quarta-feira, 2 de março de 2011

HOMENAGEM A UM VULTO MAIOR NA CULTURA DE CONDEIXA

-Breves considerações -

Quando ainda me interessava por coisas de teatro, fui ensaiado, aprendi com Mestres a arte de palco, representei, “tive palmas e fracassos”. Quando chegou a minha vez, também ensaiei e encenei peças, fiz aquilo que é exigido a quem gosta do que faz, sempre sob o prisma amador, mas nunca esquecendo o respeito devido ao público. Porque gostava muito do que fazia, aventurei-me ainda a escrever teatro. Alguns trabalhos tiveram o seu momento de apresentação. Outros ficaram na gaveta e, muito dificilmente, algum dia terão oportunidade de encarar o público. Dentre estes conta-se a peça que agora transcrevo. Escrita propositadamente para ser representada por um grupo a formar dentro do Orfeão Dr.João Antunes, embora contasse com a aprovação da Direcção, nunca chegou a efectivar-se. Já lá vão alguns anos e a minha capacidade e entusiasmo esfriaram. Não será portanto através de mim que a peça verá algum dia as tábuas do palco. É pena! Creio que a mensagem nela contida é suficientemente importante! Para a feitura do texto, socorri-me das seguintes obras: “Padre Boi não é lenda”, de M. Rodrigues dos Santos; “Subsídios para a História de Condeixa”, de Fernando de Sá Viana Rebelo e Isaac Pinto e “Monografia Condeixa-a-Nova”, de Capitão A. Santos Conceição.



                               -DR. JOÃO ANTUNES-O HOMEM, A OBRA E A LENDA-

(de um lado da boca de cena será montada uma tela onde, por processo computorizado irão sendo projectadas cenas representativas da vida do Dr. João Antunes. Na 1ª cena, Luís Antunes, com avental de talhante, sai de ao pé de um assador e dirige-se ao grupo de jovens seminaristas onde a figura de seu filho, padre João, se destaca)



LUÍS ANTUNES- Com o respeito que tenho por quem é amigo do meu filho, permitam-me convidá-los para dar cabo de um bezerro que sacrifiquei e assei, em honra do nosso padre João!

SEMINARISTA 1- Um bezerro? E acha que chega para todos, Sr. Luís? Olhe que só para o João, é necessário um boi!

SEMINARISTA 2- Isso é verdade! Para um padre deste tamanho, só um boi inteiro!

SEMINARISTA 3- Essa soa bem! Para o padre, um boi! Padre Boi é nome que lhe assenta como uma luva!

LUÍS ANTUNES- Oh! Rapazes! Não ponham alcunhas, porque se elas pegam, são para toda a vida!

JOÃO ANTUNES- Deixe lá, meu pai. Nanja por isso! Não me vão faltar ao respeito, que não deixo! (mostra ameaçador os robustos braços. Riem todos.)

(a luz vai diminuindo até se apagar totalmente. Os participantes desta cena, abandonam o palco. Sobe a luz. O Narrador vem à ribalta.)



NARRADOR 1- E a alcunha pegou mesmo…para toda a vida. Aquilo que era apenas uma brincadeira de amigos, reforçou-se pela figura avantajada de João Antunes e o seu apetite desmesurado. Já era o Padre Boi quando em 1887 se matriculou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, tendo terminado o curso em 1892. Nos muitos ilustres companheiros de estudos, contava-se o poeta Sanches da Gama e Manuel Luís Coelho da Silva, o futuro Bispo que mais tarde lhe iria fazer a vida negra.

Os tempos de borga estavam a terminar. Hilário, seu contemporâneo, ainda cantava pelas vielas da Lusa Atenas (em fundo, o fado Hilário), quando o novel advogado foi colocado em Condeixa como Conservador do Registo Predial.

Embora lamentando o afastamento da sua cidade, ao tempo a uma desconfortável distância de duas horas em diligência, rapidamente o seu feitio extrovertido e afável se adaptou à nova vida. O primeiro encontro em Condeixa foi com o pároco, a quem se apresentou oferecendo os serviços como coadjutor. Vendo nele um homem de palavra fácil, o pároco aproveitou essa faceta pondo-o a proferir sermões nas festividades religiosas locais.

Na romaria da Senhora do Círculo, os pastores apresentavam os rebanhos, tal como os seus ancestrais bíblicos faziam, para a benzedura os livrar de moléstias (imagem de gado a pastar). O padre Antunes formulou um sermão invocando as penas do inferno e os pecados que lá conduzem, dizendo:

(voz de padre Antunes) –“E não vos julgueis, caríssimos cristãos, libertos desses pecados que são mais que as caganitas das ovelhinhas aqui à volta!”

Esta liberdade de expressão não era muito vulgar naquela época. Muitos sorriram, mas no final todos estavam com lágrimas, impressionados pelo tom dramático do sermão.



NARRADOR 2- Condeixa nesse tempo não era propriamente uma aldeia rural do interior. Oitenta anos antes da chegada do Dr.João Antunes à vila, já Salvador Pena e amigos tinham fundado um grupo teatral (imagens de teatro) em cuja estreia foi apresentado um poema épico escrito por Rodrigo da Fonseca Magalhães, destacado condeixense e ministro do reino. Além disso, já existiam duas filarmónicas, tendo inclusivamente uma dele acompanhado até Coimbra a rainha D. Maria II quando a monarca passou pela vila. Sinais suficientes para ele se aperceber das potencialidades do povo que veio encontrar. Amante confesso da música, na sua cabeça começaram a fervilhar ideias de realizar algo. Mas o primeiro trabalho cultural foi na Igreja.

Em 1811, o general Ney, chefe das tropas de Massena, na fuga das Linhas de Torres, ao passar por Condeixa ordenou a destruição e incêndio da vila (efeitos de luz e som, sugerindo fogo e gritos). O templo, mandado construir por D. Manuel I, foi de tal forma vandalizado que pouco restou. Para cúmulo, as obras de restauro realizadas em 1821, certamente por falta de verbas e com certeza por manifesta incapacidade artística dos seus promotores, alteraram bastante a traça original.

Com a ajuda do povo, das pessoas eruditas da terra, do mestre canteiro de Coimbra, João Machado e de António Augusto Gonçalves, mas fundamentalmente a expensas suas, a vetusta igreja foi recuperada, tendo sido inclusivamente descobertas duas capelas que estavam entaipadas. Uma delas mandou ele restaurar e dedicar a S. Teresa, o nome de sua mãe.

Nesta altura já conseguira conquistar a consideração e amizade das gentes da terra. Como bom garfo que era, frequentemente confraternizava em jantaradas com os novos amigos. E foi numa dessas patuscadas, depois de uns copos bem bebidos, que surgiu a ideia de formar um orfeão. Numa entrevista, disse assim o Dr. João Antunes: (quadro onde aparece o padre a ser entrevistado)



DR. ANTUNES- A música foi sempre a minha paixão. Em Coimbra, toquei na Tuna. Depois, desterrado para aqui, fazia de vez em quando serões com os amigos e cada um tocava o que sabia. De uma vez veio-nos a ideia de formar um Orfeon. Lançámo-la. Reunimos quem quis reunir-se-nos, fizemos os primeiros ensaios e chegou-se ao que somos agora. Mas à custa de grandes dificuldades de interpretação. Valem-me os sucessivos ensaios, primeiro em naipes separados e depois em conjunto. Por fim, tudo se consegue. É o que me encanta!
Orfeon de Condeixa-1913



NARRADOR 1- A estreia do Orfeon, historicamente o primeiro de carácter popular do país, ocorreu na Igreja Matriz, em 27 de Fevereiro de 1903. Um êxito! (imagens fotográficas do Orfeon original)

E que bonito foi ver aquelas quase oitenta figuras, trabalhadores rurais, caixeiros, médicos, funcionários, advogados, professores e alunos, patrões e servidores, irmanados na música, cantando harmoniosamente difíceis compositores como Palestrina, Beethoven ou Bach (em fundo, um trecho de música clássica do Orfeão). Mais maravilhoso era o facto de o conjunto ser também formado por crianças! Naquele princípio do século, o decoro não permitia a presença de mulheres no coral. Então, para suprir o naipe de sopranos, recorreu às vozes infantis, como tiples. Os ensaios dos miúdos eram muitas vezes ministrados no seu próprio gabinete da Conservatória. Quando a insistência num determinado trecho não surtia efeito, a paciência esgotava-se (quadro mostrando o padre Antunes com um grupo de crianças) -

DR. ANTUNES- Vá lá…si és dolo…nada disso, outra vez, si é dolo…suas bestas! Estúpidos! Como é possível não entenderem o que digo? Burros! (algumas crianças começam a chorar) - Pronto, deixem lá. A besta sou eu, que não sei lidar convosco! (retira línguas de gato e rebuçados dos bolsos e distribui pela garotada).

Era assim o Padre Boi! Rude num momento, coração derretido no outro!

Padre Boi! Assim mesmo o tratavam as crianças, quando se acercavam dele: “Dê-me a sua bênção, senhor padre Boi.” Não se zangava! Antes pelo contrário, afagava-lhes as cabeças e dizia-lhes, dando guloseimas:”Não vos esqueceis que amanhã há ensaio…)



NARRADOR 2- As mulheres foram a sua perdição! Não tantas quanto a lenda lhe atribui, mas para um padre…! Também exagerado é o número de filhos de que dizem ser autor.

Quando se instalou numa casa junto ao velho palácio dos Sás, no Terreiro, contratou Carmina Xavier, governanta e companheira de lençóis. Foram pais de sete filhos. Mais tarde, por morte dela, outra lhe sucedeu, de quem teve mais rebentos. Mas os pecados da carne não se limitavam a dentro de casa. Por aqui e por acolá, ainda lhe restava tempo para outras aventuras. Entretanto, a sua faceta reinadia também dava mostras. Condeixa tinha fama pelas festas e romarias. O ponto fulcral dos habituais festejos, era na Praça Velha, um largo maior que o actual, ao fundo da Rua Nova (imagem mostrando o sítio). Ali, costumava dançar um rancho ensaiado por Joaquim Carvalheira e no qual brilhava uma linda moça chamada Joaquina do Moinho. A governanta do Dr. Antunes pensou já ser tempo de existir também um rancho que desse animação ao Terreiro. Convenceu o patrão e este acedeu ao pedido. Ela então desafiou a estrela do outro grupo, mas a cachopa não aceitou. A rivalidade estava criada! Troçando das pretensões de Carmina Xavier, na Praça Velha cantavam: (vozes cantando)



As meninas do Terreiro

Quando foram ensaiar

Comeram favas assadas

Que a Carmina lhes foi dar!



Uma alusão directa aos mimos com que a Carmina aliciava as raparigas para as ter no rancho. E este respondia assim: (vozes cantando)



Não comes as favas quentes

Ó menina Joaquina

Que não é para os teus dentes

Coisa boa, papa fina!



Para o dia da exibição, noite de S. João de 1898, previa-se uma cena de pancadaria entre os dois agrupamentos. Felizmente, nada disso aconteceu. Acabaram confraternizando em pleno Terreiro, a cantar as coplas brejeiras atribuídas ao Padre Boi: (vozes cantando)



Meninas dos meus olhos

Cheguem-me ao calor

Quanto mais me chegam

Mais eu sinto amor



Dás-me um beijito?

Ai! Ai! Isso é que não!

Dás-me um abracito?

Vá lá, seu maganão!



NARRADOR 1- Ainda não se falou da obra mais importante do Dr. João Antunes: a Escola de Artes e Ofícios. Quando patrocinou as obras de restauro da Igreja de Santa Cristina, apercebeu-se que muitos dos operários condeixenses chamados a executar os diversos trabalhos, tinham capacidades artísticas, porém apenas empíricas. Como seriam esses operários se tivessem possibilidade de adquirir outros conhecimentos? Esta pergunta martelou-lhe o cérebro até encontrar resposta. Contratou mestres pintores, ceramistas, canteiros! Pedro Olaio, Abel Manta, António Augusto Gonçalves…os melhores! Mas isso custava muito dinheiro!

Herdeiro entretanto de razoável fortuna com a venda de terrenos em Coimbra criou a sua Escola (quadro mostrando pessoas a pintar, esculpir, gravar em madeira…)

“…E a vila multiplicou-se em pintores de domingo, marceneiros-artistas, ferreiros, compositores populares…” como escreveu Fernando Namora, ele também aluno da Escola e pintor de mérito.

Durante treze anos, em Condeixa foram criadas ondas sucessivas de artistas. E ainda hoje é possível encontrar profissionais de vários ofícios, descendentes desses outros, alunos da abençoada Escola. Durou treze anos, tantos quanto durou o dinheiro do Padre Antunes e as raras dádivas. Certa vez, em 1922 houve necessidade de promover um leilão de obras de arte para financiar interesses urgentes da Escola. E apareceram quadros oferecidos por vários artistas de renome: Columbano, Alfredo Keil, Roque Gameiro, Malhoa…

Na abertura da exposição, mestre António Gonçalves proferiu um discurso: (quadro mostrando A. Gonçalves a discursar): «No nosso país a organização do trabalho nunca foi compreendida. O trabalho não tem instrução, nem crédito que o fortifique e engrandeça. Tudo está por fazer. O nosso atraso parece não ser compreendido pelos utopistas, que tudo reformam em decretos de pavorosa nulidade. As Escolas Industriais faliram deploravelmente, sob o peso de ficções e erros acumulados. E a acção oficial mostra-se impotente para tentar novos rumos de reconstituição profunda. Não há competência, nem a intuição clara dos meios a empregar e dos fins a atingir. E contudo esse trabalho árduo é forçoso que seja realizado sem perda de tempo, como condição fundamental de restauração económica…A coragem e dedicação do Dr. João Antunes, que desde tantos anos se tem dedicado à causa da arte e da educação operária, é um raro e glorioso exemplo que dificilmente encontra imitadores. O egoísmo e o desprendimento pelos interesses da educação são, na sociedade portuguesa, a mais irreparável demonstração de decadência cívica. Por isso mesmo, os serviços e sacrifícios devotados por este benemérito cidadão ao progresso da instrução técnica e do aperfeiçoamento moral da classe operária, bem merecem os aplausos e o auxílio com que os artistas acorreram em favor da Instituição!»



NARRADOR 2- Que bem ficava este discurso de alguém que tinha uma perspectiva tão inteligente e profunda da sociedade…se dito hoje! Foi pronunciado há perto de noventa anos!

Já falámos de duas facetas características do Dr. Antunes. Falta-nos referir aquela que perdurou na memória popular até aos dias de hoje, manchando a reputação de tão ilustre figura cultural: o pecado da gula!

Não são condizentes as descrições sobre o tamanho físico do Padre Boi. Uns dizem que teria mais de dois metros, outros atribuem-lhe cerca de um metro e oitenta. Ramiro de Oliveira, que o conheceu muito bem, dizia: “Era um homem forte, alto, mesmo demasiado corpulento, de cabeleira branca cortada ao nível dos ombros e pesava cerca de cento e vinte quilos”. Um homem assim, graças a Deus com bom apetite…não podia contentar-se com “qualquer coisinha”!

São muitas as estórias que se contam sobre o seu apetite! Certa vez, o farmacêutico Dr. Pinheiro, convidou-o para almoçar. Vendo que o Padre Boi olhava para a mesa com apreensão disse-lhe: (o quadro pode ser representado pelos dois narradores) –

PINHEIRO- O Dr. Parece-me cheio de apetite, mas olhe que não vai sair daqui com fome porque está aí comida que chega para um regimento!

DR. ANTUNES- Pois eu tenho dúvidas se chega para mim sozinho…

PINHEIRO- Olhe, então vamos fazer assim: o senhor põe-se já a comer e se esgotar a mesa, eu vou pagar o almoço na Pensão Buraca. Caso contrário, vamos lá na mesma, mas quem paga é você!

O Padre Boi não foi capaz de enjeitar tão aliciante proposta, nem era homem para perdê-la! Pouco depois…foram todos almoçar à Pensão!

Também é muito conhecido o episódio passado no palácio dos Lemos, quando o rei D. Carlos visitou a vila, na companhia do filho, o príncipe D. Luís Filipe, em 1907, a convite de Manuel Pereira Ramalho. No banquete que este ofereceu, estava também presente o Padre Antunes. Vendo-o a comer com bastante apetite, o rei, que também tinha sido bom gastrónomo, no final do repasto mostrou interesse em conhecê-lo. Um criado foi à sua procura e voltou com o recado: “ O senhor padre está na copa a jantar, mas promete não demorar.” “Outra vez a jantar?”, disse o rei, admirado por encontrar alguém mais comilão que ele!

Mas a afinidade dos dois não se resumia aos prazeres da mesa. Como o Dr. Antunes, também o monarca era amante da música e da pintura e, por isso, quis saber em pormenor o percurso cultural do padre. No fim, manifestou admiração pelo artista e concedeu-lhe o título de Capelão da Casa Real, honra muito apreciada pelo Dr. Antunes, que inclusivamente quis ser amortalhado com as respectivas insígnias.



NARRADOR 1- Era conhecida também a sua devoção à Senhora das Dores. A imagem da Virgem esteve muitos anos dependurada num velho cipreste. Tão velho, que acabou por cair. Ele então mandou edificar, à sua custa, a capelinha que agora se encontra incorporada numa capela maior. A data da primitiva construção está lá: 1906!

Embora já fosse hábito do povo rezar à Senhora das Dores, foi ele no entanto que fomentou, com incansável zelo, esse culto, indo lá diariamente, quer chovesse ou fizesse sol, rezar o terço. E essa prática diária levou a imaginação popular a afirmar que as covas na terra junto às gradinhas da capela, eram marcas dos seus joelhos.

Já quase no fim da vida, na peregrinação à orada passou a ir acompanhado por seu neto Luís que agitava constantemente uma campainha, avisando os fieis para a oração. Seu neto Luís, que afinal tinha outro nome de registo! O Dr. Antunes só o conheceu quando ele, já criançola, um dia se lhe dirigiu dizendo: (quadro mostrando o padre e uma criança) -

NETO- Dê-me a sua bênção, meu avô:

PADRE- Avô? Quem és tu?

NETO- Sou filho do Raul, seu filho.

PADRE- Como te chamas?

NETO- Manuel.

PADRE- Pois já que és meu neto, a partir de agora passas a chamar-te Luís, que era o nome do teu bisavô, meu Pai!



NARRADOR 2- E Luís ficou! Herdou os dotes artísticos do avô e tornou-se um excelente latoeiro que criava só com as mãos e vulgares ferramentas, verdadeiras obras de arte em folha-de-flandres e outros metais. Percorreu o país de lés a lés, em Feiras e Exposições, onde apresentava os seus trabalhos. Possuidor de uma bela voz de tenor, de vez em quando deliciava quem o ouvia, entoando as românticas baladas de Coimbra, ou fado, como lhe queiram chamar!

Voltando ao Orfeon do padre Antunes, inicialmente designado”Orfeon dos Artistas e Trabalhadores de Condeixa”, que prosseguia o seu caminho, de vento em popa.

Dr.João Antunes e o poeta Afonso Lopes Vieira
No dia 14 de Março de 1915, actuou em Coimbra num sarau em memória da data da morte do poeta António Nobre. Foi a rampa de lançamento para voos mais distantes e distintos. Não foi com certeza alheio a isso o facto de ter sido inserido num programa onde participaram artistas de renome, como o pianista e crítico de arte Alexandre Rey-Colaço e suas filhas, Alice, Maria e Amélia Rey-Colaço.

Além disso, claro, o desempenho excelente do agrupamento, assegurou o êxito. Logo ali ficou estabelecida uma exibição na capital. Antes desse espectáculo, deslocou-se o grupo a Caldas da Rainha, por interferência do poeta Afonso Lopes Vieira, grande amigo do padre Antunes. Actuou no jardim que agora pertence ao Museu da Cerâmica. Ainda hoje lá está um painel de azulejos evocativo dessa actuação, com poema de Afonso Lopes Vieira. E finalmente Lisboa, no Teatro da República, hoje Teatro S. Luís.

Os jornais da capital fizeram eco do evento. Um deles, o “Jornal da Mulher”, escrevia: (lendo o jornal) - “As criaturas humanas podem fazer milagres. Diremos que esta noite, o venerando sacerdote João Antunes realizou um verdadeiro milagre no palco do reconstruído Teatro da República. E, na verdade, fazer com que a rude e inculta gente do campo, sem a mínima cultura artística, sem os mais leves conhecimentos musicais, execute obras de Bach, Beethoven, etc., não será um verdadeiro milagre?”

Também a cidade do Porto acolheu o Orfeon em dois espectáculos no Palácio de Cristal. E Leiria, Figueira da Foz, Aveiro, Pombal…o Orfeon de Condeixa fez exibições em meio Portugal! Isto, no tempo em que as viagens se realizavam em ronceiras carruagens ou nos pouco mais rápidos comboios!

O coral, fundado em 1903, após um período de grande actividade esmoreceu e, em 1926 as suas exibições quase se limitavam a participações esporádicas na Igreja, em Sexta-Feira de Paixão, para cantar o “Miserere”.

Em 1927, o seu fundador convocou todos os elementos para comparecer em ensaio. O jornal “A Pátria”, dizia em 23 de Outubro de 1927: (lendo o jornal) - “Ninguém sabe onde o Orfeon de Condeixa vai, se a Lisboa, se ao Porto, ou se a alguma das cidades próximas da sua linda vila, mas vá onde for, esse grupo de rouxinóis terá os aplausos de quem o ouvir, porque é um Orfeon que encanta, não só pelo conjunto admirável dos seus homens que, despreocupados de preconceitos, se irmanam com um único fim: elevar o nome de Condeixa até onde todos o vejam com simpatia. A sua sede é Condeixa, orfeonistas são os condeixenses e o Orfeon é o Dr. Antunes, esse santo e admirável homem, alma de artista, a quem a vila muito deve.”

Mas o Orfeon, já com vinte e quatro anos, estava ferido de morte! A fortuna do Dr. Antunes tinha-se esvaído, a idade e a doença avançavam a passos largos e o desaparecimento de alguns elementos mais velhos e mais responsáveis, desequilibrou o agrupamento onde, infelizmente, pontuavam pessoas de baixa formação cívica. O entusiasmo estava cada vez mais esmorecido. Adivinhava-se o findar da instituição. E foi em S. Pedro de Moel “…onde a terra acaba e o mar começa”, a convite de Afonso Lopes Vieira, que o Orfeon fez o último espectáculo!

NARRADOR 1- Magnânimo por natureza, mas negligente em tudo o que tivesse a ver com questões financeiras, o Dr. João Antunes tinha esbanjado tudo o que possuía. O seu bom coração nunca ficava indiferente às necessidades do povo. Ramiro de Oliveira escreveu no Diário de Coimbra: (lendo jornal) ”Era esmoler. Muitas vezes o vi, pela calada da noite, metendo envelopes por debaixo das portas de famílias que sabia carenciadas. A mão esquerda, à boa maneira evangélica, deve ignorar o que faz a direita!”

Era também muito medroso! Todos conheciam o seu pavor de trovoadas. Estivesse a meio de um ensaio, na conversa com amigos ou no desempenho das suas actividades profissionais, mal o leve piscar de relâmpago riscava o céu, corria para casa a embrulhar-se em cobertores, rezando fervorosamente.

Os seus inimigos, porque o padre Antunes também tinha inimigos, não se cansavam de fazer queixas ao Bispo de Coimbra, criticando a forma, para eles verdadeiramente blasfémica, como o padre vivia, amancebado e com uma catrefa de filhos. Ele próprio, tendo consciência da sua situação, pregou um dia numa festa nos arredores de Condeixa: “A doutrina cristã é tão sublime que apesar de no seio da Igreja existir o devasso de um padre e, no decorrer dos séculos outros devassos como ele terem existido, ela chegou ao nosso tempo e está a atingir os dois mil anos!”. D. Manuel da Silva, seu antigo colega de Faculdade, agora exercendo a função de prelado, muitas vezes o admoestou, tentando evitar actuação mais dramática. As pressões no entanto eram muitas. Um dia vieram dizer-lhe que o Bispo o tinha proibido de celebrar Missa. Respondeu desabridamente o padre:” O Bispo excomungou-me? Pois eu também estou a amaldiçoá-lo neste momento!”

Nesta altura a diabetes já tinha operado grandes estragos no seu gigantesco corpo. Tudo se conjugava para abreviar o fim daquele que tudo dera em prol da cultura condeixense. O cargo de Conservador tinha findado. Sem meios para prover a própria subsistência, ia definhando rapidamente. Vivia quase só da ajuda dos leais amigos que ainda restavam e o convidavam para tomar as refeições. Infelizmente, muitos outros, quando o viam fugiam como “o diabo da cruz”. Doente, velho e cansado, ainda se arrastava todos os dias até à Senhora das Dores, onde rezava o terço, a actividade religiosa que lhe não podia ser retirada!

M. Rodrigues dos Santos, escreve assim no seu Esboço Biográfico do Padre Dr. João Antunes “ Padre Boi, não é Lenda”:

«…os últimos dias do padre Dr. João Antunes, foram tempos de auto- flagelação, quase a tocar os extremos da miséria, de apagamento social e de agonia lenta, esses que mediaram entre 1929, em que cessou as funções como Conservador do Registo Predial e viu o “seu” Orfeon extinguir-se, e a morte, ocorrida em 26 de Agosto de 1931, quando ia completar 68 anos de vida, trinta e seis dos quais consumidos na dedicação ao povo de Condeixa. O arrependimento e a pobreza conjuraram-se para que ao leão moribundo tudo faltasse na hora da morte, menos a ingratidão de alguns que dele usufruíram amizade sem barreiras, convívio enriquecedor e até conhecimentos que os ajudaram a fazer carreira. No frio rés-do-chão da Casa da Lapa, sobravam vestígios do equipamento do Orfeon e da Escola de Desenho que aí tinham funcionado, recordações dos tempos áureos da sua cruzada altruísta!”

(quadro com um catre no centro do palco, no qual “está” o padre Dr. Antunes, amortalhado com um simples lençol. Requiam, em fundo).

NARRADOR 2- O funeral realizou-se no dia 27 de Agosto de 1931. A imprensa coimbrã dedicou espaço ao infausto acontecimento. A Gazeta de Coimbra escrevia: (lê) -“Embora a doença andasse há muito a minar-lhe irremediavelmente o corpo atlético, a morte do Dr. João Augusto Antunes não deixou todavia de nos surpreender dolorosamente. Só quem como nós, que muito com ele vivemos e muito devemos aos conselhos do saudoso finado, soube quanto as dores alheias o perturbavam e afligiam, é capaz de sentir, nesta hora triste, a morte do Dr. João Antunes. Os que não privaram com ele choram a morte do artista. Nós choramos o artista e o Homem. Porque o Dr. Antunes foi dos maiores da música que na nossa terra tem havido!”

Pouco depois do seu desaparecimento, começaram a surgir manifestações culturais com o seu nome. «Grupo Cénico Dr. João Antunes», agrupamento teatral de curta duração. Na Casa do Povo de Condeixa, foi criado o «Centro de Alegria Dr. João Antunes».

Em 27 de Agosto de 1939, era inaugurado no cemitério de Condeixa um plinto com o medalhão do homenageado, desenho do arquitecto Raul Lino. (imagem com a fotografia dessa homenagem).

Em 1956, 25º aniversário da sua morte (imagem com fotografia dessa homenagem), discursou um outro ilustre condeixense, o Dr. Manuel Deniz Jacinto, que disse: “ Aquele Homem era uma força natural, instintiva e forte. Não era arqueólogo e prestou inteligentes serviços à restauração da nossa Igreja; não era músico nem pintor, nem artista notável em qualquer especialização. Mas era aberto às manifestações artísticas e sedento delas e tinha personalidade para polarizar e canalizar reais vocações e para se impor à consideração dos conhecedores e praticantes da arte. Regeu os Orfeons de Condeixa, Académico do Porto e Ginásio Clube Figueirense. Criou na Escola Nacional de Agricultura de Coimbra um Orfeon. Decerto que todos os seus cantores o relembram ainda hoje. Porque mesmo antes de partir do nosso convívio, o padre Antunes entrava já na lenda e as suas façanhas gastronómicas e outras, corriam o país. Nasceu filho de ricos e morreu pobre; trabalhou para os outros e nisso esbanjou os seus bens; procurou a beleza da vida e quis pô-la ao serviço do povo!».

(no quadro seguinte, são trazidas para o palco obras do Dr. João Antunes ou da sua Escola. O Orfeão Dr. João Antunes entra e posiciona-se para actuar).

Orfeão Dr.JoãoAntunes- Concerto de Natal na Igreja de Condeixa
NARRADOR- Senhoras e senhores, convosco o digno herdeiro dessa OBRA QUE NÃO É LENDA! O Orfeão Dr. João Antunes, de Condeixa!

Cândido Pereira.

















































quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Lugares de Condeixa - Hábitos e Tradições



Após ter publicado a 2ª parte de «Lugares de Condeixa, a Avenida», fui surpreendido com um comentário deveras curioso: “Se algum dia houver paciência e vontade…” Desafiava-me o comentador a escrever sobre os hábitos e tradições dos condeixenses em épocas festivas: Natal, Ano Novo e Carnaval.

A primeira reacção foi manifestar incapacidade para tal empresa, mais adequada a quem tenha formação etnográfica, habilitação que infelizmente não possuo. A minha “especialidade” resume-se a contar coisas de outros tempos, o “meu tempo”.

Porém, nunca fui homem de resistir a um bom desafio. E, numa noite em que o João-pestana se atrasou, dei comigo a imaginar como seria possível responder satisfatoriamente ao simpático repto. Assim, o que vou contar é afinal mais um exercício de memória, minha e de outros que, como eu, se preocuparam em deixar para a posteridade registos desta Condeixa em constante mudança e perda da identidade que a caracterizava.

Tanto quanto me parece, não há conhecimento de que na vila se festejasse o Natal, Ano Novo e Reis, da maneira ancestral de muitas outras terras do País. É evidente que a feitura do presépio, com musgo e bonecos de barro passando por pontes sobre rios de bocados de espelho, pastores, vaquinha, burrinho e reis magos adorando a Sagrada Família, mais toda a parafernália de outros participantes, sempre existiu. Mas isso, já é tradicional, dizem, desde S. Francisco de Assis. No Ano Novo, em tempo de mais brandas leis das armas, era comum ir à janela disparar para o ar, tentando atingir um velho que rapidamente se afastava, deixando o lugar a outro ano, acabado de nascer e que trazia promessas de melhor vida, o que nem sempre se concretizava. Já as Janeiras, confesso que as ouvi a primeira vez pelas vozes dos cantadores do Rancho Folclórico da Casa do Povo.

Quanto ao Carnaval, as coisas mudam de figura! “É Carnaval, ninguém leva a mal”.

Pois sim! Gostava de ver qualquer um dos meus eventuais leitores a aceitar de cara alegre uma das “brincadeiras” preparadas pelos foliões condeixenses!

Mas vamos lá por partes. O Domingo Magro dava a partida para “deitar o badalo”, um gancho enfiado na fechadura da porta, uma corda sustendo razoável pedra e um longo cordel que, de um lugar distante e seguro, era puxado ritmicamente, provocando contínuo martelar na porta. Ah! Falta dizer que no meu tempo não havia televisão e as pessoas se deitavam ao “toque das almas”, sinal dos sinos da torre para recordar os familiares e amigos falecidos. O dia seguinte começava ao romper da aurora, com ”o toque das Trindades”, início dos trabalhos na lavoura.

Voltando ao badalo, em pleno primeiro sono uma pessoa era acordada pelo martelar monótono do calhau. Acham que ficava com cara de quem está muito feliz por ter sido o escolhido dos foliões?

Virando as páginas dos cadernos de «Subsídios para a História de Condeixa» escritos por Isac Pinto e Fernando de Sá Viana Rebelo, encontramos esta descrição: “…João Ramos, primeiro-oficial de diligências do Tribunal da Comarca de Condeixa, bom chefe de família, cumpridor dos seus deveres e muito trabalhador, tinha um “fraco”: não gostava de badalos. E esse fraco exteriorizava-o em termos incendiários, mesmo explosivos. Chegava a dizer que se mandasse, encarcerava na Penitenciária todos os garotos que pusessem badalos nas portas dos cidadãos pacíficos. Ora os rapazes abusavam desta fraqueza e nos oito ou dez dias que antecediam o Entrudo, não lhe largavam a porta e ele, durante tão cruciante período, passava-o por detrás da janela ou da porta da rua, pronto a derrear o atrevido ou atrevidos que ousavam achincalhá-lo. E era homem para o fazer! Como os rapazes lhe conheciam o génio, valiam-se de todas as habilidades e manhas para dependurarem na fechadura o estafermo do pedregulho. Feito isto, que era o mais importante e arriscado, escondiam-se na Rua de S. Jorge, de onde puxavam o badalo. Era então digno de se ver o Sr. João Ramos, com os nervos descontrolados, absolutamente desorientado. Até que uma noite conseguiu agarrar um e justamente o que puxava a guita, fazendo vibrar o embirrante badalo. Agarrou-se a ele, frenético, vibrando de alegria e espírito de represália mas…logo o largou com um berro de espanto: era o seu Chefe, o Juiz da Comarca, Dr. Castro de Almeida que com outros altos funcionários conhecedores do fraco do Sr. João Ramos, de quem eram amigos, se lembraram de lhe pregar aquela partida.”

Bem, o Carnaval de Condeixa não era composto só de badalos. Até 1980, o mercado fazia-se na Praça da República. Na noite de segunda para terça, tudo o que fosse traste ou velharia era transportado para a Praça. Calhambeques, carroças e um dia, até para lá levaram uma velha cabine de camioneta que estava num terreno a servir de …retrete!

Mesmo a meio da Praça, ladeando o chafariz, estavam dois altos candeeiros em ferro, os apelidados “nabos”, pela forma cónica (mas artística) dos emissores de luz. Os rapazes estendiam um arame de um candeeiro a outro. Lançavam um cordel com um gancho, por cima do arame. Quando algum incauto se distraía, o chapéu saltava-lhe da cabeça e era forçado a dar saltos para o apanhar, perante o gáudio dos mirones. Devo confessar que não apreciava nada a brincadeira. Já nessa altura tinha consciência do que isso representava em termos de humilhação para os apanhados na situação.

Deixemos as filosofias baratas e vamos ao baile. Condeixa, viveiro de músicos, nunca perdia a oportunidade para fazer festas musicais de rua e bailes. Era no Natal, no Ano Novo, na Páscoa, só escapava a Quaresma porque a educação religiosa não permitia e nem as autoridades estavam pelos ajustes. Vá lá, pelo meio ainda se aproveitava a Micaréme, apenas um dia no roxo das sete semanas.

Embora sendo uma vila tão próxima de Coimbra, pressupondo determinada forma de comportamento social, Condeixa, no meu tempo, era retrógrada. O relacionamento entre jovens de sexos diferentes tinha regras definidas. Por exemplo: o pedido de namoro, normalmente feito por carta, não era respondido à primeira declaração. Mandava o código de bom comportamento feminino, que a pretendida apenas respondesse ao candidato após a insistência deste. A negativa não merecia sequer resposta. No caso afirmativo, começavam por se encontrar apenas na rua, para conversa informal e à vista de todos. Depois de obtidas algumas garantias das boas intenções do moço, este já ia namorar à porta, em dias convencionais, a quarta e o domingo, sempre discretamente vigiados. Até para o passeio dominical eram sempre acompanhados pelo “pau-de-cabeleira”, um irmão ou uma amiga relativamente atentos às mãos dadas e beijos furtivos.

Por isso, os bailes tinham importância no comportamento da malta. Era uma oportunidade nunca perdida para o aproximar de corpos, num enlace mais ou menos cingido, consoante a permissão dela e o arrojo dele. No Entrudo, as regras de convivência eram mais brandas, dando lugar a situações que noutra época se podiam considerar abuso. Eu estou a analisar o tema sob o prisma masculino. Mas, era capaz de jurar, as raparigas pensavam exactamente da mesma forma.

Baixinho como sou, pouco mais de centena e meia de centímetros (dito assim, até parecem mais!), tinha duas hipóteses: ou maroto, ou bailarino! Como a segunda me dava muito maior gozo, optei e ainda bem!

Naquele tempo, os lugares de eleição para grandes bailes, eram: o Clube de Condeixa; a Casa do Povo; o salão de ensaios da Música Nova no palácio do Paço e até o Cine-Avenida, depois de retirada parte das cadeiras. E não ficava por aqui! Bastava juntar-se um grupo de rapazes ansiosos por dar à perna, conseguir-se um espaço, pequeno ou grande, arranjar-se música e aí estava o forrobodó.

Para os tais grandes bailes, em “salão” de boas dimensões, contratava-se uma orquestra. Nos outros, aqueles de ocasião, servia uma “salinha” e a música dos discos de 45 ou 78 rotações, tocados num gira-discos e com o som ampliado pelo rádio.

Passados os dias de euforia carnavalesca, acordava-se em Quarta-Feira de Cinzas, com o longo período de luto da Quaresma.
Em Condeixa, no terceiro fim-de-semana após o Entrudo, realiza-se a Procissão do Senhor dos Passos. Carregada de tradições com cerca de três séculos, tem alguns aspectos que estão em risco de desaparecer. Por enquanto, ainda se mantém a penitência de joelhos, ao sábado, no percurso entre a Igreja e a Capela da Senhora da Piedade. Na passagem do andor sobre a linha de água do Rio do Cais, uma pequena paragem permitia aos crentes colherem a milagrosa água, que depois era utilizada para sarar males do corpo. Um amigo meu, infelizmente já falecido, dizia que o abençoado líquido lhe tinha curado “uma ursela do diódeno”. Sabe-se lá! Não quero ferir susceptibilidades, mas era preciso ser-se bastante crente para pensar que o rio, emporcalhado por toda a espécie de detritos dos esgotos de habitações a montante, tivesse
virtudes miraculosas. Boa ou má tradição, terminou! A água para o Rio do Cais foi desviada com um colector subterrâneo e só volta à luz do dia, nos Pelomes. Vai ser quase impossível coordenar a paragem do andor e o momento de colheita da água. Isto, no caso de ainda existirem pessoas fieis ao costume!
Outra tradição do mesmo acto religioso, diz respeito ao “Pendão”, um mastro que abre a Procissão e tem de ser transportado por pessoa com fortes braços pois o comportamento é semelhante ao mastro e vela de um barco. Sempre ouvi dizer que se um dia o transportador deixar cair o Pendão, devem passar-se 4 anos sem realização da Procissão. Julgo que até hoje, isso nunca aconteceu.

Com a Páscoa, voltavam os bailes. Primavera, tempo de renovação, também período de amores a sobressaltar os corações jovens.
 Divagava Ramiro de Oliveira:

”…Estás entre nós? Sê bem vinda…
Mas fica, que é cedo ainda
Para partir!...
Dizes que o Céu te requer?
Não! Não vás enquanto houver
Um coração por florir!

O auge da Primavera era alimentado com as fogueiras dos santos populares, de velha tradição. Já António Nobre, o atormentado poeta do «Só», dizia no poema “Cartas a Manoel”

«…Condeixa? Vamos ao arraial que ali há!
- Sol, poeira, tanta gente! É o mesmo, vamos lá!»

12, 23 e 28 de Junho, a vila iluminava-se de ponta a ponta com dezenas de fogueiras. Tudo o que ardesse era lançado às chamas. Indispensável é que durasse toda a noite. Mesmo em tempo de fome, a gorda sardinha assada e o tintol marcavam presença, a estimular as cantigas de Ramiro de Oliveira:

Ardem fogueiras
E em volta as raparigas
Rezam terços de cantigas
Cada uma com seu par

Anda Maria
Enfia o braço no meu
Marcha e canta como eu
Vamos nós também dançar!

Ou então:

Cá vai Condeixa
Toda vestida de chita
Vai alegre e tão bonita
Ver e saltar as fogueiras!
Que até S. Pedro
S. João e Santo António
Par’ a livrar do demónio
Perdem três noites inteiras!
Menina e moça
Nunca se deixou tentar
Não é cabeça no ar
Mas presa por tal encanto
Foi ao terreiro
E embalada nas cantigas
Do peito das raparigas
Fez um trono a cada Santo

Das grutas de Condeixinha
Ao Outeiro, com seus altares
Passa Condeixa Inteirinha
Agora feita rainha
Destas festas populares!                           

Eram os poetas, sensibilidade apurada, atentos às coisas comuns da vida, aquelas que iam ao encontro do sentir do povo!

Depois disto, será que correspondi ao desafio lançado? Se calhar, até não! Enfim! Os meus conhecimentos não permitem voos mais largos. E, “Quem dá o que tem…”


Condeixa, Fevereiro de 2011

Cândido Pereira




terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lugares de Condeixa Avenida


2ª Parte
Era assim a Condeixa de outrora. Com figuras peculiares que criavam situações curiosas, muitas vezes cómicas, mas também de vez em quando revestidas de algum dramatismo, especialmente quando assinalavam temas que tinham a ver com a fome e mais miséria social.
No caso da Avenida, por ser um local de gente com teres e haveres, só há a contar coisas engraçadas. Como o episódio passado com um sapateiro tocador de bandolim. O prédio que está mesmo em frente ao Cine-Teatro, foi mandado construir por João Alcobaça. No rés-do-chão instalou um armazém de azeites mas, pouco tempo depois, passou a ser a primeira loja de ferragens de Manuel Alves Ferreira. Nesse edifício viviam os proprietários, filha e genro. Este tinha um posto transmissor/receptor de rádio amador. Ao lado morava António Pimentel, Tópi, reputado artista plástico com obras expostas em várias galerias de arte da Europa e do Brasil. (A propósito, o Orfeão Dr. João Antunes lançou uma petição via internet para solicitar à Câmara a atribuição do nome deste artista a uma rua de Condeixa). Tocava muito bem guitarra e um dia convenceu o tal sapateiro a gravar um dueto musical de cordas, que seria transmitido pela então Emissora Nacional, estúdios de Coimbra. Dias depois e de combinação com o vizinho, o Tópi sintonizou o seu rádio na onda de frequência do posto emissor já citado, chamando o sapateiro que escutou enlevado a gravação, convencido que era uma transmissão da Emissora. Mais tarde o visado na brincadeira, quando soube a verdade, reagiu com bastante humor.
Encostada ao Mercado, era a casa de João Bacalhau, com loja de mercearias, taberna e pensão. Tinha um pátio interior onde, do buraco de uma mó de pedra, saía o tronco de frondosa parreira, a formar latada.
Logo acima e a curvar para a rua das oliveiras (Rua António de Oliveira), o prédio de Eduardo Branco, “Sansôa”, com oficina de ferrador. Antigamente, cavalos, jumentos e bois, eram animais muito utilizados, quer em transportes, quer nos trabalhos agrícolas. Como “calçavam” ferro, havia necessidade de oficinas onde as ferraduras eram fabricadas e aplicadas. Em Condeixa existiam várias, uma delas até no arruinado palácio dos Alvercas, como ficou demonstrado quando agora fizeram as escavações para a remodelação da Praça, sendo encontrado um monte de ferraduras enferrujadas. A oficina da Avenida diferia das outras por ter instalações mais novas, mas não na forma de tratar o ferro, que essa era ancestral. Há muitos anos desactivada, conserva no entanto ainda, inserido na parede sobre o portão, o símbolo da arte: o martelo e a torquês cruzados, dentro do semi-circulo da ferradura. Quando os operários acabavam de bater o ferro incandescente na bigorna, cortavam as pontas e lançavam-nas para a rua. Os garotos, passantes a caminho da Escola, viam nesses objectos excelentes projécteis para as fisgas e corriam a apanhá-los, retirando de imediato as mãos queimadas, perante o riso parvo dos homens que faziam aquilo de propósito.
A rua que atravessa a Avenida era o antigo caminho que ligava a Quinta de S. Tomé ao Outeiro. Recorro uma vez mais às memórias de Ramiro de Oliveira:”…a sua acção (do tenente Pires Beato, Presidente da Câmara) teve início com a aquisição da chamada Terra da Galega, 100 metros a nascente da Escola Conde de Ferreira. Terreno saibrento, pobre para culturas, oferecia óptimas condições para urbanizar e foi para ali que convergiram as primeiras atenções do Município. Abriram-se esgotos, construíram-se passeios e surgiu a primeira nova rua numa extensão de 100 metros. Retirado o terreno para a Escola a construir poucos anos depois, os terrenos laterais foram vendidos em talhões, com a condição de serem edificados no prazo máximo de 3 anos, sob pena de os terrenos voltarem à posse da Câmara, mas…ainda hoje continua a ser uma rua de muros!”.
Ocupando quase toda a rua António de Oliveira e virando para a Avenida, há ainda um longo muro, embora atenuado pela existência de duas bonitas vivendas geminadas.
Antes da abertura da Avenida e ainda durante muito tempo depois, o Hospício e a Serrada estavam já fora de portas. Maus acessos e grande intervalo sem edificações faziam com que os moradores do centro raramente se deslocassem a esses locais.
Quando os terrenos foram postos à venda, o Sr. Ramiro de Oliveira comprou um lote. Contente, foi para casa dar a boa nova à esposa. Porém ela, habituada ao bulício de Condeixinha, onde moravam, achou que ir para tão longe significava o desterro e por isso respondeu:”Tu és maluco, fazer uma casa em Condeixa-a-Velha não cabe na cabeça de ninguém!”. Não estava muito longe da verdade, pois essa freguesia começava um pouco mais à frente. Mas a casa foi construída e lá viveram muitos anos. Na mesma época, mesmo ao lado mandou Januário de Carvalho edificar a sua vivenda. Sendo funcionário da C.P.,tendo de partir para longe, não podia continuar a morar em Condeixa e alugou a casa a Joaquim Caniceiro da Costa.
Todas as terras têm as suas figuras especiais, motivadoras de episódios que se vão recordando ao longo dos anos, alguns deturpados, mas outros mantidos tal e qual se passaram. São muitas as referências a determinadas personagens que marcaram o quotidiano da vila. E Joaquim Caniceiro foi muita vez protagonista. Tinha uma oficina de mecânica automóvel na Serrada. Certa vez foi lá um operário da Mobilândia, fábrica de móveis que existiu na Rua Nova, para mandar soldar uma peça de máquina chamada “sargento”. Quando dias depois a foi buscar, perguntou: “senhor Caniceiro, o sargento já está soldado?”, ao que ele, aproveitando o trocadilho que a pergunta sugeria, respondeu:”oh! meu amigo, para uma despromoção dessas, só com ordem do Ministério da Guerra!”. Noutra ocasião, a esposa, atormentada com algum grave problema, prometeu ir a pé à Senhora do Círculo. Nesse tempo os acessos à serra eram extremamente difíceis e uma subida constituía razoável penitência. Para cumprir a promessa conseguiu, após muita insistência, o acompanhamento do marido. Quando chegaram ao alto, comentou ele: “Havia duas coisas que sempre prometi a mim mesmo nunca fazer: ir a pé à Senhora do Círculo e ir à merda. Aqui, já vim!”
Algumas das estórias que conto neste exercício, escrevi-as em livro que teve edição limitada. Por isso as registo de novo, pedindo desculpa pela repetição, a quem já as leu.
Está a terminar “mais uma voltinha, mais uma viagem”, como gritavam os altifalantes dos carrosséis, nas festas e romarias. Antes porém, ainda referência a um assunto que não pode dissociar-se do tema que tenho estado a tratar: a abertura da última via perpendicular à rua Dr. Simão da Cunha. Se a Avenida tivesse seguido o traçado pretendido pela edilidade, teria terminado na Serrada. Daí, partiria um outro arruamento de ligação ao Outeiro (ou, mais propriamente, à zona do Hospício). Três militares participantes na Grande Guerra edificaram lá as suas moradias: no lado do Hospício, o Tenente José Pires Beato, ao cimo da Avenida, o Tenente Campos (neste caso, não foi ele que a mandou construir, mas adquiriu-a quase após ser edificada) e no topo, à Serrada, o Capitão Alves. O Presidente da Câmara, Tenente Pires Beato, decidiu atribuir ao percurso o nome de Rua dos Combatentes da Grande Guerra, homenageando todos os militares envolvidos no conflito internacional. Por razões já conhecidas através das memórias de Ramiro de Oliveira, apenas se construiu parte desse troço da via. Só em 1976, quando vários lotes de terreno entre a Escola e a Serrada foram vendidos e começaram as construções, a rua teve finalmente concluída a ligação.
O prédio da Escola Feminina foi recentemente recuperado e manteve sobre a entrada, em azulejos, o título que lhe foi atribuído pelo estado novo, uma forma de segregação em nome de um decoro provinciano e retrógrado. Os olhares sempre vigilantes das professoras impediam a aproximação de rapazes àquele universo feminino. Apenas durante os exames da 3ª e da 4ª classe se permitia a coabitação de meninas com meninos. Os alunos do Professor António Pita, ainda tinham direito (qual direito! Obrigação e bem difícil de suportar) de, algum tempo antes das provas finais, ter aulas de avaliação aos domingos de manhã, na sala onde deveriam decorrer os exames, creio que como forma de ambientação a um local importante para a vida dos garotos. Era uma ideia pedagógica inovadora do Professor Pita, que não canso de enaltecer.
Fechada por fim a Avenida do meu tempo (agora tem continuação, com outro nome, creio que D. Ana Laboreiro d ‘Eça, pelo menos é a direcção indicada pelo Centro de Saúde).
Nota: As fotografias antigas da Avenida, inseridas nos textos, foram gentilmente cedidas por José Andrade.
Condeixa, 08 de Fevereiro de 2011
Cândido Pereira