sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

LUGARES DE CONDEIXA- A RUA NOVA


Na continuação de registar a memória de lugares desta terra onde nasci, chegou a altura de dar uma volta por outro sítio peculiar.
Regra geral, é comum considerar-se como bairro o conjunto de locais, interligados por sítios com determinadas características. Foi assim que fiz nas minhas crónicas anteriores, quando tentei retratar Condeixinha, atribuindo-lhe particularmente o título de “Estrada de Pedra”. Já ao Outeiro dei o nome próprio, sem registar o título algo depreciativo como outros condeixenses o designavam:”Espanha”. Desta vez, como o espaço físico da rua é reduzido, porém rico em conteúdo, acrescento-lhe dois outros locais, para complementar o relato.
O tema vai ser “rua Nova” e as ruas que lhe estão adstritas, serão a Palmeira e rua de S. Jorge (actual rua Dr.João Ribeiro).
Embora o nome oficial seja rua Venceslau Martins de Carvalho, sempre lhe chamaram, e chamam, rua Nova. Segundo refere Santos Conceição “…Condeixa-a-Nova, nesse recuado século XIII, seria um pequeno lugar de área não superior a 800 metros quadrados, a crescer entre a actual Igreja e a rua Nova…” e prossegue “…foi o lugar acrescido por doação de terras pertencentes ao morgadio de Morais Botelho…” O mesmo historiador cita ainda o Padre António Carvalho da Costa: “Foi este lugar de Condeixa-a-Nova, ou a maior parte dele, doado à povoação, no ano de 1500, pelos irmãos Srs. Estêvao de Morais Botelho…e Afonso de Morais Botelho…” para acrescentar em seguida: “não diz, a Corografia, qual a extensão do lugar; ela devia ser, porém – segundo se infere dos bens do morgadio- aquela que viria a ser ocupada pelo palácio dos Sás, com as terras próximas.”
Daqui se depreende que a rua Nova tem pergaminhos de antiguidade.
Na junção de três ruas, respectivamente e pelos nomes que actualmente apresentam: rua 25 de Abril; rua Fortunato de Carvalho Bandeira e rua de Lopo Vaz há um espaço antigamente designado praça Dr. António Granjo, ou praça Velha. Isto é curioso, porque exactamente duma praça velha, começa a rua Nova. E nada melhor para a assinalar, que um “passo” do percurso da muito antiga Procissão do Senhor dos Passos de Condeixa. Tão antiga, que neste passo, a encimar o lindo painel de azulejos, se encontra a data: ano de 1782! Mas a Procissão é, seguramente, mais antiga!
A própria praça Velha tem história. De dimensão superior à actual, ali se realizava o mercado da vila. Na 2ª Edição da Monografia de Condeixa, assinada por José Maria Gaspar, é referido: “…no século XIX, na época das lutas entre liberais e miguelistas, praticou-se nela o corte de cabelo duma senhora ascendente da família Pires de Miranda, por se recusar a denunciar o paradeiro de seu irmão”. Eu acrescento: A senhora em questão pertencia a uma família tradicionalmente democrata liberal, e os executores do castigo foram os “caceteiros” da facção absolutista miguelista.
A estreita rua Nova, não chega a medir uma dezena de metros de largura. Esse facto é motivador de maior proximidade entre moradores. Tal como em Condeixinha, as pessoas podem falar com o vizinho da frente, sem necessidade de elevar a voz. Mas, ao contrário de Condeixinha, um bairro marcadamente operário, a rua Nova não tinha oficinas e os moradores intercalavam-se entre gente rica e gente pobre. Tão pobre que se contava um episódio passado com um dos moradores. Faço referência a isso, para demonstrar os tempos difíceis que então se viviam: um dia, uma das filarmónicas foi tocar numa qualquer festa dos arredores. Em dia de arraial, há sempre rancho melhorado. Quando os músicos se sentaram a uma mesa farta, repararam que um dos seus elementos, após o farto repasto, chorava. Intrigados, perguntaram-lhe o porquê. E a resposta não se fez esperar: “tanta fartura, e eu não tenho capacidade para comer mais!” Comentários, para quê!
As casas sucedem-se em linha contínua, até ao cruzamento com a travessa da Água e rua de S. Jorge. Aí, um pavilhão já integrado na Quinta do Palácio, tem a culminar o pequeno telhado, um dos dois cata-ventos que ainda restam nesta terra, onde vários existiam (há outros dois exemplares que têm apenas função decorativa). O que refiro representa um homem guiando um porco. Matematicamente fiel às condições atmosféricas, quando o homem vem da feira dos quatro (mercado de gado que se realizava na Barreira), é sinal de bom tempo. Em oposto, se ele vem de Condeixa-a-Velha, a invernia instala-se. Mistérios do vento norte e do vento sul!
A casa onde se encontra o passo atrás referido era a habitação e estabelecimento comercial de Rui da Costa. Habilidoso pintor da construção civil antes de ser funcionário de uma companhia de electricidade, tocava viola e era figura habitual nos conjuntos musicais criados para abrilhantar qualquer festejo, tendo sido também membro do conjunto musical do Rancho Folclórico da Casa do Povo, desde o início. Além disso possuía dotes teatrais e, por isso, participou em diversas peças e revistas.
Depois, morava a Senhora Marie Guitton. Francesa de nascimento, mas a viver longos anos em Condeixa, esta senhora foi figura característica da vila. Nesse tempo, as “meninas de família” eram educadas de forma a tornarem-se boas esposas. Entre as prendas exigidas, constava a aprendizagem da língua francesa. Lá estava então a Senhora Guitton para ministrar as aulas. Também na Igreja ensinava o catecismo, condição primária para as crianças que faziam a Comunhão Solene. E não era nada meiga nos métodos docentes! Mas também, os garotos da altura não eram boas biscas! O Fernando António que confesse a maldade feita um dia à senhora (aqui para nós, retirou o banco em que ela se ia sentar!
Com a senhora Guitton, morava a “menina Otília” desde pequenina. Bem, pequenina ela continua, embora os anos tenham passado. Quando em 1947 foi construído um Parque Infantil na Praça da República, a “menina Otília” foi lá colocada como encarregada, tomando conta das crianças e de uma estante com livros da Colecção Tonecas. Li-os todos! A Otília, para mim sem “menina”, há tantos anos a conheço e tão querida me é, continua a ser participativa. Aí está ela agora, membro integrante do agrupamento “Cantares de Condeixa”.
Logo acima, e no lado oposto, existe ainda um velho prédio cheio de história porque esteve lá instalado o primeiro teatro a sério, da vila. O edifício pertencia (pertence) à família Bandeira e foi adaptado a casa de espectáculos. Noutro ponto do meu blogue, refiro a actividade teatral em Condeixa, descrevendo esse local onde inclusivamente ocorreu a estreia do Orfeão criado pelo Dr. João Antunes. Ao findar a primeira metade do século vinte, o sítio foi utilizado também para instalar uma fábrica de mobília, a Mobilândia. A rua Nova chegou a ser chamada rua dos Teatros, porque um outro prédio abrigou também um Grupo Teatral. Não encontrei nos escritos antigos, referência à sua localização mas, presumo, tenha sido onde hoje estão as instalações da Santa Casa da Misericórdia.
Logo a seguir, morava Manuel Couceiro (Cigarra) e a sua numerosa prole. Embora a rua Nova tivesse vários moradores que se distinguiam dos demais habitantes da vila (em todas as terras, em todos os lugares isso acontece), parece-me correcto afirmar que esta família emprestava à vivência quotidiana da rua um carisma especial.
Das características de Condeixa, era significativo o número de pessoas que tocava algum instrumento musical, o que justificava a existência simultânea de duas bandas de música. Há quem afirme dever-se isso ao facto de ser Condeixa um ponto de passagem (e paragem) de colunas militares, sempre acompanhadas pelas respectivas charangas. É possível! Para quem recorde fotografias da Música Velha ou da Música Nova, facilmente comprova que estão recheadas de genuínos condeixenses, de todos os lugares mas, particularmente, pode reparar na foto da Música Nova, onde figuram cinco membros da mesma família: O patriarca Manuel Couceiro (Cigarra) e os filhos, João, Francisco, António e José. Conta-se até uma história curiosa. O João e o Francisco moravam na Rebolia. A paixão musical era tão grande que, numa altura em que um deles teve um problema que o impedia de andar, era o irmão quem o ia buscar às cavalitas, para o trazer aos ensaios da banda!
Além de bons executantes de instrumentos musicais, toda a família Cigarra cantava bem. O Alberto então, era -ainda é, felizmente, creio – voz afinadíssima para cantar o fado de Coimbra (ou balada ou trova, como lhe queiram chamar). Ele e o Ganga (António Pessoa), outra bela voz, percorriam as ruas de Condeixa, acompanhados pelas guitarras e violas de António Pimentel, Álvaro Moura e Silva, o irmão deste, Manuel e o António (Tó) Rocha, a fazer serenatas às bonitas jovens desse tempo.
Com músicos, detentores de lindas vozes e amigos de festas, a rua Nova durante as fogueiras populares, era um perfeito arraial.
Morei na travessa da rua da Água, na casa que tinha ao canto do muro do quintal uma bica, embora a água não fosse de nascente, mas de uma rigueira vinda do lado do Matadouro, e ainda assisti às “fogueiras”. À esquina do pavilhão do Palácio (o tal onde está o cata-vento) os cachopos da rua montavam um altar dedicado a Santo António e à noite era o bailarico, sempre animado musicalmente pelos trompetes, clarinetes e saxofones dos moradores. Mas convém não esquecer, a presença da inconfundível “Ti Caçaneta”, mulher do “Ti Mitério” (Hemitério Pato) e mãe de vários Patos de Condeixa. Pequenina mas enérgica, aos oitenta e muitos, ainda a vi a desafiar outras mais novas para a bailação.
Já entrando pela rua de S. Jorge, ao ângulo recto da rua chamava-se “o motor”. Quando a família Sotto Mayor adquiriu aos Lemos Ramalho o palácio, não havia ainda energia eléctrica em Condeixa. Foi então instalada em edifício próprio, uma central de produção eléctrica. Como o motor necessitava de arrefecimento, do lado de fora havia sempre água a correr. E isto era muito importante para os vizinhos do local, especialmente no verão, porque se tratava de abastecimento de água permanente para a lavagem de roupa.
Há quem considere que a Palmeira é o prolongamento da rua Nova, outros, que é toda a rua Manuel Ramalho, antiga rua da Água, até à junção com a rua anterior e a rua Dr. João Antunes ou, como se dizia no meu tempo, a Avenida Nova. Para mim, Palmeira é tudo isso. Diziam que existia uma árvore dessa espécie no largo em frente ao portão da Quinta do Palácio e do Matadouro Municipal (que agora é uma tipografia mas já foi também quartel dos bombeiros), e por isso a designação genérica.
Do Matadouro, recordo quando nós, garotos, lá íamos pedir o bucho dos animais abatidos para fazer bolas de futebol (bolas de futebol, é uma expressão demasiado optimista), com as quais jogávamos aguerridos desafios na Praça.
Por detrás, era o quintal e a casa-moínho onde morava a família Canudo. É claro que Canudo, Cigarra e muitos mais nomes, não eram apelidos e sim alcunhas. Mas colavam-se de tal forma às pessoas que até os próprios detentores as aceitavam. Quando menciono qualquer uma dessas alcunhas, não tenho a mínima intenção de ofender quem quer que seja. Simplesmente e porque o que escrevo é fundamentalmente dirigido a condeixenses, acho que esta é a melhor forma de situar os relatos.
Já caminhando em direcção ao rio, há uma casa devoluta e em avançado estado de degradação onde, diziam, havia fantasmas. Nem só os castelos escoceses têm direito a essas figuras, imaginárias ou nem tanto. O prédio em questão, verdade (?) ou imaginação, não conseguia manter muito tempo os inquilinos. A findar o mesmo bloco habitacional, outro dos inúmeros moinhos de Condeixa, este explorado por António Canudo, um dos familiares do moinho anteriormente mencionado. Cometeram com este prédio um atentado à arquitectura regional, ao revesti-lo com marmorite. Ainda bem que não lhe retiraram o arco de volta abatida onde estavam os rodízios do moinho. E depois, o rio, pejado de lavadouros onde à semelhança do que acontecia em outros lugares da vila, as lavadeiras de Condeixa ensaboavam, esfregavam e batiam a roupa. “…Dois corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol…”, cantava a Mirita Casimiro no filme “Aldeia da roupa branca”. O “secadoiro”, ou “coradoiro”, era em frente, no empedrado junto às casas de António Preces e da Ti Maria Vasca.
Em 1936, o Grupo Cénico Dr. João Antunes apresentou a Revista-Fantasia de Condeixa “Secas e Picadas”, onde entravam 102 personagens. Tinha cenários pintados expressamente por Joaquim Melâneo e 30 números de música, original e adaptada por António de Oliveira. Um destes números chamava-se “Lavadeiras”. Eis um extracto dos versos:

Herdei da minha avó
A vida de lavadeira
Ela morreu, fiquei só
Penso da mesma maneira.

Qualquer vida tem percalços
E a minha é muito ingrata
Mas aos fregueses mais falsos
Prendo eu pela arreata.

Há freguesas delambidas
Que se dizem asseadas
De quem lavo às escondidas
Muitas calcinhas borradas.

Lavo a roupa a um freguês
De maneiras delicadas
Mas num bolso encontrei três
Camisas emporcalhadas”.

Depois, cantava o coro:

“ Metidas no rio
Ao sol e ao frio
Qualquer lavadeira
Vai lavando mágoas
Que vão com as águas
Vindas da ribeira”
Em 1980, tive o honroso convite do Sr. Ramiro de Oliveira para ensaiar no Grupo de Teatro da Casa do Povo, uma revista escrita por ele e que se intitulava “ Condeixa Sem Máscara”, onde figurava o Quadro das Lavadeiras, retirado da anteriormente mencionada revista.
Hoje, dia em que estou a escrever estas memórias, passei pela Palmeira e vi lá uma solitária lavadeira. Estaria a reviver tempos antigos ou, em tempo de crise, a poupar na energia da máquina de lavar?
Com esta descrição, termino a minha passagem em memória pelo Bairro da Rua Nova.
Tal como aconteceu em “Outeiro” e um pouco mais em pormenor na “Estrada de Pedra”, ou em “ A Rua Principal”, tentei retratar alguns aspectos interessantes da Condeixa do meu tempo, procurando não ser maçador nem inconveniente descrevendo demasiadas situações ou contando episódios que podem não ser do agrado dos familiares. Estes exercícios de memória procuram apenas registar uma determinada época. E, quem sabe, talvez despertar em quem eventualmente leia o que escrevo, recordações agradáveis desse tempo.
Condeixa, 14 de Janeiro de 2011
Cândido Pereira

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

...E AQUELES QUE POR OBRAS VALOROSAS…

Condeixa e a Implantação da República
Num balanço do ano de 2010 em Condeixa, não podem deixar de ser referidas as Comemorações do Centenário da Implantação da República, iniciadas no dia 5 de Fevereiro e continuadas ao longo de nove meses, sempre no dia cinco de cada mês, até à data chave, 5 de Outubro de 2010, 1º Centenário do dia em que Portugal abandonou o sistema retrógrado da monarquia, absolutista ou liberal, mas sempre uma forma de imposição de alguém que, por nascimento, considerava ter autoridade sobre os seus semelhantes.
Omito as oito primeiras sessões porque, razões de ordem vária, me impediram de estar presente.
Assim, apenas vou dissertar sobre a sessão que finalizou o ciclo, também com o intuito de homenagear os condeixenses que arriscaram o sossego, a posição social e o bem-estar familiar, para lutar por um sonho, por uma forma política que terminasse de uma vez com as discriminações sociais.
Infelizmente, sabemos hoje, nada disso foi conseguido. Mas, no dia 5 de Outubro de 1910, esses valorosos lutadores da liberdade, estavam convencidos que, finalmente, a luta chegara ao fim.
Falar da República, em Condeixa, é evocar o nome ilustre do Dr. Juiz António Pires da Rocha. Aliás, o apelido desta família é sinónimo de prestígio na vila. Desde Fortunato Rocha da Fonseca que em 1877 comprou a Farmácia Gama (actual Farmácia Rocha, o mais antigo estabelecimento condeixense, sempre do mesmo ramo), a seus filhos, Dr. António Pires da Rocha, juiz; Comandante Fortunato Pires da Rocha, oficial superior da Marinha de Guerra e Dr. Júlio Pires da Rocha, farmacêutico e criador de vários medicamentos. Sem esquecer um dos mais jovens membros da família, Manuel Rocha, Director do Conservatório de Música de Coimbra e violinista de craveira, neto do Dr. Juiz.
Com a intenção de homenagear gente da minha terra que …”por obras valorosas se vão para além da morte libertando!”, faço a biografia do Dr. Juiz Rocha, utilizando para isso as informações que, no dia 5 de Outubro de 2010 seu filho, Fortunato Batista Pires da Rocha, leu perante a Assembleia reunida no Salão Nobre da Câmara Municipal de Condeixa:
“ António Pires da Rocha nasceu em Condeixa no dia 9 de Dezembro de 1884 e aqui faleceu em 31 de Julho de 1954. Era filho de Fortunato Rocha da Fonseca, farmacêutico, e de Teresa Jesuina Pires do Rio.
Frequentou a Escola Primária de Condeixa, sendo seu professor Francisco Maria Simões de Carvalho. Em Outubro de 1896, foi estudar para o Liceu Nacional Central de Coimbra. Com o colega e amigo Carneiro Franco, mais tarde deputado da República, ainda meninos, fizeram-se políticos, entrando para um grupo de livres-pensadores. Em 1904 matriculou-se em Direito, na Universidade de Coimbra, num período de grande agitação política. Em 1905, inscreveu-se no Partido Republicano Português. Foi co-fundador do Centro Académico de Coimbra e do Centro Republicano de Santa Clara. Fundou e foi professor, gratuitamente, durante três anos, de um curso nocturno no Centro Republicano de Santa Clara, ensinando a ler inúmeros operários de Santa Clara e da cidade. A sua acção política e conspirativa atingiu o máximo durante a greve Académica de 1904, da qual foi um dos intransigentes, e nos anos que se seguiram, até à implantação da República.
Em 6 de Outubro de 1910 esteve presente, assinando a Acta da Proclamação da República em Coimbra, feita pelo Dr. Fernandes Costa, o qual, de seguida, foi ocupar o lugar de Governador Civil.
Em Condeixa, (o Dr. Juiz Rocha) foi Administrador do Concelho desde 7 de Outubro de 1910, a 17 de Março de 1913,data em que pediu a exoneração, por se ter constituído o 1º Governo partidário, chefiado pelo Dr. Afonso Costa. Em 7 de Dezembro de 1913, foi eleito Presidente da Câmara de Condeixa, renunciando aos vencimentos, a favor da autarquia. A 26 de Junho de 1914, pediu a demissão por optar pela carreira da magistratura. (nomeado Delegado do Procurador da República, em Miranda do Douro).
Durante o período em que foi Administrador do Concelho, houve várias tentativas monárquicas para derrubar a República. Nunca prendeu nenhum adversário político, embora fosse instigado a isso. A D. Joana Lemos era acusada de aliciar conspiradores para as hostes de Paiva Couceiro (líder monárquico) e veio um oficial a Condeixa para a prender. Foi aconselhado a ouvi-la em auto, mas que a deixasse em liberdade, o que fez. Assumiu a responsabilidade da manutenção da ordem e de facto nunca houve a mínima alteração. Opôs-se a todas as violências e protegeu a religião e os padres, por entender que a liberdade era para todos. Promoveu a reparação do telhado da Igreja, acabando com a especulação, principalmente da D. Joana Lemos e da D. Marquitas Bicho, que diziam que a República queria acabar com a religião e vender o edifício da Igreja. Assistia às sessões da Câmara e orientava os vereadores no sentido de criarem escolas e fazerem melhoramentos públicos. Acabou com a mendicidade dos “passageiros”, dando-lhes de comer do “rancho” dos presos e pagando as rações do seu bolso.”
Das memórias do Dr. Juiz Rocha, constam vários episódios do período inicial da República. Como esse texto é longo, vou procurar resumi-lo, relatando apenas alguns extractos mais relevantes, ocorridos após a exoneração, a seu pedido, do cargo de Administrador do Concelho. Para o seu lugar, foi nomeado o Dr. José Luís de Almeida que “… se encostou ao Francisco de Lemos e aos seus partidários monárquicos e moveram guerra sem quartel aos antigos correligionários que se haviam passado para a República”.
E continua o Dr. Juiz Pires Rocha:
“Em Condeixa só eu era livre-pensador mas, por isso mesmo, não hesitei em colocar-me ao lado dos padres de Condeixa-a-Velha e Zambujal, os únicos que não pertenciam à facção do Francisco de Lemos (casa Lemos Ramalho) …O padre do Zambujal era Joaquim Augusto da Silva, pessoa tímida e inofensiva. Pois para o assustarem, uns meliantes amigos do Lemos atiraram numa noite uma bomba de morteiro contra a sua janela. Os mesmos indivíduos noutra noite entraram na Igreja, arrombaram a caixa das esmolas e urinaram no pavimento. O padre Silva ficou muito desgostoso com estes actos de vandalismo e eu aconselhei-o a queixar-se à autoridade policial a qual por fim pronunciou alguns deles, sendo condenados, mas ficaram pouco tempo na cadeia porque beneficiaram de uma amnistia. Também se deu um caso bastante grave com o toque do sino às almas. Desde tempos imemoriais, o toque correspondia ao recolher. As pessoas retiravam-se para as suas casas e ali rezavam o Pai-Nosso e a Ave-maria, pelas almas dos seus parentes. Não havia alarde de religiosidade, mas a recordação saudosa dos seus mortos queridos. O toque das almas consistia em certo número de badaladas um pouco espaçadas, que não incomodavam ninguém, até serviam para lembrar a toda a gente que eram horas de deitar. Em Condeixa tocava-se às almas todas as noites, mas no Zambujal era só na Quaresma. O Administrador do Concelho resolveu proibir o toque no Zambujal, por acinte contra o padre Silva, mas permitindo-o nas outras freguesias… O padre Silva escreveu-me a pedir para o aconselhar e eu, depois de me certificar que não havia na Lei sanção contra o toque, a não ser a desobediência à ordem do Administrador, instiguei o padre a que mandasse tocar o sino. A ordem do Administrador não era de acatar, visto que ele não fez afixar editais a proibir o toque dos sinos…O pior é que o Administrador pediu ao Governador Civil para mandar a polícia e depois uma força do Regimento de Infantaria 23, para manter a proibição…porém, à hora de tocar o sino não apareceu a polícia nem as tropas e eu mandei tocar o sino, para satisfação de todo o Povo. No dia seguinte chegou a polícia e depois a tropa. Então, mandei telegramas para o Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Bernardino Machado a protestar contra a proibição e responsabilizando-o pelo sangue que fosse derramado em virtude do abuso da autoridade…em breve o Administrador recebeu ordem para autorizar o toque dos sinos. O Povo queria e por isso era justo respeitar a vontade do Povo…A República estava na infância e os chefes, em vez de se entenderem e de continuarem unidos até ela crescer e se consolidar, deram largas às suas incompatibilidades pessoais, às suas vaidades e ambições de mando.”

Era assim o Dr. Juiz António Pires da Rocha. Homem justo, democrata leal às suas convicções políticas e, fundamentalmente, sempre de coração aberto, pronto a intervir onde a justiça e o bem-estar do povo exigisse a sua presença. É com Homens deste gabarito, que se constrói a História de um País!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

LUGARES DE CONDEIXA-O OUTEIRO(2ª parte)

(2ªparte)
À chegada ao Largo de S. Geraldo, o Outeiro divide-se. Para a esquerda, o Canto e o Alto. Em frente, a longa subida, à direita, o caminho para a Fonte e a Cascalheira.
A fonte tem pouca beleza, para quem não considerar belo ver brotar da parede um jorro de água fresquíssima, infelizmente impura. Por cima, uma ponte a ligar as propriedades que foram do Comandante Rocha e hoje pertencem à sua sobrinha, Dr.ª Jesuina Rocha Helena. Lá no fundo, o tanque de lavar roupa, agora quase sem préstimo, desde que as pessoas aderiram às novas tecnologias (vulgo, máquinas de lavar). Antigamente, em dias determinados, juntava-se um rancho de mulheres para lavar a roupa, própria ou de fregueses. Trabalho árduo que forçava a estar várias horas a esfregar e ensaboar, batendo depois os panos nas pedras do lavadouro, até ficarem limpos. Depois, era só estender a corar. (recordam-se do filme Aldeia da Roupa Branca?). Servia também para as lavadeiras desenferrujarem a língua, dissecando a vida de cada um. Ali, falava-se de tudo. E cantava-se! De repente, bastava uma começar, para se generalizar a cantoria. Verdadeiro coro espontâneo brotava das gargantas afinadas das lavadeiras. Condeixa, terra de muita água, benza-a Deus, tinha vários lavadouros públicos: a referida fonte, o rio da palmeira na Rua Manuel Ramalho, comprido espaço onde se juntava um grande rancho de lavadeiras, o ribeiro da Serrada e o lavadouro da Lapa. Na primeira metade do século vinte, foi levada à cena no Cine-Avenida, uma revista musical (Secas e Picadas) que obteve enorme êxito local, onde havia um interessante quadro alusivo às Lavadeiras de Condeixa.
Depois da Fonte e descendo as breves escadas, encontravam-se as terras do Paraíso (rua Cidade de Breten, Ciclo, etc.), onde costumavam acampar circos e barracas de tiro. Também cheguei a ver lá teatro, em tenda montada por uma companhia itinerante, com a representação do drama “A Rosa do Adro”, de Manuel Maria Rodrigues. Periodicamente, deslocava-se a Condeixa a companhia Circo Amery, da qual fazia parte a Trupe To Ching (estará bem escrito o nome?), grupo de chineses, -acrobatas ou manipuladores de varinhas com pratos, não recordo bem- constituído por pai, mãe e filhos. Estes, creio serem actualmente os donos do Circo Chen. A família ficava invariavelmente instalada em casa do Zé Galhardo (José Moita), que na altura morava no antigo prédio da casa do Povo. De volta ao Largo, ao domingo de manhã podia assistir-se a uma sessão de corte de cabelo ou barba, a céu aberto, se o tempo permitia, mas ameaçando chuva, dentro do curral da mula. Para isso bastava uma vulgar cadeira, tesoura, navalha de barba, pincel e um recipiente onde misturar com água o sabão em pó que se vendia em caixas de cartão, coloridas. Depois, a paciência e coragem para resistir às mãos do “Ti Picaroto”, (Francisco Caridade), mais habituadas aos trabalhos rurais. De qualquer forma, a pedra- úme (alúmen), estancava o sangue dos golpes mais que prováveis.
Antes de subir as escadas da Costa, uma breve visita à oficina de bicicletas do João da Costa, só conhecido por Nicolau porque era incondicional admirador do antigo campeão das Voltas a Portugal. Homem muito poupado, chegava ao extremo de levar ao rubro no rebolo de afiar, um raio de bicicleta, para acender o cigarro. A pedra de esmeril tinha a meio um fundo vinco motivado pelo atrito do aço que quase a tornava imprestável para outras tarefas.”Vai-te lucro, que me dás perca”.
Em tempos remotos, o caminho desde a Fonte até ao Hospício, fazia-se pela estreita vereda da Costa. Ainda cheguei a conhecer alguém (terá sido o Florêncio Azevedo Branquinho?), que dizia ouvir a mãe contar que se assustava com os tiros de dinamite utilizados para abertura da que é hoje a R. Dr. Simão da Cunha. Não teria sido, portanto, tão remotamente.
Mesmo ao cimo das escadas, morava o “Ti Chico Cavaca” (Francisco da Costa), pai do Chico e do Daniel “Carrula” (Francisco e Daniel Ramalho da Costa). Este último, meu condiscípulo na primária, habilidoso jogador de futebol, no tempo do Campo dos Silvais, morreu com apenas vinte anos, vitimado por um tumor cerebral.
Ao lado, era a casa de Joaquim Melâneo, funcionário judicial e inspirado pintor de arte, característica que seu filho Frederico herdou. Tinha um hábito curioso: de muito bom ouvido musical -comum a todos os genuínos condeixenses- quando regressava a casa, ia assobiando por entre dentes, uma qualquer melodia. Mas só entrava, após a ter concluído. Manias!
Na Costa, moravam também os Salicús! O patriarca, António Melâneo, era pedreiro. Tinha dois filhos, que foram meus condiscípulos, o Vergílio e o António.
No meu tempo, quando saíamos da escola, não nos arriscávamos a descer o Outeiro, porque os moradores da Costa, especialmente os atrás referidos, corriam à pedrada quem invadisse o seu território. Por isso, íamos beber água ao telheiro do armazém de Alcobaça, Peça & Companhia, onde havia uma bomba que aspirava a água do poço. Desta forma, evitava-se a temível descida à fonte do Outeiro!
Três monumentos caracterizam o Outeiro: A Escola Conde de Ferreira; o Hospital Dona Ana Laboreiro d’ Eça e o Palácio dos Condes de Podentes (Hospício).
O primeiro, a Escola, masculina para a distinguir da outra, a Escola Feminina. Meninas e rapazes, no entender retrógrado dos mandantes da época, não podiam coabitar. A escola delas era outro mundo, que nós só visitávamos quando lá íamos obrigatoriamente fazer os exames da 3ª e da 4ª classe.
O edifício foi construído graças à participação de um mecenas. Joaquim Ferreira dos Santos, Conde de Ferreira, era um antigo emigrante em África e no Brasil, onde angariou imensa fortuna. Tendo testemunhado as dificuldades passadas pelos seus patrícios em terra estranha, bons trabalhadores mas analfabetos, incapazes de enviar meia-duzia de letras à família que em Portugal aguardava ansiosamente notícias, quando regressou ao seu país legou em testamento um fundo para a construção de 120 Escolas Primárias. Em todas elas foi inserida a data 24 de Março de 1866, dia da sua morte. Encontra-se sepultado no Cemitério de Agramonte, num mausoléu construído pelo escultor Soares dos Reis.
Em 10 de Setembro de 1867, realizou-se o lançamento da primeira pedra para a construção. Em termos monetários, contabilizava-se 1200$000 (mil reis) da Fundação Conde de Ferreira; 800$000 (mil reis) doados pela Confraria do Santíssimo Sacramento e o restante, da responsabilidade da Câmara Municipal.
(Dados históricos destinados a facilitar a quem pretenda conhecer melhor Condeixa, a inclusão nestes exercícios de memória têm apenas o valor da informação que se pode obter em trabalhos literários, nomeadamente “Condeixa-a-Nova, de Augusto dos Santos Conceição” e “Subsídios Para a História de Condeixa-de Fernando de Sá Viana Rebelo e Isac Pinto.)
A Escola, no meu tempo era dirigida por dois professores: João Correia e António Mateus. Em 1946 faleceu João Correia e foi substituído por António de Jesus Pita.
O que é que se pode mais dizer sobre a Escola? Os anos da infância, são, incontestavelmente, os melhores da vida de uma pessoa. Os problemas resumem-se a conseguir cumprir as determinações dos pais, professores e outros agentes de formação. Mas no meu tempo, as preocupações eram substancialmente acrescidas com o medo de desagradar aos mestres. Porque os castigos eram pesados. Por exemplo: no ditado, cada erro correspondia a uma reguada. Esta, já não era a falada “menina dos cinco olhos”, mas apenas uma vulgar tábua que doía que se fartava, ao bater com toda a força na palma das mãos! Os cachopos de vez em quando inventavam meios de minorar a dor, coisas que, diga-se de passagem, não surtiam qualquer efeito. Lembro-me de uma hipótese que consistia em colocar na mão uma crina de cavalo, crendo a criança que isto provocava a quebra da régua. O pior era se o professor descobria o inocente e ineficaz estratagema, pois redobrava a pena a aplicar.
Como qualquer outra criança, também sofri bastantes castigos. A maior parte merecidos, alguns escusados. Apenas um ficou mais gravado na memória, porque foi inteiramente injusto!
Ao sábado de manhã, havia uma sessão de treino paramilitar, da Mocidade Portuguesa, ministrada pelo Tenente Pires Beato. Imagine-se: garotos dos sete aos dez ou pouco mais anos, aprumados em formatura e a marchar! Que ridículo!
No tempo do professor João Correia, havia uma outra actividade bem mais interessante: um coro formado por todas as crianças da Escola. Aliás, creio ter sido essa a mais valiosa prestação do “temido” professor João Galo.
Em frente, o Hospital!
Foi construído graças à generosidade do condeixense Dr. Simão da Cunha D’ Eça Azevedo, que legou toda a sua fortuna à Câmara de Condeixa, para…”Fundar em edifício próprio, e que satisfaça todas as condições exigidas pela ciência actual, um Hospital para nele serem tratados doentes dos dois sexos, preferindo sempre os da minha freguesia e concelho e custear todas as despesas que para tal sejam exigidas.” (Subsídios Para a História de Condeixa). Era assim que estava determinado no testamento daquele benfeitor.
O Dr. Simão da Cunha faleceu em 1919, mas só em 1921 estava tudo preparado para dar início às suas disposições testamentárias. Só que entretanto a desvalorização da moeda, comprometia a efectivação da obra. Mas, como diz o médico Dr. Evaristo Cerveira de Moura na sua obra ”Nascimento, vida e morte do Hospital D. Ana Laboreiro D’ Eça”, -“então, surge o inesperado. Em 13 de Outubro de 1925, morre em Lisboa, Artur Barreto, senhor de grande fortuna e institui seu principal herdeiro o Hospital. Todos os seus bens nas comarcas de Condeixa e Ansião…mais de cem mil escudos…entraram na Câmara Municipal, em Agosto de 1926. Este facto permitiria vida mais desafogada à obra…assim, em 1926, estava concluído o edifício. Resolveu a Câmara que o pessoal da enfermagem pertencesse a alguma Ordem Católica, sendo contactada a Ordem Franciscana de Hospitaleiras Portuguesas, que em Março aceitou o convite.”
Diz ainda o Dr. Evaristo Cerveira de Moura: “O Hospital teve sempre grandes beneméritos. Não se pode esquecer essa grande Senhora que foi a Ex.ª Sr.ª D. Maria Elsa Franco Sotto Mayor, que chamou a si todo o encargo de comprar e mandar instalar todo o material da sala de operações e esterilização, bem como o valioso arsenal de material cirúrgico para qualquer tipo de operações.”
Em 1976 foi firmado um acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, com vista à utilização do Hospital, como instalações do Centro de Saúde. Modificou-se nessa data a forma inicial de funcionamento da velha unidade hospitalar. Mais tarde, com a construção do novo Centro de Saúde, acabou de vez o Hospital D. Ana Laboreiro D’ Eça!
Hoje, ali está um prédio devoluto, lentamente a degradar-se. Até quando?
Seguindo o percurso do Outeiro, um pouco acima do Hospital, era a loja do “Manel Capado” (Manuel Torres), onde comprei muitos caramelos que tinham a embrulhá-los, as figurinhas dos futebolistas para colocar em cadernetas próprias. Este “Manel Capado” era um homem extrovertido que divertia e se divertia. Em todos os carnavais, lá estava sempre a sua figura, dando corpo a alguma figura cómica da altura. Várias vezes o vi participar nas brincadeiras carnavalescas, cortejos ou representação espontânea de paródias de Entrudo.
Logo acima, o prédio da oficina de Benjamim Ramos, com o seu nome em grandes letras de cortiça na fachada circular e a informação que se realizavam serviços de bate-chapa: pintura; construção de carroçarias, etc.
Benjamim Ramos, o “Fechaduras” era um empreendedor empresário que, além da oficina, também instalou uma fábrica de serração de madeiras e dirigiu o lagar “do Fiscal”, na Avenida. Tinha um automóvel Citroen, modelo “arrastadeira” (ainda pertence à família). Um dia foi passear com amigos e, na passagem de nível da Corujeira (Coimbra), por pouco não foi abalroado pelo comboio, que lhe levou o pára-choques do carro. Devido ao feitio do referido acessório do veículo, dizia ele com graça: “O raio do comboio, apenas me levou o bigode!” Mas, se dessa vez escapou à morte, não sobreviveu alguns anos depois, na sua própria oficina, quando foi esmagado contra a parede por uma camioneta.
A terminar o Outeiro, inicia-se a Quinta do Hospício, com uma pequena mata a dar maior realce ao Palácio dos Condes de Podentes.
Antigo convento de frades Antoninos-Franciscanos, funcionou como hospital para doentes mentais, daí a designação ainda hoje existente e que dá nome a toda aquela zona do Outeiro. Com a extinção das ordens religiosas, o convento foi adquirido ao Estado pela quantia de 1251$000, em 1842, pelo 1º Conde de Podentes, D. Jerónimo de Almeida e Vasconcelos.
A construção é de estilo vagamente barroco, possui valioso espólio de azulejaria, vestuário antigo, louças, vários outros objectos de arte e mobiliário. Uma das filhas do Conde de Podentes, foi casada com Carlos Relvas, abastado lavrador ribatejano, considerado o 1º fotógrafo amador do país.
Um dos últimos herdeiros da Casa Conde de Podentes, foi D. Margarida Relvas Albuquerque que era casada com o médico Dr. Henrique Costa Alemão Teixeira.
E está terminada a curta mas aliciante viagem pela memória de um bairro que faz parte do meu imaginário, quer infantil ou juvenil. Desde o tempo escolar, até ao final da adolescência, vivi intensamente o quotidiano “outeirino”. Foi no prédio da cadeia, no 1º andar, que me apresentei como vim ao mundo, perante a junta militar que decidiu apurar-me para todo o serviço militar, a mim, com uns escassos 160 centímetros de altura e meia centena de quilos em ossos, carne e alguns músculos!
Também foi numa casa do Largo de S. Geraldo que nasceu o meu filho mais novo. Na mesma casa onde a minha mãe fechou pela última vez os olhos. Em frente, instalou o meu pai a primeira oficina de reparações eléctricas em automóveis e construção de baterias para os mesmos, que existiu em Condeixa.
É evidente que o Outeiro não é, ou era, apenas o que descrevo. Nenhum local se resume a referências e recordações, por mais elaboradas que sejam. Resta-me a esperança que a leitura destes escritos estimule a memória de quem viveu nesse tempo e se disponha a contar aos mais novos a forma como vivíamos!
FIM