quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

LUGARES DE CONDEIXA-O OUTEIRO(2ª parte)

(2ªparte)
À chegada ao Largo de S. Geraldo, o Outeiro divide-se. Para a esquerda, o Canto e o Alto. Em frente, a longa subida, à direita, o caminho para a Fonte e a Cascalheira.
A fonte tem pouca beleza, para quem não considerar belo ver brotar da parede um jorro de água fresquíssima, infelizmente impura. Por cima, uma ponte a ligar as propriedades que foram do Comandante Rocha e hoje pertencem à sua sobrinha, Dr.ª Jesuina Rocha Helena. Lá no fundo, o tanque de lavar roupa, agora quase sem préstimo, desde que as pessoas aderiram às novas tecnologias (vulgo, máquinas de lavar). Antigamente, em dias determinados, juntava-se um rancho de mulheres para lavar a roupa, própria ou de fregueses. Trabalho árduo que forçava a estar várias horas a esfregar e ensaboar, batendo depois os panos nas pedras do lavadouro, até ficarem limpos. Depois, era só estender a corar. (recordam-se do filme Aldeia da Roupa Branca?). Servia também para as lavadeiras desenferrujarem a língua, dissecando a vida de cada um. Ali, falava-se de tudo. E cantava-se! De repente, bastava uma começar, para se generalizar a cantoria. Verdadeiro coro espontâneo brotava das gargantas afinadas das lavadeiras. Condeixa, terra de muita água, benza-a Deus, tinha vários lavadouros públicos: a referida fonte, o rio da palmeira na Rua Manuel Ramalho, comprido espaço onde se juntava um grande rancho de lavadeiras, o ribeiro da Serrada e o lavadouro da Lapa. Na primeira metade do século vinte, foi levada à cena no Cine-Avenida, uma revista musical (Secas e Picadas) que obteve enorme êxito local, onde havia um interessante quadro alusivo às Lavadeiras de Condeixa.
Depois da Fonte e descendo as breves escadas, encontravam-se as terras do Paraíso (rua Cidade de Breten, Ciclo, etc.), onde costumavam acampar circos e barracas de tiro. Também cheguei a ver lá teatro, em tenda montada por uma companhia itinerante, com a representação do drama “A Rosa do Adro”, de Manuel Maria Rodrigues. Periodicamente, deslocava-se a Condeixa a companhia Circo Amery, da qual fazia parte a Trupe To Ching (estará bem escrito o nome?), grupo de chineses, -acrobatas ou manipuladores de varinhas com pratos, não recordo bem- constituído por pai, mãe e filhos. Estes, creio serem actualmente os donos do Circo Chen. A família ficava invariavelmente instalada em casa do Zé Galhardo (José Moita), que na altura morava no antigo prédio da casa do Povo. De volta ao Largo, ao domingo de manhã podia assistir-se a uma sessão de corte de cabelo ou barba, a céu aberto, se o tempo permitia, mas ameaçando chuva, dentro do curral da mula. Para isso bastava uma vulgar cadeira, tesoura, navalha de barba, pincel e um recipiente onde misturar com água o sabão em pó que se vendia em caixas de cartão, coloridas. Depois, a paciência e coragem para resistir às mãos do “Ti Picaroto”, (Francisco Caridade), mais habituadas aos trabalhos rurais. De qualquer forma, a pedra- úme (alúmen), estancava o sangue dos golpes mais que prováveis.
Antes de subir as escadas da Costa, uma breve visita à oficina de bicicletas do João da Costa, só conhecido por Nicolau porque era incondicional admirador do antigo campeão das Voltas a Portugal. Homem muito poupado, chegava ao extremo de levar ao rubro no rebolo de afiar, um raio de bicicleta, para acender o cigarro. A pedra de esmeril tinha a meio um fundo vinco motivado pelo atrito do aço que quase a tornava imprestável para outras tarefas.”Vai-te lucro, que me dás perca”.
Em tempos remotos, o caminho desde a Fonte até ao Hospício, fazia-se pela estreita vereda da Costa. Ainda cheguei a conhecer alguém (terá sido o Florêncio Azevedo Branquinho?), que dizia ouvir a mãe contar que se assustava com os tiros de dinamite utilizados para abertura da que é hoje a R. Dr. Simão da Cunha. Não teria sido, portanto, tão remotamente.
Mesmo ao cimo das escadas, morava o “Ti Chico Cavaca” (Francisco da Costa), pai do Chico e do Daniel “Carrula” (Francisco e Daniel Ramalho da Costa). Este último, meu condiscípulo na primária, habilidoso jogador de futebol, no tempo do Campo dos Silvais, morreu com apenas vinte anos, vitimado por um tumor cerebral.
Ao lado, era a casa de Joaquim Melâneo, funcionário judicial e inspirado pintor de arte, característica que seu filho Frederico herdou. Tinha um hábito curioso: de muito bom ouvido musical -comum a todos os genuínos condeixenses- quando regressava a casa, ia assobiando por entre dentes, uma qualquer melodia. Mas só entrava, após a ter concluído. Manias!
Na Costa, moravam também os Salicús! O patriarca, António Melâneo, era pedreiro. Tinha dois filhos, que foram meus condiscípulos, o Vergílio e o António.
No meu tempo, quando saíamos da escola, não nos arriscávamos a descer o Outeiro, porque os moradores da Costa, especialmente os atrás referidos, corriam à pedrada quem invadisse o seu território. Por isso, íamos beber água ao telheiro do armazém de Alcobaça, Peça & Companhia, onde havia uma bomba que aspirava a água do poço. Desta forma, evitava-se a temível descida à fonte do Outeiro!
Três monumentos caracterizam o Outeiro: A Escola Conde de Ferreira; o Hospital Dona Ana Laboreiro d’ Eça e o Palácio dos Condes de Podentes (Hospício).
O primeiro, a Escola, masculina para a distinguir da outra, a Escola Feminina. Meninas e rapazes, no entender retrógrado dos mandantes da época, não podiam coabitar. A escola delas era outro mundo, que nós só visitávamos quando lá íamos obrigatoriamente fazer os exames da 3ª e da 4ª classe.
O edifício foi construído graças à participação de um mecenas. Joaquim Ferreira dos Santos, Conde de Ferreira, era um antigo emigrante em África e no Brasil, onde angariou imensa fortuna. Tendo testemunhado as dificuldades passadas pelos seus patrícios em terra estranha, bons trabalhadores mas analfabetos, incapazes de enviar meia-duzia de letras à família que em Portugal aguardava ansiosamente notícias, quando regressou ao seu país legou em testamento um fundo para a construção de 120 Escolas Primárias. Em todas elas foi inserida a data 24 de Março de 1866, dia da sua morte. Encontra-se sepultado no Cemitério de Agramonte, num mausoléu construído pelo escultor Soares dos Reis.
Em 10 de Setembro de 1867, realizou-se o lançamento da primeira pedra para a construção. Em termos monetários, contabilizava-se 1200$000 (mil reis) da Fundação Conde de Ferreira; 800$000 (mil reis) doados pela Confraria do Santíssimo Sacramento e o restante, da responsabilidade da Câmara Municipal.
(Dados históricos destinados a facilitar a quem pretenda conhecer melhor Condeixa, a inclusão nestes exercícios de memória têm apenas o valor da informação que se pode obter em trabalhos literários, nomeadamente “Condeixa-a-Nova, de Augusto dos Santos Conceição” e “Subsídios Para a História de Condeixa-de Fernando de Sá Viana Rebelo e Isac Pinto.)
A Escola, no meu tempo era dirigida por dois professores: João Correia e António Mateus. Em 1946 faleceu João Correia e foi substituído por António de Jesus Pita.
O que é que se pode mais dizer sobre a Escola? Os anos da infância, são, incontestavelmente, os melhores da vida de uma pessoa. Os problemas resumem-se a conseguir cumprir as determinações dos pais, professores e outros agentes de formação. Mas no meu tempo, as preocupações eram substancialmente acrescidas com o medo de desagradar aos mestres. Porque os castigos eram pesados. Por exemplo: no ditado, cada erro correspondia a uma reguada. Esta, já não era a falada “menina dos cinco olhos”, mas apenas uma vulgar tábua que doía que se fartava, ao bater com toda a força na palma das mãos! Os cachopos de vez em quando inventavam meios de minorar a dor, coisas que, diga-se de passagem, não surtiam qualquer efeito. Lembro-me de uma hipótese que consistia em colocar na mão uma crina de cavalo, crendo a criança que isto provocava a quebra da régua. O pior era se o professor descobria o inocente e ineficaz estratagema, pois redobrava a pena a aplicar.
Como qualquer outra criança, também sofri bastantes castigos. A maior parte merecidos, alguns escusados. Apenas um ficou mais gravado na memória, porque foi inteiramente injusto!
Ao sábado de manhã, havia uma sessão de treino paramilitar, da Mocidade Portuguesa, ministrada pelo Tenente Pires Beato. Imagine-se: garotos dos sete aos dez ou pouco mais anos, aprumados em formatura e a marchar! Que ridículo!
No tempo do professor João Correia, havia uma outra actividade bem mais interessante: um coro formado por todas as crianças da Escola. Aliás, creio ter sido essa a mais valiosa prestação do “temido” professor João Galo.
Em frente, o Hospital!
Foi construído graças à generosidade do condeixense Dr. Simão da Cunha D’ Eça Azevedo, que legou toda a sua fortuna à Câmara de Condeixa, para…”Fundar em edifício próprio, e que satisfaça todas as condições exigidas pela ciência actual, um Hospital para nele serem tratados doentes dos dois sexos, preferindo sempre os da minha freguesia e concelho e custear todas as despesas que para tal sejam exigidas.” (Subsídios Para a História de Condeixa). Era assim que estava determinado no testamento daquele benfeitor.
O Dr. Simão da Cunha faleceu em 1919, mas só em 1921 estava tudo preparado para dar início às suas disposições testamentárias. Só que entretanto a desvalorização da moeda, comprometia a efectivação da obra. Mas, como diz o médico Dr. Evaristo Cerveira de Moura na sua obra ”Nascimento, vida e morte do Hospital D. Ana Laboreiro D’ Eça”, -“então, surge o inesperado. Em 13 de Outubro de 1925, morre em Lisboa, Artur Barreto, senhor de grande fortuna e institui seu principal herdeiro o Hospital. Todos os seus bens nas comarcas de Condeixa e Ansião…mais de cem mil escudos…entraram na Câmara Municipal, em Agosto de 1926. Este facto permitiria vida mais desafogada à obra…assim, em 1926, estava concluído o edifício. Resolveu a Câmara que o pessoal da enfermagem pertencesse a alguma Ordem Católica, sendo contactada a Ordem Franciscana de Hospitaleiras Portuguesas, que em Março aceitou o convite.”
Diz ainda o Dr. Evaristo Cerveira de Moura: “O Hospital teve sempre grandes beneméritos. Não se pode esquecer essa grande Senhora que foi a Ex.ª Sr.ª D. Maria Elsa Franco Sotto Mayor, que chamou a si todo o encargo de comprar e mandar instalar todo o material da sala de operações e esterilização, bem como o valioso arsenal de material cirúrgico para qualquer tipo de operações.”
Em 1976 foi firmado um acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, com vista à utilização do Hospital, como instalações do Centro de Saúde. Modificou-se nessa data a forma inicial de funcionamento da velha unidade hospitalar. Mais tarde, com a construção do novo Centro de Saúde, acabou de vez o Hospital D. Ana Laboreiro D’ Eça!
Hoje, ali está um prédio devoluto, lentamente a degradar-se. Até quando?
Seguindo o percurso do Outeiro, um pouco acima do Hospital, era a loja do “Manel Capado” (Manuel Torres), onde comprei muitos caramelos que tinham a embrulhá-los, as figurinhas dos futebolistas para colocar em cadernetas próprias. Este “Manel Capado” era um homem extrovertido que divertia e se divertia. Em todos os carnavais, lá estava sempre a sua figura, dando corpo a alguma figura cómica da altura. Várias vezes o vi participar nas brincadeiras carnavalescas, cortejos ou representação espontânea de paródias de Entrudo.
Logo acima, o prédio da oficina de Benjamim Ramos, com o seu nome em grandes letras de cortiça na fachada circular e a informação que se realizavam serviços de bate-chapa: pintura; construção de carroçarias, etc.
Benjamim Ramos, o “Fechaduras” era um empreendedor empresário que, além da oficina, também instalou uma fábrica de serração de madeiras e dirigiu o lagar “do Fiscal”, na Avenida. Tinha um automóvel Citroen, modelo “arrastadeira” (ainda pertence à família). Um dia foi passear com amigos e, na passagem de nível da Corujeira (Coimbra), por pouco não foi abalroado pelo comboio, que lhe levou o pára-choques do carro. Devido ao feitio do referido acessório do veículo, dizia ele com graça: “O raio do comboio, apenas me levou o bigode!” Mas, se dessa vez escapou à morte, não sobreviveu alguns anos depois, na sua própria oficina, quando foi esmagado contra a parede por uma camioneta.
A terminar o Outeiro, inicia-se a Quinta do Hospício, com uma pequena mata a dar maior realce ao Palácio dos Condes de Podentes.
Antigo convento de frades Antoninos-Franciscanos, funcionou como hospital para doentes mentais, daí a designação ainda hoje existente e que dá nome a toda aquela zona do Outeiro. Com a extinção das ordens religiosas, o convento foi adquirido ao Estado pela quantia de 1251$000, em 1842, pelo 1º Conde de Podentes, D. Jerónimo de Almeida e Vasconcelos.
A construção é de estilo vagamente barroco, possui valioso espólio de azulejaria, vestuário antigo, louças, vários outros objectos de arte e mobiliário. Uma das filhas do Conde de Podentes, foi casada com Carlos Relvas, abastado lavrador ribatejano, considerado o 1º fotógrafo amador do país.
Um dos últimos herdeiros da Casa Conde de Podentes, foi D. Margarida Relvas Albuquerque que era casada com o médico Dr. Henrique Costa Alemão Teixeira.
E está terminada a curta mas aliciante viagem pela memória de um bairro que faz parte do meu imaginário, quer infantil ou juvenil. Desde o tempo escolar, até ao final da adolescência, vivi intensamente o quotidiano “outeirino”. Foi no prédio da cadeia, no 1º andar, que me apresentei como vim ao mundo, perante a junta militar que decidiu apurar-me para todo o serviço militar, a mim, com uns escassos 160 centímetros de altura e meia centena de quilos em ossos, carne e alguns músculos!
Também foi numa casa do Largo de S. Geraldo que nasceu o meu filho mais novo. Na mesma casa onde a minha mãe fechou pela última vez os olhos. Em frente, instalou o meu pai a primeira oficina de reparações eléctricas em automóveis e construção de baterias para os mesmos, que existiu em Condeixa.
É evidente que o Outeiro não é, ou era, apenas o que descrevo. Nenhum local se resume a referências e recordações, por mais elaboradas que sejam. Resta-me a esperança que a leitura destes escritos estimule a memória de quem viveu nesse tempo e se disponha a contar aos mais novos a forma como vivíamos!
FIM

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

LUGARES DE CONDEIXA-O OUTEIRO(1ª parte)

…que a vida no bairro lindo
Dos altos e dos recantos
Dos jardins e das Escolas
Passa cantando e sorrindo,
Nos lábios e no encanto
Na graça das “espanholas”.

- Marcha do Outeiro, letra de Ramiro de Oliveira e música de António de Oliveira, composta para abrilhantar as Festas de Condeixa, em 1950, quando elas se realizavam em Junho e não a 24 de Julho, uma data inventada há relativamente pouco tempo.
O Outeiro é assim, e muito mais. Embora se possa pensar que o bairro está limitado à Rua Dr. Simão da Cunha, ele começa ainda na Feira das Galinhas (Jardim da Câmara), espraia-se no Largo de S. Geraldo, mira agora, desconsolado, o nicho vazio, sobe ao Alto, desce até à Fonte e visita o Paraíso, trepa as escadas até à Costa e dirige-se ao Hospício, deixando para trás o Hospital que já não é, nem sequer Centro de Saúde (o que era a unidade hospitalar, senão um centro onde toda a gente tratava a saúde?), e a velha Escola Conde de Ferreira, onde o professor Galo (João Correia) mandava os alunos com aproveitamento dar reguadas nos colegas menos estudiosos, o professor Mateus mordia os lábios quando castigava com a fina cana-da-índia e o professor Pita, rigoroso nos antigos (e cruéis) métodos pedagógicos, distribuía lambadas a torto e a direito.
Ao cimo, no bico da Quinta, ainda está a fonte que há muito secou e onde, segundo escritos antigos, as moçoilas namoriscavam enquanto a cantarinha enchia (não era essa uma das funções, quiçá a mais agradável, de todas as fontes?)
O Outeiro está na génese de Condeixa, a nova, porque a outra é muito mais idosa, avó talvez.
Quando Conímbriga foi assolada pelas hordas bárbaras e, posteriormente, ocupada pelos muçulmanos do Almançor, os pobres indígenas foram sobrevivendo refugiados nas grutas e buracos locais. Depois, vieram as tropas de Fernando Magno e do seu valido, D. Sesnando, Conde de Tentugal, ocupar o território. Desse tempo, reza um documento guardado no Mosteiro do Lorvão, indicando uma “Villa Cova Condesa Donna Onega”que, presumo, estaria localizada numa área actualmente ocupada pelas Piscinas Municipais, Pavilhão Desportivo, quartel da G.N.R. e mais casario, tendo a nascente o promontório do Hospício e a norte as velhas casas da Costa.
Estas terras, muito produtivas, teriam resultado da sedimentação de primitiva lagoa, como é possível vislumbrar no estrato geológico do corte efectuado quando da abertura da via IC3. (curva da ferradura, ao pé do viaduto). As várias camadas, separadas por sedimentação mais escura (lodo) e pedras de leito, são perfeitamente visíveis. Já debaixo do viaduto, o areal da margem.
O nome “Donna Onega” pressupõe ascendência galega, (há uma neta de Vímara Peres, o responsável pela reconquista do território entre Douro Minho e fundador de Guimarães, com o nome Onega Lucides. Será a mesma?) De notar que no local existem várias referências curiosas: “Pinhal de Espanha” (em frente à Junta de freguesia de Condeixa-a-Velha); “Vala da Galega” e, mais concretamente ao Outeiro, cuja designação de Espanha sempre lhe foi atribuída.
No início do século XVI, quando o rei D. Manuel efectuou a peregrinação a Compostela, passou por aqui. Acerca dessa passagem, diz o Padre António Carvalho da Costa: “…o lugar de Condeixa-a-Nova, não sendo mais que um casal chamado Outeiro…” (Santos Conceição, Condeixa-a-Nova). Tudo provas da ancestralidade do Outeiro
Mas estas considerações, só superficialmente e apenas como curiosidade têm lugar nesta crónica. Na realidade, interessa-me mais escrever sobre o bairro de há mais de meio século, com descrição de locais, pessoas e episódios, levando os meus contemporâneos a recordar e os mais novos a conhecer, aquele característico local.
O Outeiro, repito, começa no largo da Câmara, a antiga Feira das Galinhas. A propósito, não consigo compreender a causa da atribuição deste nome. Tanto quanto recordo, realizava-se ali uma das quatro feiras que compunham o tradicional mercado de Condeixa (os três outros locais eram: Praça da República; Feira da Sardinha, (mercado municipal na Avenida, onde se vendia peixe e carne, no local do actual Quartel dos Bombeiros) e Largo de S. Geraldo), mas onde agora é o jardim da Câmara, não se vendiam exclusivamente galináceos. Mais, a maior percentagem de coisas à venda, era de barro vermelho: cantarinhas, caçoilas, etc.
Em meados do século XX, além dos bissemanais mercados, no pequeno terreiro costumavam exibir-se trupes de saltimbancos, acrobatas itinerantes que realizavam espectáculos, fazendo no fim o peditório ao público presente.
Já na estrada, na parte de baixo do monumento aos Mortos da Grande Guerra, há uma loja de ferragens que foi, em tempos, a residência e oficina de José Maria Ventura, latoeiro e aferidor municipal. Dotado de capacidades artísticas verdadeiramente admiráveis, foi durante muitos anos amador de teatro, participando em várias peças e revistas musicais. A sua presença em palco e a graça inexcedível, transformavam qualquer vulgar comédia, em êxito. Na década de 1950, o Clube de Condeixa apresentou em cena a alta-comédia “O Conde Barão”, de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos, encenada por João Pimentel das Neves. Depois da exibição em Condeixa, o grupo deslocou-se à Marinha Grande, onde representou no Teatro Stefano. Desse espectáculo, disseram na altura que José Ventura era comparável ao grande actor profissional, Chaby Pinheiro, protagonista na apresentação nacional da peça, no Teatro Politeama, em 1918.
Tendo muita consideração pela capacidade teatral e, fundamentalmente, pela personalidade de José Ventura, em 1980, quando era encenador na Casa do Povo, propus em Assembleia Geral a atribuição do nome “Tejove”, para o grupo cénico. Correspondia a “Teatro José Ventura”, a homenagem devida a quem tanto fez pelo teatro amador em Condeixa. A proposta foi aceite e lançada em acta. José Ventura tinha um filho, com o mesmo nome, artista plástico amador de fina sensibilidade, ao qual se devem algumas telas de belas imagens da Condeixa antiga.
Na casa seguinte, esteve instalada a Casa do Povo, desde a fundação, em Julho de 1940, por iniciativa do Comandante Fortunato Pires da Rocha, até à inauguração, em Fevereiro de 1956, das instalações actuais. O 1º andar tinha um salão onde se jogava pingue-pongue e damas ou dominó. Numa vila demasiado provinciana, sem locais de ocupação dos tempos livres (tempos livres? Algumas horas à noite, poucas, porque no dia seguinte era dia de trabalho!), a Casa do Povo oferecia o espaço público possível para entretenimento da juventude. Além dos jogos porém, a oferta literária resumia-se à leitura da revista Flama e do jornal Amigo do Povo, publicações afectas ao estado novo.
Na frontaria, foram mandadas pintar a vermelho, (perdão, encarnado, porque a palavra vermelho era tabu, não fosse a designação da cor motivar confusões com os “abomináveis comunistas!), as palavras Casa do Povo, em semi-círculo. O pintor incumbido do trabalho, da parte da manhã apenas pintou Casa do P, deixando para depois de almoço o resto do trabalho. Condeixa, tradicionalmente sempre disposta a atribuir alcunhas, imediatamente apelidou, não só o pintor, como toda a família, de “os Pês”.
Virada a curva ascendente, logo surgia a oficina de bicicletas do Augusto Braga. Naquele tempo, a bicicleta era um veículo bastante utilizado. Em Condeixa, quase se podia contar pelos dedos das mãos o número de automóveis existentes e, mesmo assim, incluindo as camionetas de carga! Por isso, andar de bicicleta, ao contrário de agora, não era simplesmente um meio de fazer exercício físico, mas forma de “tratar da vida”. Nesse contexto, uma oficina onde se pudesse mandar reparar correntes partidas, furos nas câmaras ou raios deslocados, assumia grande importância. Além das reparações, também era possível alugar os velocípedes.
Os garotos de então, ao contrário de agora, que os papás, ainda as crianças são pequeninas, logo tratam de comprar bicicletas com rodas suplementares, trocando estas à medida do crescimento do fedelho, se queriam dar uma voltinha, reuniam-se em grupos e alugavam o veículo. Se não estou demasiado esquecido, esse aluguer custava dez tostões à hora. Mas não se contentavam com o limite de tempo por “tão alto preço”. Então, a hora durava mais que os normais sessenta minutos. É claro que a entrega já não era feita pelo alugador! Entregava-se a bicicleta a um garoto mais novo, com a incumbência de a ir levar. O pior é que esse miúdo também fazia uso do “prémio” colocado nas suas mãos. Finalmente, quando o dono da oficina recebia o velocípede, já tinham passado para aí algumas duas horas.
Ao lado da oficina, morava a senhora Assunção, parteira que, a par da senhora Cecília, de Condeixinha, tinha a “obrigação” de aparar todas as crianças do seu bairro, e não só. Porém, um facto curioso sucedia com esta “aparadeira”: tinha um negócio de venda de caixões. Assim, recebia para a vida um novo ser, mas também se encarregava de prestar os serviços para a última viagem.
Junto à sua casa, uma alfaiataria, coisa bastante comum numa vila onde abundavam os barbeiros, sapateiros e alfaiates.
Naquele tempo, a miséria não se manifestava apenas na falta de alimentos. O dinheiro era tão escasso, que também não chegava para comprar roupas. O alfaiate que refiro, quando jovem, era bem-apessoado, quer dizer, tinha bonita figura. Naturalmente, era vaidoso e se, para a roupa, como profissional podia dar um jeito, não sabia fazer as peúgas. Dizia-se que, certa vez descobriram que usava apenas os canos das meias, porque o resto já se tinha gasto há bastante tempo.
Em frente, no largo agora justamente atribuído ao artista plástico condeixense, Manuel Filipe, existia um barracão onde o proprietário, negociante de galinhas, guardava os apetrechos do seu mister. Possuía uma velha carrinha, a “cacharra”, onde transportava as grades com os galináceos que ia vender nas feiras da zona. Quando regressava, esquecia-se que a altura das grades ultrapassava a cimeira do portão. O barulho dos aparatos a cair, anunciava a sua chegada.
Ao lado, o edifício da cadeia. Pertenceu a D. Maria de Vilhena, que o doou ao Convento de S. Marcos. Mais tarde foi adquirido pelo município, tendo sido a primeira sede própria da Câmara. No rés-do-chão/cave, foi instalada a cadeia municipal. O calabouço, de janelas grossas em ferro, tinha apenas duas ou três celas. Em fins da década de 1960, os prisioneiros serraram facilmente as grades e evadiram-se. Este prédio fechava a curva da estrada de acesso à Lousã e a Tomar. No local, naturalmente bastante perigoso, o acidente mais grave deu-se quando uma camioneta desgovernada colidiu com dois prédios, destruindo-lhes as fachadas, mas felizmente sem danos pessoais. Este prédio foi demolido, com o fim de alargar a curva, a única justificação para destruir tão valioso património.
A partir daqui é que começa verdadeiramente o bairro do Outeiro.
(fim da 1ª parte)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ecologia e caça-as contradições

Ontem,liguei a TV no 2º canal e deparei com uma curiosa reportagem:um senhor,que me pareceu oficial de um corpo policial,falava sobre ecologia.Naturalmente,criticava o civismo do povo português,particularmente,mostrando imagens demonstrativas.Eu até compreendo e sei que são verdadeiras as imagens.Infelizmente,é comum depararmos com lixeiras por todo o lado,cursos de água completamente conspurcados,situações de completo desprezo pelo semelhante.Mas daí a apelar ao mais baixo sentimento humano,a delacção,para terminar com os abusos de pessoas mal formadas,acho incrível.Calcule-se que o tal senhor às tantas afirmou que,quem quisesse,podia enviar a acusação,porque o anonimato estaria protegido!Será esta a forma mais correcta de resolver o problema?Vivi grande parte da minha vida sob o regime do estado novo.Sei como era a pide e a forma por ela utilizada para obter informações,servindo-se de asquerosas pessoas que denunciavam outras pessoas,em troca de meia-dúzia de tostões ou,simplesmente,obtenção de favores.É isso que agora se pretende?Não seria melhor educar o povo,com campanhas específicas?
Um velho democrata de Condeixa,costumava acabar as suas prédicas,dizendo:"Certo ou errado,camarada?"
Mas não ficam por aqui as observações ao tal programa.Calculem que após esta defesa pela ecologia,veio uma reportagem sobre caça.E assisti,enojado,a uma espera ao javali.Esta espécie cinegética(?),esteve quase extinta no país,Depois,as associações de caça,legalmente,penso,fizeram programas de repovoamento.Hoje,o javali é uma constante ameaça para quem ainda da terra tira o sustento.E tudo para quê? Apenas com a mera intenção de satisfazer os instintos selvagens de pessoas que,em lugares pre-determinados,esperam os animais,abatendo-os a tiro.Quero acreditar que nenhuma criança assistiu ao mencionado programa.Porque,como disse,fiquei enojado ao ver a forma selvagem como os senhores caçadores permitiam que os javalis fossem abocanhados e destroçados pelos cães.E,se eles assim faziam,era porque os animais ainda davam luta!
Li algures que esta semana,o Parlamento espanhol, recusou uma proposta de um partido,para transmissão de touradas pela televisão.A Espanha!O país tradicional das lides taurinas!
E cá? Quando acabam os espectáculos deprimentes de sacrifício dos animais?