terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lugares de Condeixa Avenida


2ª Parte
Era assim a Condeixa de outrora. Com figuras peculiares que criavam situações curiosas, muitas vezes cómicas, mas também de vez em quando revestidas de algum dramatismo, especialmente quando assinalavam temas que tinham a ver com a fome e mais miséria social.
No caso da Avenida, por ser um local de gente com teres e haveres, só há a contar coisas engraçadas. Como o episódio passado com um sapateiro tocador de bandolim. O prédio que está mesmo em frente ao Cine-Teatro, foi mandado construir por João Alcobaça. No rés-do-chão instalou um armazém de azeites mas, pouco tempo depois, passou a ser a primeira loja de ferragens de Manuel Alves Ferreira. Nesse edifício viviam os proprietários, filha e genro. Este tinha um posto transmissor/receptor de rádio amador. Ao lado morava António Pimentel, Tópi, reputado artista plástico com obras expostas em várias galerias de arte da Europa e do Brasil. (A propósito, o Orfeão Dr. João Antunes lançou uma petição via internet para solicitar à Câmara a atribuição do nome deste artista a uma rua de Condeixa). Tocava muito bem guitarra e um dia convenceu o tal sapateiro a gravar um dueto musical de cordas, que seria transmitido pela então Emissora Nacional, estúdios de Coimbra. Dias depois e de combinação com o vizinho, o Tópi sintonizou o seu rádio na onda de frequência do posto emissor já citado, chamando o sapateiro que escutou enlevado a gravação, convencido que era uma transmissão da Emissora. Mais tarde o visado na brincadeira, quando soube a verdade, reagiu com bastante humor.
Encostada ao Mercado, era a casa de João Bacalhau, com loja de mercearias, taberna e pensão. Tinha um pátio interior onde, do buraco de uma mó de pedra, saía o tronco de frondosa parreira, a formar latada.
Logo acima e a curvar para a rua das oliveiras (Rua António de Oliveira), o prédio de Eduardo Branco, “Sansôa”, com oficina de ferrador. Antigamente, cavalos, jumentos e bois, eram animais muito utilizados, quer em transportes, quer nos trabalhos agrícolas. Como “calçavam” ferro, havia necessidade de oficinas onde as ferraduras eram fabricadas e aplicadas. Em Condeixa existiam várias, uma delas até no arruinado palácio dos Alvercas, como ficou demonstrado quando agora fizeram as escavações para a remodelação da Praça, sendo encontrado um monte de ferraduras enferrujadas. A oficina da Avenida diferia das outras por ter instalações mais novas, mas não na forma de tratar o ferro, que essa era ancestral. Há muitos anos desactivada, conserva no entanto ainda, inserido na parede sobre o portão, o símbolo da arte: o martelo e a torquês cruzados, dentro do semi-circulo da ferradura. Quando os operários acabavam de bater o ferro incandescente na bigorna, cortavam as pontas e lançavam-nas para a rua. Os garotos, passantes a caminho da Escola, viam nesses objectos excelentes projécteis para as fisgas e corriam a apanhá-los, retirando de imediato as mãos queimadas, perante o riso parvo dos homens que faziam aquilo de propósito.
A rua que atravessa a Avenida era o antigo caminho que ligava a Quinta de S. Tomé ao Outeiro. Recorro uma vez mais às memórias de Ramiro de Oliveira:”…a sua acção (do tenente Pires Beato, Presidente da Câmara) teve início com a aquisição da chamada Terra da Galega, 100 metros a nascente da Escola Conde de Ferreira. Terreno saibrento, pobre para culturas, oferecia óptimas condições para urbanizar e foi para ali que convergiram as primeiras atenções do Município. Abriram-se esgotos, construíram-se passeios e surgiu a primeira nova rua numa extensão de 100 metros. Retirado o terreno para a Escola a construir poucos anos depois, os terrenos laterais foram vendidos em talhões, com a condição de serem edificados no prazo máximo de 3 anos, sob pena de os terrenos voltarem à posse da Câmara, mas…ainda hoje continua a ser uma rua de muros!”.
Ocupando quase toda a rua António de Oliveira e virando para a Avenida, há ainda um longo muro, embora atenuado pela existência de duas bonitas vivendas geminadas.
Antes da abertura da Avenida e ainda durante muito tempo depois, o Hospício e a Serrada estavam já fora de portas. Maus acessos e grande intervalo sem edificações faziam com que os moradores do centro raramente se deslocassem a esses locais.
Quando os terrenos foram postos à venda, o Sr. Ramiro de Oliveira comprou um lote. Contente, foi para casa dar a boa nova à esposa. Porém ela, habituada ao bulício de Condeixinha, onde moravam, achou que ir para tão longe significava o desterro e por isso respondeu:”Tu és maluco, fazer uma casa em Condeixa-a-Velha não cabe na cabeça de ninguém!”. Não estava muito longe da verdade, pois essa freguesia começava um pouco mais à frente. Mas a casa foi construída e lá viveram muitos anos. Na mesma época, mesmo ao lado mandou Januário de Carvalho edificar a sua vivenda. Sendo funcionário da C.P.,tendo de partir para longe, não podia continuar a morar em Condeixa e alugou a casa a Joaquim Caniceiro da Costa.
Todas as terras têm as suas figuras especiais, motivadoras de episódios que se vão recordando ao longo dos anos, alguns deturpados, mas outros mantidos tal e qual se passaram. São muitas as referências a determinadas personagens que marcaram o quotidiano da vila. E Joaquim Caniceiro foi muita vez protagonista. Tinha uma oficina de mecânica automóvel na Serrada. Certa vez foi lá um operário da Mobilândia, fábrica de móveis que existiu na Rua Nova, para mandar soldar uma peça de máquina chamada “sargento”. Quando dias depois a foi buscar, perguntou: “senhor Caniceiro, o sargento já está soldado?”, ao que ele, aproveitando o trocadilho que a pergunta sugeria, respondeu:”oh! meu amigo, para uma despromoção dessas, só com ordem do Ministério da Guerra!”. Noutra ocasião, a esposa, atormentada com algum grave problema, prometeu ir a pé à Senhora do Círculo. Nesse tempo os acessos à serra eram extremamente difíceis e uma subida constituía razoável penitência. Para cumprir a promessa conseguiu, após muita insistência, o acompanhamento do marido. Quando chegaram ao alto, comentou ele: “Havia duas coisas que sempre prometi a mim mesmo nunca fazer: ir a pé à Senhora do Círculo e ir à merda. Aqui, já vim!”
Algumas das estórias que conto neste exercício, escrevi-as em livro que teve edição limitada. Por isso as registo de novo, pedindo desculpa pela repetição, a quem já as leu.
Está a terminar “mais uma voltinha, mais uma viagem”, como gritavam os altifalantes dos carrosséis, nas festas e romarias. Antes porém, ainda referência a um assunto que não pode dissociar-se do tema que tenho estado a tratar: a abertura da última via perpendicular à rua Dr. Simão da Cunha. Se a Avenida tivesse seguido o traçado pretendido pela edilidade, teria terminado na Serrada. Daí, partiria um outro arruamento de ligação ao Outeiro (ou, mais propriamente, à zona do Hospício). Três militares participantes na Grande Guerra edificaram lá as suas moradias: no lado do Hospício, o Tenente José Pires Beato, ao cimo da Avenida, o Tenente Campos (neste caso, não foi ele que a mandou construir, mas adquiriu-a quase após ser edificada) e no topo, à Serrada, o Capitão Alves. O Presidente da Câmara, Tenente Pires Beato, decidiu atribuir ao percurso o nome de Rua dos Combatentes da Grande Guerra, homenageando todos os militares envolvidos no conflito internacional. Por razões já conhecidas através das memórias de Ramiro de Oliveira, apenas se construiu parte desse troço da via. Só em 1976, quando vários lotes de terreno entre a Escola e a Serrada foram vendidos e começaram as construções, a rua teve finalmente concluída a ligação.
O prédio da Escola Feminina foi recentemente recuperado e manteve sobre a entrada, em azulejos, o título que lhe foi atribuído pelo estado novo, uma forma de segregação em nome de um decoro provinciano e retrógrado. Os olhares sempre vigilantes das professoras impediam a aproximação de rapazes àquele universo feminino. Apenas durante os exames da 3ª e da 4ª classe se permitia a coabitação de meninas com meninos. Os alunos do Professor António Pita, ainda tinham direito (qual direito! Obrigação e bem difícil de suportar) de, algum tempo antes das provas finais, ter aulas de avaliação aos domingos de manhã, na sala onde deveriam decorrer os exames, creio que como forma de ambientação a um local importante para a vida dos garotos. Era uma ideia pedagógica inovadora do Professor Pita, que não canso de enaltecer.
Fechada por fim a Avenida do meu tempo (agora tem continuação, com outro nome, creio que D. Ana Laboreiro d ‘Eça, pelo menos é a direcção indicada pelo Centro de Saúde).
Nota: As fotografias antigas da Avenida, inseridas nos textos, foram gentilmente cedidas por José Andrade.
Condeixa, 08 de Fevereiro de 2011
Cândido Pereira

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

LUGARES DE CONDEIXA-A AVENIDA

LUGARES DE CONDEIXA- A AVENIDA
(1ªparte)
A vila de Condeixa passou, nestes últimos vinte anos, por profundo processo de alteração, quer no centro, com a reabilitação de locais degradados (Palácio dos Figueiredos, transformação do Quintalão em Praça do Município, etc.), quer na periferia, com a construção de novos bairros.
A última e mais significativa modificação, diz respeito à Praça da República. Do vasto espaço enquadrado por frondosas tílias, nada vai restar além das árvores e, miraculosamente, o Rio do Cais. A Praça passa a ter um aspecto modernista que, na minha opinião, não está condizente com as características do local. Há quem seja de opinião que vai ficar mais bonita. É possível. De resto, a Praça e todo o espaço envolvente, têm sofrido tantos atentados arquitectónicos, que já nem vale a pena insistir nas críticas.
Mas a grande alteração com efeitos de primordial importância para o desenvolvimento da vila, ocorreu no final da década de 1920. A Praça, já baptizada da República logo após a implantação desta, era um acanhado largo em frente do palácio viscondes de Alverca, um bonito prédio colado à Igreja e estendendo-se até cerca das actuais instalações do banco Millenium. O edifício, como é sobejamente sabido, foi incendiado pelos franceses há, completam-se em breve, 200 anos (13 de Março de 2011). A propósito, espero que as entidades oficiais façam a justiça de assinalar esta data fatídica, quanto mais não seja colocando nas janelas dos prédios que sobreviveram à fúria de Massena e Ney, uma vela acesa em memória, não só do património destruído, mas dos muitos condeixenses cobardemente assassinados.
A Câmara Municipal, liderada pelo Tenente José Pires Beato (não resisto a fazer a ligação de dois responsáveis por modificações estruturais do local: um Beato e um Bento. Isto é que é religiosidade!), adquiriu o velho palácio, nunca totalmente recomposto do sinistro, embora parcialmente habitado, demolindo-o. As memórias do Sr. Ramiro de Oliveira dizem: “…e a casa Alverca cedia gratuitamente os terrenos para abrir uma avenida e o Mercado Municipal, mas condicionava essa oferta: a abertura tinha de ser rigorosamente feita ao centro do terreno para que a doadora pudesse lotear e vender os terrenos laterais para construções. Assim, a orientação dessa nova artéria com cerca de 250 metros ficou desde logo traçada. Mas o desejo da Câmara era ligá-la à primeira rua aberta (a Rua dos Combatentes da Grande Guerra) e, nesse sentido, já entrara em contacto com o Visconde da Quinta de S. Tomé, proprietário dos terrenos confinantes. Era desejo geral então que a Avenida seguisse em linha recta, o que se tornava impossível devido à Levada da Serrada que alimentava um moinho e o lagar de azeite (à data, o melhor do concelho). A cedência do terreno necessário para o prosseguimento da Avenida seria igualmente gratuita, mas…só passando em frente ao lagar! Não havia outra opção e a Câmara teve de aceitar. Eram mais 120 metros de extensão de terreno que recebia gratuitamente, embora o proprietário beneficiasse da valorização do restante, mas assim a Avenida encontrava o seu ponto de saída, embora maculada por um cotovelo que não foi possível evitar-se”).
A propósito de cotovelo, numa das revistas musicais de Condeixa (Secas e Picadas), havia um quadro dedicado à Avenida e cantado pela Maria Branquinho (num folheto de publicidade do espectáculo, em 24 de Maio de 1936, figura com o nome de Maria Florêncio e cantava também Condeixinha e Hospital. Era mãe de Manuel Branquinho Flório dos Santos, Provedor da Santa Casa da Misericórdia). Cantava assim:
Eu sou a linda Avenida
Futuro bairro elegante
Há quem diga mesmo até
Que sou um pouco pedante
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Já sou torta de nascença
Tarde ou nunca me endireito
É a tristeza maior
Que trago dentro do peito! (e por aí fora)
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Assim nasceu a Avenida, registada de Alverca.
Abriam-se novas portas para a expansão da então pequena vila, onde as ruas eram caminhos de terra batida. Começaram de imediato as construções de prédios, tanto na Avenida, como na rua da Água, baptizada com o nome de rua Manuel Ramalho, até ali uma vereda, mais propriamente um caminho de campo.
A franquear a Avenida, dois prédios diferentes, mas ambos de traça característica. Um, ainda existe tal como foi construído e nem a transformação do estabelecimento do rés-do-chão lhe alterou o aspecto original. Infelizmente o outro foi completamente modificado. As sólidas paredes serviram de base a um inestético edifício, sucursal de estabelecimento bancário. Foi pena que tal tenha acontecido! Na altura, um responsável autárquico argumentou, não sei se com verdade, que o referido banco impôs, para abertura da sua sucursal, que ela fosse construída da forma como queriam. Como se tratava de um projecto (supostamente) de interesse para a vila, foi autorizado. Já com a construção da Pousada de Santa Cristina tinha sucedido algo parecido. Embora existisse um estudo elaborado por entidade específica (a empresa Consulplano) contratada pela Câmara, que recomendava o Paço dos Almadas e espaço circundante zona histórica a preservar, nem sequer as paredes foram aproveitadas, sendo o palácio totalmente demolido.
Regressando à Avenida, outro prédio digno de registo, foi também construído com a abertura da via, o Cine-Avenida, inaugurado em 1932.
Não vou falar deste cinema e da sua importância cultural para Condeixa, porque num outro local do meu blogue ele teve direito a rubrica própria.
A década de 1930 tinha começado com a abertura da Avenida e, quase de imediato começaram a surgir prédios que a valorizaram. Desses, restam ainda a antiga Farmácia Alves (ou, como era antes de mudar de local, Farmácia Ferreira), os dois prédios em frente, onde actualmente há um restaurante e ao lado uma papelaria. Mais acima os celeiros da Casa Alverca, dois prédios semelhantes separados por um pátio e um portão sobre o qual está a pedra heráldica dos proprietários. Depois e do outro lado, um degradado edifício com loja de utilidades, seguido pelo prédio onde esteve instalada a Caixa de Crédito Agrícola, já a virar para a rua Dr. João Antunes.
A Avenida Visconde de Alverca, se calhar pela nobreza do nome, foi talhada para ser moradia de gente rica ou, pelo menos, de finanças folgadas. Assim, os dois prédios que lhe dão início pertenciam a abastados comerciantes. A Farmácia, que inicialmente estava instalada no Outeiro, era também a residência da família do Dr. José Esteves Alves, activo membro de todas as manifestações culturais, tendo dirigido em 1939 o Grupo Cénico Dr. João Antunes, na opereta em 3 actos “O Solar dos Barrigas”. Os médicos, Drs. Alfredo Pires de Miranda e Fernando Namora, tiveram os seus consultórios numa interessante casa que já não existe. E não existe também a linda vivenda da D. Irene, rigorosa professora primária que deixou muito más recordações nas alunas, por causa da forma severa como ministrava as suas aulas.
O grande edifício castanho onde está instalada a Segurança Social, foi construído já em finais da década de 1940. Assim como o prédio em frente à travessa de acesso à Praça do Município e que foi mandado fazer pelo comerciante de peixe, João de Matos, para sua habitação. Mais tarde, no início dos anos cinquenta, o Dr. Luís Cardoso do Vale instalou aí o Externato Infante D. Pedro, estabelecimento escolar que veio de certa forma substituir o colégio particular do professor António Mateus, mas com vantagem, pois habilitava os alunos até aos exames do 2ºCíclo dos Liceus (5º ano). A instalação deste Externato revelou-se de grande importância para a vila. Muitos jovens não teriam tido a hipótese de estudar, se fossem obrigados a ir para Coimbra. Inicialmente, o corpo docente era composto pelo próprio Director, por sua esposa, Dr.ª Teresa Vale e mais alguns professores vindos de fora da terra.
Logo adiante, curvando para a rua Dr.João Antunes, o Mercado Municipal, inaugurado em 1935, como se lia no painel de azulejos sobre o portal. Ocupando todo o espaço agora pertencente ao quartel dos Bombeiros, este mercado esteve sempre vocacionado para a venda de peixe mas, no espaço onde actualmente está instalado o Cine- Teatro, alinhavam-se vários portões em direcção ao rio, cada um correspondendo a estabelecimento de venda de carnes, frescas e salgadas.
As moradias, exclusivas até ao final do primeiro troço da Avenida, passaram a ter outras funções, como no caso da já mencionada casa onde esteve há bem pouco tempo a Caixa Agrícola, naquele tempo garagem onde João de Matos recolhia as suas camionetas de transporte de pescado. Do outro lado, há um bonito prédio, que pertencia a Elvira de Matos, com o rés-do-chão ocupado pelo estabelecimento de António Magalhães Castela.
Antigamente brincava-se “a sério” no Carnaval em Condeixa. Cortejos parodiando temas do momento, caça ao chapéu dos incautos que cruzavam a Praça na terça-feira, bailes, e o “deitar do badalo”. Esta última prática, massacrante para quem tinha a desdita de sofrer o cadenciado e enervante batimento da pedra na porta, só resultava em gáudio para os brincalhões, se o visado “afinava”.
A vila (não só, porque em outros lugares do concelho também se deitava o badalo) tinha casas pré-referenciadas onde moravam pessoas avessas à brincadeira. E ninguém detestava mais o badalo que António Magalhães Castela!
Morava ele na já referida casa de sua sogra, Elvira de Matos. Ao lado, quase paredes meias, vivia José Alcobaça que tinha à frente o gradeamento do Mercado. A Avenida, à noite, escura e sem movimento quer de pessoas, quer de veículos, permitia que José Alcobaça passasse uma corda pelos tubos do gradeamento e fosse prender o badalo na porta do vizinho. Depois, da sua janela ia puxando paulatinamente o cordel. António Castela acordava furioso com o barulho e vinha à janela. O brincalhão vizinho dizia-lhe que os marotos perturbadores do sono alheio estavam escondidos na rua Dr. João Antunes. Era quanto bastava para ele ir buscar a espingarda e disparar furiosamente na direcção indicada.
O prédio onde morava José Alcobaça era um perfeito “viveiro” de gente característica. No rés-do-chão habitava Manuel Alcobaça (Baixinho), proprietário e condutor de um carro de aluguer (Chevrolet) que estacionava na Praça, onde agora se encontra o chafariz. Homem extremamente económico, dava-se ao trabalho de empurrar o carro, mesmo com passageiros dentro, até à descida após a Igreja e só punha o motor a funcionar quando chegava à Faia. Naquele tempo, os jovens que estudavam em Coimbra, para meterem ao bolso o dinheiro da camioneta da carreira (não autocarro, como agora se diz), punham-se à boleia junto à ponte. Quando calhava viajarem no carro do Baixinho, era certo que quando cá chegassem lhes exigia o dinheiro equivalente ao bilhete da camioneta. Ao lado, vivia no 1º andar António Barreto Pessa. De fino espírito de observação e apurado sentido crítico, era uma das mais carismáticas figuras de Condeixa e são inúmeros os ditos chistosos que lhe são atribuídos, como aquele bem conhecido de, ao atravessar a Praça ter encontrado um amigo que já não via há anos. Naturalmente, depois de algumas palavras de circunstância, disse o amigo:”Mas afinal, tu nunca envelheces, estás cada vez mais novo!” Despediram-se e António Pessa encontrou pouco depois outro amigo que também não via há muito. E este disse, muito compungido:”Olha o meu amigo Pessa! Homem, tu estás velho!” Resposta pronta e oportuna: “Pois só se foi de atravessar a Praça!” Numa outra ocasião, tendo comprado um automóvel, convidou os amigos para a estreia e foram até à Anobra petiscar e beber uns copos. No regresso, já um pouco toldado, executou uma manobra que lançou o carro num pequeno ribeiro. A água começou a entrar na viatura e os ocupantes saíram como puderam. Longe do perigo, notaram que o condutor não estava junto deles. Voltaram ao local do acidente e viram-no em cima do carro. Tentaram retirá-lo, mas ele, solene, afirmou:”O Comandante é sempre o último a abandonar o navio!” Este carro, um pequeno Wolselley, passou a ser conhecido como “Batiscafo” ou “Sertela”. (fim da 1ªparte)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

LUGARES DE CONDEIXA- A RUA NOVA


Na continuação de registar a memória de lugares desta terra onde nasci, chegou a altura de dar uma volta por outro sítio peculiar.
Regra geral, é comum considerar-se como bairro o conjunto de locais, interligados por sítios com determinadas características. Foi assim que fiz nas minhas crónicas anteriores, quando tentei retratar Condeixinha, atribuindo-lhe particularmente o título de “Estrada de Pedra”. Já ao Outeiro dei o nome próprio, sem registar o título algo depreciativo como outros condeixenses o designavam:”Espanha”. Desta vez, como o espaço físico da rua é reduzido, porém rico em conteúdo, acrescento-lhe dois outros locais, para complementar o relato.
O tema vai ser “rua Nova” e as ruas que lhe estão adstritas, serão a Palmeira e rua de S. Jorge (actual rua Dr.João Ribeiro).
Embora o nome oficial seja rua Venceslau Martins de Carvalho, sempre lhe chamaram, e chamam, rua Nova. Segundo refere Santos Conceição “…Condeixa-a-Nova, nesse recuado século XIII, seria um pequeno lugar de área não superior a 800 metros quadrados, a crescer entre a actual Igreja e a rua Nova…” e prossegue “…foi o lugar acrescido por doação de terras pertencentes ao morgadio de Morais Botelho…” O mesmo historiador cita ainda o Padre António Carvalho da Costa: “Foi este lugar de Condeixa-a-Nova, ou a maior parte dele, doado à povoação, no ano de 1500, pelos irmãos Srs. Estêvao de Morais Botelho…e Afonso de Morais Botelho…” para acrescentar em seguida: “não diz, a Corografia, qual a extensão do lugar; ela devia ser, porém – segundo se infere dos bens do morgadio- aquela que viria a ser ocupada pelo palácio dos Sás, com as terras próximas.”
Daqui se depreende que a rua Nova tem pergaminhos de antiguidade.
Na junção de três ruas, respectivamente e pelos nomes que actualmente apresentam: rua 25 de Abril; rua Fortunato de Carvalho Bandeira e rua de Lopo Vaz há um espaço antigamente designado praça Dr. António Granjo, ou praça Velha. Isto é curioso, porque exactamente duma praça velha, começa a rua Nova. E nada melhor para a assinalar, que um “passo” do percurso da muito antiga Procissão do Senhor dos Passos de Condeixa. Tão antiga, que neste passo, a encimar o lindo painel de azulejos, se encontra a data: ano de 1782! Mas a Procissão é, seguramente, mais antiga!
A própria praça Velha tem história. De dimensão superior à actual, ali se realizava o mercado da vila. Na 2ª Edição da Monografia de Condeixa, assinada por José Maria Gaspar, é referido: “…no século XIX, na época das lutas entre liberais e miguelistas, praticou-se nela o corte de cabelo duma senhora ascendente da família Pires de Miranda, por se recusar a denunciar o paradeiro de seu irmão”. Eu acrescento: A senhora em questão pertencia a uma família tradicionalmente democrata liberal, e os executores do castigo foram os “caceteiros” da facção absolutista miguelista.
A estreita rua Nova, não chega a medir uma dezena de metros de largura. Esse facto é motivador de maior proximidade entre moradores. Tal como em Condeixinha, as pessoas podem falar com o vizinho da frente, sem necessidade de elevar a voz. Mas, ao contrário de Condeixinha, um bairro marcadamente operário, a rua Nova não tinha oficinas e os moradores intercalavam-se entre gente rica e gente pobre. Tão pobre que se contava um episódio passado com um dos moradores. Faço referência a isso, para demonstrar os tempos difíceis que então se viviam: um dia, uma das filarmónicas foi tocar numa qualquer festa dos arredores. Em dia de arraial, há sempre rancho melhorado. Quando os músicos se sentaram a uma mesa farta, repararam que um dos seus elementos, após o farto repasto, chorava. Intrigados, perguntaram-lhe o porquê. E a resposta não se fez esperar: “tanta fartura, e eu não tenho capacidade para comer mais!” Comentários, para quê!
As casas sucedem-se em linha contínua, até ao cruzamento com a travessa da Água e rua de S. Jorge. Aí, um pavilhão já integrado na Quinta do Palácio, tem a culminar o pequeno telhado, um dos dois cata-ventos que ainda restam nesta terra, onde vários existiam (há outros dois exemplares que têm apenas função decorativa). O que refiro representa um homem guiando um porco. Matematicamente fiel às condições atmosféricas, quando o homem vem da feira dos quatro (mercado de gado que se realizava na Barreira), é sinal de bom tempo. Em oposto, se ele vem de Condeixa-a-Velha, a invernia instala-se. Mistérios do vento norte e do vento sul!
A casa onde se encontra o passo atrás referido era a habitação e estabelecimento comercial de Rui da Costa. Habilidoso pintor da construção civil antes de ser funcionário de uma companhia de electricidade, tocava viola e era figura habitual nos conjuntos musicais criados para abrilhantar qualquer festejo, tendo sido também membro do conjunto musical do Rancho Folclórico da Casa do Povo, desde o início. Além disso possuía dotes teatrais e, por isso, participou em diversas peças e revistas.
Depois, morava a Senhora Marie Guitton. Francesa de nascimento, mas a viver longos anos em Condeixa, esta senhora foi figura característica da vila. Nesse tempo, as “meninas de família” eram educadas de forma a tornarem-se boas esposas. Entre as prendas exigidas, constava a aprendizagem da língua francesa. Lá estava então a Senhora Guitton para ministrar as aulas. Também na Igreja ensinava o catecismo, condição primária para as crianças que faziam a Comunhão Solene. E não era nada meiga nos métodos docentes! Mas também, os garotos da altura não eram boas biscas! O Fernando António que confesse a maldade feita um dia à senhora (aqui para nós, retirou o banco em que ela se ia sentar!
Com a senhora Guitton, morava a “menina Otília” desde pequenina. Bem, pequenina ela continua, embora os anos tenham passado. Quando em 1947 foi construído um Parque Infantil na Praça da República, a “menina Otília” foi lá colocada como encarregada, tomando conta das crianças e de uma estante com livros da Colecção Tonecas. Li-os todos! A Otília, para mim sem “menina”, há tantos anos a conheço e tão querida me é, continua a ser participativa. Aí está ela agora, membro integrante do agrupamento “Cantares de Condeixa”.
Logo acima, e no lado oposto, existe ainda um velho prédio cheio de história porque esteve lá instalado o primeiro teatro a sério, da vila. O edifício pertencia (pertence) à família Bandeira e foi adaptado a casa de espectáculos. Noutro ponto do meu blogue, refiro a actividade teatral em Condeixa, descrevendo esse local onde inclusivamente ocorreu a estreia do Orfeão criado pelo Dr. João Antunes. Ao findar a primeira metade do século vinte, o sítio foi utilizado também para instalar uma fábrica de mobília, a Mobilândia. A rua Nova chegou a ser chamada rua dos Teatros, porque um outro prédio abrigou também um Grupo Teatral. Não encontrei nos escritos antigos, referência à sua localização mas, presumo, tenha sido onde hoje estão as instalações da Santa Casa da Misericórdia.
Logo a seguir, morava Manuel Couceiro (Cigarra) e a sua numerosa prole. Embora a rua Nova tivesse vários moradores que se distinguiam dos demais habitantes da vila (em todas as terras, em todos os lugares isso acontece), parece-me correcto afirmar que esta família emprestava à vivência quotidiana da rua um carisma especial.
Das características de Condeixa, era significativo o número de pessoas que tocava algum instrumento musical, o que justificava a existência simultânea de duas bandas de música. Há quem afirme dever-se isso ao facto de ser Condeixa um ponto de passagem (e paragem) de colunas militares, sempre acompanhadas pelas respectivas charangas. É possível! Para quem recorde fotografias da Música Velha ou da Música Nova, facilmente comprova que estão recheadas de genuínos condeixenses, de todos os lugares mas, particularmente, pode reparar na foto da Música Nova, onde figuram cinco membros da mesma família: O patriarca Manuel Couceiro (Cigarra) e os filhos, João, Francisco, António e José. Conta-se até uma história curiosa. O João e o Francisco moravam na Rebolia. A paixão musical era tão grande que, numa altura em que um deles teve um problema que o impedia de andar, era o irmão quem o ia buscar às cavalitas, para o trazer aos ensaios da banda!
Além de bons executantes de instrumentos musicais, toda a família Cigarra cantava bem. O Alberto então, era -ainda é, felizmente, creio – voz afinadíssima para cantar o fado de Coimbra (ou balada ou trova, como lhe queiram chamar). Ele e o Ganga (António Pessoa), outra bela voz, percorriam as ruas de Condeixa, acompanhados pelas guitarras e violas de António Pimentel, Álvaro Moura e Silva, o irmão deste, Manuel e o António (Tó) Rocha, a fazer serenatas às bonitas jovens desse tempo.
Com músicos, detentores de lindas vozes e amigos de festas, a rua Nova durante as fogueiras populares, era um perfeito arraial.
Morei na travessa da rua da Água, na casa que tinha ao canto do muro do quintal uma bica, embora a água não fosse de nascente, mas de uma rigueira vinda do lado do Matadouro, e ainda assisti às “fogueiras”. À esquina do pavilhão do Palácio (o tal onde está o cata-vento) os cachopos da rua montavam um altar dedicado a Santo António e à noite era o bailarico, sempre animado musicalmente pelos trompetes, clarinetes e saxofones dos moradores. Mas convém não esquecer, a presença da inconfundível “Ti Caçaneta”, mulher do “Ti Mitério” (Hemitério Pato) e mãe de vários Patos de Condeixa. Pequenina mas enérgica, aos oitenta e muitos, ainda a vi a desafiar outras mais novas para a bailação.
Já entrando pela rua de S. Jorge, ao ângulo recto da rua chamava-se “o motor”. Quando a família Sotto Mayor adquiriu aos Lemos Ramalho o palácio, não havia ainda energia eléctrica em Condeixa. Foi então instalada em edifício próprio, uma central de produção eléctrica. Como o motor necessitava de arrefecimento, do lado de fora havia sempre água a correr. E isto era muito importante para os vizinhos do local, especialmente no verão, porque se tratava de abastecimento de água permanente para a lavagem de roupa.
Há quem considere que a Palmeira é o prolongamento da rua Nova, outros, que é toda a rua Manuel Ramalho, antiga rua da Água, até à junção com a rua anterior e a rua Dr. João Antunes ou, como se dizia no meu tempo, a Avenida Nova. Para mim, Palmeira é tudo isso. Diziam que existia uma árvore dessa espécie no largo em frente ao portão da Quinta do Palácio e do Matadouro Municipal (que agora é uma tipografia mas já foi também quartel dos bombeiros), e por isso a designação genérica.
Do Matadouro, recordo quando nós, garotos, lá íamos pedir o bucho dos animais abatidos para fazer bolas de futebol (bolas de futebol, é uma expressão demasiado optimista), com as quais jogávamos aguerridos desafios na Praça.
Por detrás, era o quintal e a casa-moínho onde morava a família Canudo. É claro que Canudo, Cigarra e muitos mais nomes, não eram apelidos e sim alcunhas. Mas colavam-se de tal forma às pessoas que até os próprios detentores as aceitavam. Quando menciono qualquer uma dessas alcunhas, não tenho a mínima intenção de ofender quem quer que seja. Simplesmente e porque o que escrevo é fundamentalmente dirigido a condeixenses, acho que esta é a melhor forma de situar os relatos.
Já caminhando em direcção ao rio, há uma casa devoluta e em avançado estado de degradação onde, diziam, havia fantasmas. Nem só os castelos escoceses têm direito a essas figuras, imaginárias ou nem tanto. O prédio em questão, verdade (?) ou imaginação, não conseguia manter muito tempo os inquilinos. A findar o mesmo bloco habitacional, outro dos inúmeros moinhos de Condeixa, este explorado por António Canudo, um dos familiares do moinho anteriormente mencionado. Cometeram com este prédio um atentado à arquitectura regional, ao revesti-lo com marmorite. Ainda bem que não lhe retiraram o arco de volta abatida onde estavam os rodízios do moinho. E depois, o rio, pejado de lavadouros onde à semelhança do que acontecia em outros lugares da vila, as lavadeiras de Condeixa ensaboavam, esfregavam e batiam a roupa. “…Dois corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol…”, cantava a Mirita Casimiro no filme “Aldeia da roupa branca”. O “secadoiro”, ou “coradoiro”, era em frente, no empedrado junto às casas de António Preces e da Ti Maria Vasca.
Em 1936, o Grupo Cénico Dr. João Antunes apresentou a Revista-Fantasia de Condeixa “Secas e Picadas”, onde entravam 102 personagens. Tinha cenários pintados expressamente por Joaquim Melâneo e 30 números de música, original e adaptada por António de Oliveira. Um destes números chamava-se “Lavadeiras”. Eis um extracto dos versos:

Herdei da minha avó
A vida de lavadeira
Ela morreu, fiquei só
Penso da mesma maneira.

Qualquer vida tem percalços
E a minha é muito ingrata
Mas aos fregueses mais falsos
Prendo eu pela arreata.

Há freguesas delambidas
Que se dizem asseadas
De quem lavo às escondidas
Muitas calcinhas borradas.

Lavo a roupa a um freguês
De maneiras delicadas
Mas num bolso encontrei três
Camisas emporcalhadas”.

Depois, cantava o coro:

“ Metidas no rio
Ao sol e ao frio
Qualquer lavadeira
Vai lavando mágoas
Que vão com as águas
Vindas da ribeira”
Em 1980, tive o honroso convite do Sr. Ramiro de Oliveira para ensaiar no Grupo de Teatro da Casa do Povo, uma revista escrita por ele e que se intitulava “ Condeixa Sem Máscara”, onde figurava o Quadro das Lavadeiras, retirado da anteriormente mencionada revista.
Hoje, dia em que estou a escrever estas memórias, passei pela Palmeira e vi lá uma solitária lavadeira. Estaria a reviver tempos antigos ou, em tempo de crise, a poupar na energia da máquina de lavar?
Com esta descrição, termino a minha passagem em memória pelo Bairro da Rua Nova.
Tal como aconteceu em “Outeiro” e um pouco mais em pormenor na “Estrada de Pedra”, ou em “ A Rua Principal”, tentei retratar alguns aspectos interessantes da Condeixa do meu tempo, procurando não ser maçador nem inconveniente descrevendo demasiadas situações ou contando episódios que podem não ser do agrado dos familiares. Estes exercícios de memória procuram apenas registar uma determinada época. E, quem sabe, talvez despertar em quem eventualmente leia o que escrevo, recordações agradáveis desse tempo.
Condeixa, 14 de Janeiro de 2011
Cândido Pereira