o mosteiro se obrigou à fábrica da Capela Mor".Já em 1522,dizia o mesmo livro:"Obrigação que fizeram os moradores de Condeixa-a-Nova de darem toda a prata que for necessária para ornato e serviço da Igreja de Santa Cristina".

A nova Igreja deve ter sido acabada em 1543.Possui ampla nave e tinha o tecto abobadado,pintado com lindos frescos que,devido às sucessivas inflitrações da chuva, ficou bastante degradado e foi coberto com paineis de madeira,já na década de 1960.A Igreja,toda feita em pedra de Ançã lavrada,tinha os lambris das paredes interiores forrados com azulejos dourados.Havia nesta Igreja três capelas particulares,uma de D. Lourenço de Almada,senhor do Paço dos Almadas,outra de João de Sá Pereira,da Casa dos Sás e ainda outra dos Morgados de Morais Botelho,da Casa do Salgueiro.Hoje só a Casa dos Sás mantém a "sua" Capela.

O templo foi completamente destruído por incêndio durante as invasões francesas e muito mal restaurado no século XIX,quando inclusivamente entaiparam algumas capelas.No início do século XX foi remodelada com grande rigor,graças à sensibilidade artística e intelectual de Isaac Pinto e do Padre Dr.João Antunes.

Em frente à Igreja,um edifício que foi propriedade de João Pimentel das Neves,personalidade de grande importância no percurso cultural da vila.Foi encenador de vários grupos de teatro amador e ocupou ainda por diversas vezes o cargo de presidente do Clube de Condeixa.Em 27 de Abril de 1974,chefiou a Comissão Administrativa da Câmara Municipal,conjuntamente com António Caniceiro da Costa e Fortunato Pires da Rocha.

O prédio ao lado pertencia a José Dias Ferreira e,como já tive oportunidade de referir,foi ali que nasceu Rodrigo da Fonseca Magalhães.No rés-do-chão está instalado o mais antigo estabelecimento de Condeixa,sempre do mesmo ramo,uma centenária loja de ferragens.

No espaço entre o corpo da Igreja e os actuais Paços do Concelho,existiu também outra loja de ferragens que pertencia à família Pires Machado,mas era conhecida como "a loja do Sr.Franklim".

O largo que se inicia após este estabelecimento era um dos locais utilizados pelo mercado bissemanal e por isso conhecido como Feira das Galinhas.O seu nome verdadeiro é:

LARGO ARTUR BARRETO

O edifício dos actuais Paços do Concelho domina todo o local.Datado da primeira metade do século XVII,pertenceu aos Condes de Portalegre e também foi conhecido como Palácio do Capitão-Mor.Para a posteridade ficou no entanto o nome de família de um dos proprietários,Figueiredo da Guerra,embora a pedra de armas que ostenta sobre o portão seja dos Cabrais,também seus antigos donos .

Numa visita que fiz às ruínas da Quinta de S.Tomé,vi embutidos na parede interior da capela dois brasões dos Figueiredos da Guerra,sendo um deles presumivelmente o que esteve na frontaria do palácio do Largo Artur Barreto.Tem forma rectangular e é ladeado por duas volutas,uma invertida da outra.Lavrado em pedra calcária(Ançã?),está decorado com artistico entrelaçado de folhas de acanto gótico em relevo.No centro tem um escudo no qual estão cinco folhas de figueira,duas em cima,duas em baixo e uma ao centro.De cada lado desta,as letras A e I.A encimar o escudo,um elmo com leão coroado .Por cima desta pedra,estava um escudo mais pequeno,em tudo semelhante ao anteriormente descrito,mas sem leão sobre o elmo.Dado o estado de ruína da referida capela e temendo a derrocada iminente com a consequente destruição das pedras de armas,em 2005 pedi ao Presidente da Câmara,Eng,Jorge Bento que as mandasse retirar.Ele mais tarde informou-me tê-lo feito e ordenado que fossem recolhidas no estaleiro(?),junto ao cemitério!

Na terceira invasão francesa,as tropas de Massena e Ney,além de muitos outros edifícios da vila,também vandalizaram e incendiaram o palácio dos Figueiredos da Guerra.Em 1857 foi vendido a Albino Justiniano de Carvalho,que o mandou reconstruir respeitando a primitiva arquitectura.Porém os belos azulejos do século XVII representando motivos de caça e que decoravam as escadas e varanda do pátio interior,não foram recuperados.O velho edifício foi posteriormente herdado por Artur da Conceição Barreto que o doou,juntamente com alguns prédios confinantes,à Fundação Hospital D.Ana Laboreiro d'Eça.Já no século XX estiveram lá instalados vários serviços.No 1º andar,o Tribunal Judicial e a sede do Clube de Condeixa.No rés-do-chão,um armazém de mercearias,um estaleiro de materiais de construção e uma oficina de marcenaria.Entretanto a Câmara adquiriu o imóvel.Depois de profundas obras de reconstrução e remodelação,transformou o vetusto edifício em Paços do Concelho,um destino que dignificou os serviços ali instalados e preservou o património arquitectónico da vila.

A velha Feira das Galinhas é hoje um agradável jardim que colocou em maior destaque o Monumento aos Mortos da 1ªGrande Guerra,o primeiro a ser erigido no nosso país,exactamente em 9 de Março de 1921.Quando o largo era um simples terreiro,ali se realizavam espectáculos ao ar livre com companhias de saltimbancos,grupos de acrobatas que percorriam o país de lés a lés,actuando nas pequenas localidades.

Em frente à Câmara,o prédio que tem a placa com o nome do largo,foi desenhado pelo conceituado arquitecto Raul Lino,autor de vários projectos como a"Casa dos Patudos",em Alpiarça e o palacete do Dr.Ângelo da Fonseca,onde está instalado o Governo Civil de Coimbra.

Paredes meias,era a loja de solas e cabedais de José Lopes Cardoso que no Canto,por detrás do prédio do estabelecimento,montou uma pequena industria de manufactura de calçado.A sapataria tinha uma curiosa forma de comercializar a sua mercadoria.Os clientes adquiriam uma caderneta onde era afixada a quantia periódica paga e constituía no final,a importância do valor comprado.A cada caderneta era atribuído um número.Semanalmente,se esse número correspondia aos últimos algarismos do primeiro prémio da lotaria nacional,o dono da caderneta era brindado com a oferta do calçado sem precisar de continuar a pagar prestações.

Depois de um breve passeio que marcava a antiga cota do largo, existiu um alto patamar com escada.Quando se fez o rebaixamento da rua que segue para a Faia,as casas já existentes ficaram numa cota superior.Daí a necessidade de construir patamares para seus acessos.

A terminar o Largo Artur Barreto,a casa onde nasceu o médico e romancista Dr.Fernando Namora que legou todo o seu espólio literário e pictórico a Condeixa.Hoje o prédio é a Casa Museu Fernando Namora.

RUA D.ELSA FRANCO SOTTO MAYOR

Começava a rua com o armazém de vinhos da firma Moita & Companhia,um longo barracão de parede e telhado,com tonéis e vazilhas do alcoólico líquido.Esta rua,no meu tempo,pouco tinha a assinalar.A actual Rua Fernando Namora,(que ia dar aos terrenos do Paraíso,ao fundo da fonte do Outeiro,um local várias vezes utilizado para instalações de circos e barracas de diversão ou,por vezes,barracas de teatro itinerante), tem mesmo à esquina,um prédio que,quando andava em construção originou um episódio engraçado.A futura inquilina foi ver como decorriam as obras.Ao passar junto à inacabada casa-de-banho,disse ao dono da obra:"Então e o bidé?Não se equeça de mandar colocar o bidé!".O homem que nunca tinha ouvido falar em tal coisa,calou-se.Durante o decorrer da visita,a senhora falou várias vezes no acessório e quando ia a despedir-se,ainda recomendou:"Não se esqueça do bidé!"Aí ele passou-se!Desconhecendo em absoluto para que servia tal coisa,perguntou desabridamente:"P'ra que raio quer a senhora o bidé?"A casa ficou,após isto,conhecida como "a casa do bidé".

Quase ao fim da rua existia a Fonte da Caraça,designação para mim incompreensível pois nada lá havia que justificasse o nome.Localizava-se numa cota bastante inferior à rua e o acesso fazia-se através de escada de longos degraus.A fonte,própriamente dita,era bonita,toda em azulejos policromados,mas o local estava sempre conspurcado.As pessoas lançavam de cima toda a qualidade de lixo e,como era habitual naquele tempo,por falta de instalações sanitárias,muita gente aproveitava o facto de ser um sítio recatado e utilizavam-no como retrete pública.Aliás,não era apenas a Fonte da Caraça que servia de sentina.O Penedo,local ermo e sem iluminação,era por excelência o sítio mais apetecido.

Quando construíram as instalações da Casa do Povo,a fonte foi tapada.Mas nessa altura retiraram de lá os bonitos azulejos que hoje estarão a decorar algum jardim particular.

Um pouco mais abaixo,junto ao actual acesso ao Quartel da GNR,era a Auto-Mecânica de Condeixa,um estabelecimento polivalente com estação de serviço,lavagem de viaturas,venda e mudança de pneus,oficina de automóveis,secção de pintura e bombas de abastecimento de combustíveis.Edificada no início da década de 1950,era bastante moderna para a época.

Mais além,aquela que deu nome popular à rua,a Faia,uma frondosa árvore bem no entroncamento de três vias importantes,a Estrada Nacional nº1,a estrada para Soure e a estrada para Alfarelos.

O nome derivava do facto de ali ter existido uma grande árvore desta espécie.No entanto,aquela que chegou aos nossos dias,mesmo centenária,não era faia.Podemos talvez situá-la na família dos plátanos.A Faia,apesar de ser considerada árvore de interesse público por decreto de 6 de Fevereiro de 1942,foi abatida por motivo das obras que se operaram com a abertura da estrada para Tomar.

Para finalizar a descrição da Rua Pricipal,resta falar no Faia-Bar,mais conhecido por Café do Arranhado.Era propriedade de Joaquim Pocinho(Quim Arranhado).O pai,Joaquim Duarte Pocinho,era um excelente serralheiro de ferro forjado e esteve longos anos emigrado na Venezuela.

Terminou esta viagem no tempo pela Rua Principal.Porque se trata da maior artéria da vila,tive alguma dificuldade em retirar da memória factos e pessoas duma época já tão distante.Quando refiro factos históricos,baseio-me em informação que devidamente referi.Porém essa fonte é a mais fácil de obter,porque está ao dispor de quem a queira procurar.A outra,a estória de pessoas e factos ocorridos com elas é,no fundo,a que mais me incentivou a escrever estas crónicas.Porque afinal,a memória de um local está na vivência dos seus habitantes,num determinado momento da vida.Evidentemente,muitas coisas ficaram por contar.Das referidas,uma ou outra será susceptível de contestação.Naturalmente,terei de assumir a respectiva responsabilidade e as criticas adjacentes.

Condeixa,ano de 2007 Cândido Pereira




quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

LUGARES DE CONDEIXA-A RUA PRINCIPAL

continuação



Em frente há dois grandes edifícios.Em um deles estiveram instalados os serviços de Tesouraria da Fazenda Pública e a Repartição de Finanças.No outro,a Estação de Correios.
Esta última casa(actualmente, firma Coelho e Viais),foi também sede do Clube de Condeixa.No vasto salão,tinham lugar os jogos de bilhar livre,ping-pong e jogos de cartas ou dominó.
Quando se realizavam bailes,o que era frequente,as mesas eram retiradas e sobre o bilhar colocava-se um estrado que servia de palanque à orquestra.No pequeno compartimento sob as escadas estava instalada a aparelhagem sonora que,na falta de orquestra animava(e de que forma!)os bailes.Era constituída por um amplificador de som,um gira-discos de agulha e um microfone.Os discos de 33-45 ou 78 rotações,forneciam a necessária música.
O operador deste aparato era eu e muitas vezes punha o disco a tocar e saltava para a pista de baile para dançar.Certa vez ,para animar a sessão,promovi uma prova de resistência na qual o par vencedor seria o que mais tempo aguentasse a dançar.Quando a agulha chegava ao fim do disco,num movimento rápido colocava-a no início e assim sucessivamente,até que deixou de haver agulha.E disco,claro!
o 1ºandar estavam localizadas as salas de jogos de cartas,gabinte da direcção e biblioteca.Esta era formada por cerca de 600 volumes,adquiridos através de uma comissão organizada para o efeito.A aceitação do evento colheu rápidos resultados.
A biblioteca do Clube teve uma função meritória na formação cultural de alguns jovens de Condeixa,Num tempo de dificuldades financeiras,comprar livros constituía um luxo(ainda constitui,apesar de terem passado 60 anos!),quando outras necessidades mais prementes se sobrepunham ao alimento do espírito.
Esta,resumidamente,era a vivência do Clube de Condeixa naquele local e nessa época.
Ao lado do Clube,era a latoaria de Hermenegildo Pinho de Carvalho.Hoje chamar-se-ia Micro Unidade de Produção Artesanal,pois ali se fabricavam os mais variados utensílios de folha de flandres.
A partir de uma simples lâmina e apenas com o recurso a ferramentas vulgares habilidosamente manuseadas,surgiam tachos,panelas,almotolias,cântaros para a água,os mais diversos objectos indispensáveis à vida quotidiana desse tempo.
Na proximidade do dia de finados,a produção destinava-se à pia homenagem aos mortos queridos.
Simples candeias com pouca lata e muito vidro ou artísticas lanternas de folhas lavradas e ramos retorcidos e entrelaçados.Verdadeiras obras de arte!As mãos que produziam tão úteis e admiráveis peças,eram do próprio Hermenegildo Carvalho,de seu filho Alberto e de seu sobrinho Vital Preces.
Do outro lado da rua e pegada a uma barbearia,era a casa da Carmo Macia.Viúva ainda nova e com um filho para criar,tinha uma pequena mercearia de pouca freguesia,que ainda por cima utilizava o sistema:"aponte aí,que eu depois pago..."Quando pagava! Por tudo isto,a Carmo Macia era uma mulher brusca,de feitio azedo.Um dia,andava ela a varrer a loja, quando entrou pela porta um desses caixeiros-viajantes aperaltados.Pensando estar a falar com uma criada,perguntou pelo senhor Macio.Ora este não era o verdadeiro apelido,mas sim alcunha,da qual ela pouco gostava.Assim,respondeu furiosa:"O senhor Macio,está na raiz da puta que o pariu!"
Depois,um espaço formado pela junção de três ruas,o antigo Largo António Granjo que tem na casa do Rui da Costa(actualmente é de sua filha),mais um dos Passos do percurso da Procissão,encimado por lindo painel de azulejos com a data de1752 inscrita no cume.
Não se conhece a origem da Procissão dos Passos.Sabe-se apenas que em 1682,D.Lourenço Vaz de Almada,José Rodrigues Ramalho e Francisco Moniz Maginário,assinaram o Compromisso da Confraria das Almas,mas só em 1885 esta se passou a chamar Confraria das Almas e Senhor dos Passos.No entanto,pela data inserida nos azulejos,não há qualquer razão para duvidar:a Procissão realizava-se já,pelo menos,nesse recuado tempo!



Com o Largo António Granjo,termina a Rua de Lopo Vaz.


A casa que agora ostenta a placa com o nome da Rua 25 de Abril,foi em tempos a habitação e estabelecimento de barbearia de António de Oliveira(António do Zé Velho),patriarca da família Oliveira,tão importante no panorama cultural da vila.António de Oliveira foi,além de excelente profissional,um profícuo compositor musical popular.As suas músicas eram executadas por diversos conjuntos folclóricos e andavam na boca de toda a gente.Ainda hoje essas belas melodias são escutadas com muito agrado.
Com seus filhos Ramiro e Saúl,o primeiro com a faculdade também da composição poética,formou um trio responsável pelas mais belas canções,algumas delas difundidas através das revistas populares condeixenses de meados do século XX.
A barbearia era a mais conceituada de Condeixa.A maior parte dos profissionais,na vila ou mesmo de fora,passou como aprendiz da Barbearia Progresso.
Recordo um episódio passado neste estabelecimento.Uma das formas de tratar do cabelo,quando este não era suficientemente comprido para justificar um corte maior,consistia em "dar um caldo",ou seja,aparar apenas na nuca e sobre as orelhas.O preço,além disso,era inferior ao corte mais radical.A "aparadela",motivou o equívoco.Um dia,sentou-se na cadeira um freguês que desconhecia o termo.Quando mestre António ,depois de lhe fazer a barba,perguntou se queria "um caldinho",ele respondeu:" Muito obrigado,acabei agora de almoçar".
Por cima da barbearia,esteve instalada a primeira sede do Clube de Condeixa.
Nesse tempo era uma colectividade elitista,só admitindo como sócios determinadas figuras gradas da terra.Mais tarde,o Clube passou para o outro lado da rua,para o prédio chamado"do Coronel Monteiro"(um belo edifício,demolido e dando lugar a uma vulgar imitação).
Com a nova localização,abriu-se colectividade à democrática inscrição de associados..
A actividade social colectiva estava nesse tempo confinada à Casa do Povo,que nesse tempo era na Feira das Galinhas(Largo Artur Barreto) e possuía apenas uma sala onde se jogava pig-pong, jogos de damas e se lia a Flama e o Amigo do Povo,jornais do regíme então vigente.
Era portanto insuficiente a oferta de locais de lazer para a juventude.
O Clube,no prédio do Coronel Monteiro,veio colmatar essa falta.Vasto,nos seus dois andares e águas-furtadas,possuía condições sofrívelmente aceitáveis para a prática de algumas actividades.Recordo dessa altura a realização de um Ciclo de Cinema e Exposição Fotográfica.Foi também a partir dessa data que se construiu o primeiro campo de futebol,na Quinta dos Silvais,mesmo ao lado do actual.Para além disso,a sede oferecia aos sócios as habituais diversões de jogos.As cartas,para os sócios adultos,já com certa estabilização económica,tinham uma sala no 2ºandar,mas os jovens utilizavam o pequeno compartimento da trapeira,que transformaram numa espécie de casino,com jogos a dinheiro.O montante das mesas nunca suportava grandes quantias,mas apesar disso já constituía algo de monta para as nossas fracas capacidades financeiras.
O prédio descrito,foi mais tarde adaptado a pensão residencial,chamada Pensão Lapa.Também no rés-do-chão esteve instalado o talho de Manuel Claro.
Em frente,era a casa de Adelino Guiné,com estabelecimento de padaria e respectivo forno.
O filho,Adelino também,com uma profissão deveras esgotante,enquanto a massa levedava e o forno aquecia,aproveitava o breve momento de descanso para fazer "uma perninha" no nosso casino.Muitas vezes o acompanhei depois até à padaria para lhe fazer companhia ou eventualmente prestar alguma ajuda.A paga consistia em poder comer aquele delicioso pão acabadinho de sair do forno.
Apesar de passar a noite a trabalhar,o Adelino de manhã pegava na "pasteleira",uma pesada bicicleta com um cesto de verga de cada lado do suporte e ia dar a volta,na venda do pão.Isso exigia um esforço extraordinário,mas ele,embora baixo,era bem constituído e musculado.A sua capacidade física permitia que realizasse corridas de bicicleta onde os opositores eram sempre vencidos.Foi por esse motivo convidado a integrar a equipa do Clube Académico do Porto,uma colectividade dedicada ao ciclismo e detentora de vários prémios na Volta a Portugal.Não foi porém longa a sua carreira.Pouco tempo depois partiu para a Venezuela como emigrante e lá se radicou.
Do mesmo lado da rua e um pouco mais abaixo,num prédio onde agora existe uma ourivesaria,era a loja da Julinha Pires que fazia uns deliciosos rebuçados de mel.
No tempo da 2ª Grande Guerra, não havia açucar por causa do "racionamento" imposto pela escassez de bens de consumo.Então,para adoçar o café ou o leite,comprava-se esses rebuçados que obtinham quase o mesmo efeito.Pelo menos eram muito mais saudáveis.
O proprietário da casa contígua,era o Zé Bacalhau(José Júlio Bacalhau).Tinha no estreito rés-do-chão um estabelecimento de mercearia e vinhos.O filho deste comerciante,Júlio da Costa Bacalhau,contou-me uma história que,a par de tantas outras,retrata os tempos difíceis que então se viviam.
Condeixa,sendo trajecto obrigatório do trânsito Lisboa-Porto,por cá passavam camionetas de mercadorias de empresas especializadas em transportes.Passavam e paravam,para os tripulantes tomarem as refeições.Quase sempre nos Antónios ou no Zé David,mas também no Zé Bacalhau.
Essas camionetas tinham normalmente duas pessoas,o condutor e o ajudante.O primeiro,dada a função que exercia,ganhava mais que o ajudante,talvez até o dobro.Quando vinham do Porto,o motorista comprava sempre na Mealhada um pouco de leitão e o seu parceiro pedia que lhe dessem algum molho e trazia-o num frasco.Quando paravam para almoçar no Zé Bacalhau,enquanto o motorista colocava a sua dose de leitão num pão e comia,acompanhando com um bom tinto,o ajudante pedia à esposa do lojista para lhe aquecer o molho e vertia-o sobre o pão.Era a refeição que a sua parca capacidade monetária permitia!

Dois ou três prédios adiante,termina a Rua 25 de Abril.
continua