quinta-feira, 5 de maio de 2011

MOINHOS DE CONDEIXA

O tema em título merecia um trabalho bem desenvolvido, tratado com a importância que a existência dos cerca de 40 moinhos de Condeixa exige. Não tenho capacidade literária, nem suficiente informação para trabalho de tal monta. Mas, porque entendo que o assunto tem sido sistematicamente esquecido por quem o devia tratar, arrisquei escrever o presente artigo. Pelo menos, foi a maneira que encontrei para homenagear os nossos moleiros, embora da forma ligeira que o blogue apenas permite.

Condeixa era das terras do país com mais moinhos. Não foi por acaso a escolha da padroeira, Santa Cristina, a romana mandada atirar ao mar presa a uma pedra de moinho, pelo próprio pai, por se recusar a renunciar a fé cristã.

O milho, cereal primordial na alimentação, apenas surgiu na Europa depois das Descobertas, vindo do continente americano. No entanto, certamente antes do século XVI já existiam moinhos em Condeixa, nesse caso para moer outro tipo de grão, o centeio e o trigo. Mas o advento do milho criou um ritual que formou tradição nas nossas aldeias. Quando se fazia a colheita, as espigas eram reunidas num terreiro (eira) e à noite, após os restantes trabalhos agrícolas, juntava-se um grupo de homens e mulheres formando roda para a desfolhada (ou, como se dizia em Condeixa, “descamisada”), operação destinada a retirar a capa envolvente das espigas. Estas concentrações rurais constituíam verdadeira festa. Cantava-se ao desafio, contavam-se histórias e aproveitava-se o facto de haver pouca iluminação para se roubar um beijo à conversada. Júlio Dinis, na obra “As pupilas do Senhor Reitor”, retrata bem essa forma rural de viver os trabalhos do campo, em especial as desfolhadas.
Os moinhos, em algumas terras popularmente chamados “munhos”, concentravam-se ao longo de três linhas de água, sendo que uma delas, só desde a Quinta de S. Tomé até ao Travaz, a travessia da vila, possuía quinze engenhos.

Para a existência de moinhos, era necessária a água. E isso nunca aqui faltou!

(extracto do poema “A nossa grande casa azul” de Linda Glaser e Elisa Kleven)

Partilhamos a água
Salpicamos, chapinhamos e nadamos
Na água
E todos bebemos água
Baleias, golfinhos, manatins
Pinguins, palmeiras, tu e eu
Todos partilhamos a terra
A nossa grande casa azul.


A importância da água no planeta! No caso de Condeixa, fundamental para o seu desenvolvimento, quer na irrigação dos terrenos, quer na movimentação dos moinhos e lagares de azeite. Em termos de utilização em escala industrial mais ampla, existiu só uma exploração onde a água, vinda da “regueira de Santo António” era acumulada (tanque do Galaitas)e depois enviada por um canal de desnível, a accionar o rodízio que transformava a força hidráulica em força motriz,para o descasque de arroz. Esta fábrica, interessante exemplar da era da Revolução Industrial, desde muito cedo porém passou apenas a lagar de azeite.

RIBEIRA DE ALCABIDEQUE

Formada a partir da bacia de nascente que os romanos aproveitaram para recolher a água e enviá-la, através de longo aqueduto a fim de abastecer Conímbriga, tem também o seu caudal acrescido pela ribeira de Bruscos e o ressurgimento do Ramo. Logo a partir daqui começava o aproveitamento hidráulico.
No percurso, o rio encontra a Quinta de S.Tomé, importante exploração agrícola em tempos proprietária de meia Condeixa. Um canal entrava na propriedade murada para movimentar o moinho, juntando-se depois ao rio que contornava a Quinta em direcção ao nome que então adquire: Caldeirão. No começo deste, o boqueirão do Olho a regular o caudal, permite a existência de dois canais distintos, criados artificialmente para permitir a instalação de lagares de azeite e moinhos de grão. À esquerda, o ribeiro da Serrada alimentava três moinhos e um lagar, transformando-se depois em linha de água destinada a fins sanitários, acabando por ligar-se ao rio original a jusante. À direita, outro ribeiro mais farto, accionava vários moinhos no seu percurso até à vila, passando a descoberto na Rua da Água e na Praça, aqui a tomar o nome de Rio do Cais e a continuar, Condeixinha abaixo, a caminho do Travaz. Por sua vez, o Caldeirão movia lagares e moinhos e ainda tinha tempo para formar cascata no Cigano. Lá vai seguindo, mais suave nas terras baixas da planície poente, a caminho de caudais de outra dimensão. Dizia-se que o Caldeirão era um “braço de mar”. Provavelmente! Em tempos muito remotos, seria um rio de maré, tal como o Rio dos Mouros. As margens profundas assim o sugerem. A monografia “Condeixa-a-Nova” de Augusto dos Santos Conceição, na 2ª edição apresentada por José Maria Gaspar, referindo-se a Conímbriga, diz-nos “…Só no século XVI é que alguns escritores se referem às ruínas de Condeixa-a-Velha. Frei Bernardo de Brito escreveu então as mais fantasiosas referências acerca da sua fundação e da existência das suas ruínas. No século imediato porém, Miguel Leitão de Andrade não quis ficar por menos imaginoso, pelo que afirmou que em certo ano teriam aparecido na Conímbriga – que era porto de mar – numerosas naus, donde desembarcaram aguerridos inimigos a saquear a cidade e a desbaratar os seus habitantes…”, mas acerca disto, diz J.M.Gaspar em rodapé: “ A distância dalgumas léguas a que fica o mar e a própria ondulação do terreno, não depõem apesar do enorme tempo decorrido a favor de semelhante presunção; confirma-o não se encontrarem, a qualquer profundidade da terra, quaisquer vestígios marinhos. A verdade porém é que ali perto, no Lezeirão da Ega, há muitos fósseis de origem marinha quase à superfície da terra. No rio há o “Porto das Negras” e, cinquenta anos atrás ainda corriam entre o povo alusões a raptos e roubos feitos na região por barcos velozes e poderosos… ”. (Dados históricos apenas para justificar uma teoria. No local onde actualmente estão localizados os edifícios das Piscinas Municipais, Pavilhão Desportivo e Quartel da G.N.R., existiu em tempos muito remotos, uma lagoa com provável ligação ao mar, como se pode comprovar pelo extracto geológico do monte cortado na altura da construção do IC3. Terá sido por aí que chegaram as “numerosas naus”?)
O desenvolvimento de Condeixa-a-Nova deveu-se principalmente, às muitas linhas de água que alimentam as terras úberes. Os terrenos vão-se estendendo em declive suave, evitando que as águas ganhem velocidade e mais depressa se misturem com o mar. Recuando ao tempo da fundação da nacionalidade, Afonso Henriques entregou as terras de Condeixa à guarda dos frades cruzios, com responsabilidade pelo repovoamento e arroteamento dos vastos espaços agrícolas.
Alcabideque, a principal origem das águas, já era povoação, supondo-se fundada pelos romanos, com o nome provável de “caput aque”, a que os mouros teriam aposto o sufixo “Al” e modificando o resto da grafia. Assim a cantou o poeta islâmico Abu Zeide Mohamede Ibne Mucana, no século XII:(a)
(alcabideque-2) Ó tu que vives em Alcabidek
Oxalá nunca faltem
Nem grão para semear
Nem cebolas, nem abóboras…

A agricultura, sempre referida, porque fonte de rendimento para os senhores e subsistência para o povo.
Desde tempos imemoriais, o homem serve-se dos cereais como alimentação. Para se tornar mais fácil a utilização, o grão era triturado entre duas pedras que se adaptavam à concha da mão. Evolutivamente, passou-se ao almofariz, de pedra ou madeira, e ao rebolo, constituído este por uma pedra base, rectangular, e outra redonda que se movimentava em vaivém. O movimento circular só apareceu em Roma à roda dos séculos V ou IV aC. O passo seguinte foi a invenção da mó com punho, para girar manualmente. Ainda existem algumas dúvidas sobre qual o principal meio usado inicialmente para movimentar mecanicamente as mós, se a tracção animal ou a utilização hidráulica, mas tudo indica que tenha sido esta última.
Nesse sentido, “escreve Lopes Marcelo, na sua obra “Moinhos da Baságua”: “A mais antiga referência ao moinho de água consta de um epigrama de Antípatros de Salónica que se presume ser de 85 aC, embora alguns autores o situem na época de Augusto. Tal epigrama “é uma elegia poética ao carácter feminino da moagem primitiva”. Também Luís Filipe Rosa Santos, na obra "Os moinhos de maré da Ria Formosa" refere o mesmo epigrama, dizendo: «Sossega as tuas mãos, oh! Mulher que fazes girar a mó! Dorme bem, mesmo que o galo anuncie a aurora, porque as ninfas, por ordem de Deméter, fazem o trabalho que ocupava teus braços: atira-se sobre a roda e os seus raios, forçando em volta o eixo que põe em movimento o peso das mós côncavas de Nysiros!» “Trata-se inequivocamente de um moinho hidráulico de rodízio com a particularidade de fazer referência à disponibilidade que este novo engenho permitia ao homem, neste caso às mulheres que teriam a seu cargo a farinação dos cereais.”
Pensa-se que remonta ao século XIII a existência em Portugal dos primeiros moinhos de vento. Em Condeixa ainda se pode ver um destes, bastante degradado, na Serra de Janeanes. Não é de cúpula giratória tipo moinho mediterrânico, mas sim construído para que fosse toda a estrutura a movimentar-se. Na sua base estão colocadas rodas de pedra que corriam num leito de lajes colocadas ao redor do moinho. Deste modo, o moleiro colocava o engenho na posição mais favorável à tomada de vento para as velas. Na freguesia do Bom Sucesso, Figueira da Foz, existe um moinho idêntico, completamente restaurado, como demonstra a fotografia.
Voltando aos moinhos de água, primitivamente a impulsão do rodízio horizontal dava-se na parte inferior dele, o que implicava a necessidade de impulsão liquida bastante forte, que nem sempre era conseguida. Assim, quando foi inventado um novo método que consistia na condução da água através de canal que impulsionava as pás do rodízio pela parte superior, obtendo-se com menos água maior capacidade motriz para movimentar, não só moinhos, mas também lagares, serras mecânicas e outros engenhos, vulgarizou-se o sistema que chegou aos nossos dias, com as inevitáveis e necessárias alterações.
O moinho de cereal, na sua simplicidade aparente, é um engenho complexo. Desde a tomada de água, até ao processo da moagem do grão, todas as operações são cuidadosamente estudadas e executadas, para que resulte em pleno o trabalho do moleiro e a obtenção do produto final, a farinha. A água dos ribeiros era conduzida por um canal, a “levada”, no extremo da qual havia uma “comporta” para regular a entrada, descendo ela por uma conduta até à casa dos rodízios, onde saía em pressão pela abertura chamada “seteira” e impulsionava o rodízio que, por sua vez possuía um veio vertical. Este atravessava o olho da mó de baixo (dormente), e suportava com a “segurelha” a mó de cima (movente ou andadeira) para triturar o grão.
As mós eram anéis maciços de pedra. Condeixa-a-Velha contribuiu enormemente para a produção de mós, chegando a fazer exportações para o estrangeiro porque era grande a qualidade da pedra. Ainda hoje é possível observar um dos locais onde ela se retirava e se trabalhava, junto às Ruínas Romanas de Conímbriga.
A duração de uma mó dependia da qualidade da pedra, mas variava entre cinco e dez anos. O desgaste provocado pelos cereais, a regular picagem que se fazia para aumentar a capacidade de moagem e o atrito, deixavam as mós reduzidas na espessura, sendo necessário proceder-se à sua substituição. Ainda assim, eram aproveitadas para lajear o piso das casas ou reforçar as paredes, como aconteceu na casa actualmente de Fortunato B. Pires da Rocha, cujo avô, como proprietário das pedreiras de Condeixa-a-Velha, utilizou bastantes mós na construção do seu prédio.
O interior da casa do moinho era dominado pela presença do engenho de farinha, composto pelas duas mós e pela “moenga”, armação em madeira de aspecto rudimentar, mas bastante funcional. Tinha a forma de gamela ou pirâmide invertida, sem topos. Nesta caixa era colocado o cereal a moer. O grão saía para a “quelha”, peça de madeira com o feitio de caleira e tombava no “olho da mó andadeira". Para que o cereal caísse regularmente, existia uma peça, o “tangedouro”, normalmente obtida de um pequeno ramo curvo de árvore, fixo à peça que se apoiava na “quelha” e assente sobre a mó. A rugosidade e rotação desta imprimiam o movimento continuo de oscilação necessária à caída do grão, função importante porque se caisse pouca quantidade, as pedras aqueciam e queimavam a farinha, além de provocar maior desgaste das mós; caso contrário, a farinha empapava as pedras, provocando a paragem súbita do rodizio e provovando neste graves avarias. As mós possuíam sulcos concêntricos destinados a impulsionar o grão no sentido da moagem e, por efeito centrífugo, fazer a saida da farinha para a caixa, “tremonhado”, colocada na frente do engenho, sendo depois metida em “taleigas”, sacos de pano onde era armazenada. Toda a estrutura da “moenga” estava suportada por barrotes de madeira, corda e arame.
O MOLEIRO
Falando de moinhos, tem de se referir o profissional que tudo fazia, desde preparar a condução da água, até entregar a farinha aos clientes e trazer de volta o cereal para moer. Lopes de Macedo, na sua obra "Moinhos da Baságueda”, pág. 60, diz assim: “Tal como os restantes ofícios, a profissão de moleiro estava sujeita a normas de regulamentos ou leis avulsas, Regimentos Municipais e Códigos de Posturas. Em termos de registos que chegaram até aos nossos dias, destaca-se a região norte, em particular a zona de Guimarães." Em destaque, tem ainda a seguinte e curiosa nota: "Os moleiros, assim de trigo como de broa eram obrigados a terem os seus guarda-pós(os panais de protecção da farinha que vai saindo das mós)em panos "que não esponjem",ou em estopa, fechados e cobertos por uma esteira;e seus tremonhados(locais para onde cai a farinha)"bem varridos e limpos",para o que terão sempre "suas vassouras ou juncos";e não terão nos seus moinhos galinhas,nem cães,nem porco,mas sim,pelo contrário,ratoeiras armadas e um gato. (do Regimento municipal de 1719 e Acta de 1829 (Guimarães).Transcrito do livro Sistemas de Moagem,SNIC,Centro de Estudos de Etnologia,pág.93".
O moleiro era auxiliado no seu trabalho pela mulher e filhos, que dividiam entre si as muitas tarefas. Não implica, contudo que o trabalho deixasse de ser exaustivo! Como já disse, periodicamente tinha de proceder-se à desmontagem das pedras para a picagem. Este serviço era executado pelo próprio moleiro, bem como a reparação de todo o conjunto bastante pesado do rodízio. Este estava assente numa barra, a “ponte”, com um furo central onde encaixava o “aguilhão”. A ponte era comandada por um veio vertical, o “aliviadouro”. Na casa do moinho, existia uma manivela que subia ou descia o “aliviadouro”, permitindo a afinação das mós. Da distância entre estas, dependia a qualidade da farinha. O moleiro conhecia tão bem o seu moinho que bastava a alteração do “cantar” das mós, para saber o seu estado e se tinham grão suficiente para moer. No entanto, porque as diversas tarefas podiam eventualmente distrair-lhe a atenção, era comum utilizar um estratagema que consistia em colocar um pedaço de cortiça preso a uma corda, com chocalho na ponta. A cortiça era metida no meio do grão. Quando ele começava a escassear, o chocalho caía sobre a pedra e, ao soar, avisava o moleiro.(moinho)
A farinha é a base da alimentação quer através do pão, quer mesmo utilizada directamente na culinária, por exemplo, nas “papas laberças", prato que se obtem juntando a farinha à sopa já confecionada. O nome “pão” é genérico de toda a alimentação. No entanto, é especificamente aplicado ao “bolo" de farinha de trigo ou centeio. Sendo de milho, já se chama broa. Para cozer o pão ou a broa, os lares de melhores condições sociais possuiam forno próprio, aquecido com lenha.Tinham o feitio abobadado e apenas uma porta. Mas também existiam fornos comunitários. Em Condeixa eram chamados "fornos da poia", locais onde as familias mandavam cozer o "pão" laborado em casa. Sendo terra de moinhos, Condeixa tinha também muitos fornos comunitários. A actual Rua 25 de Abril chamou-se outrora Rua dos Fornos, depreende-se por que razão. Na Serrada e no Outeiro, existiram “fornos da poia”, no entanto, o forno mais conhecido era o da Ti Prazeres, localizado onde hoje se encontra um dos estabelecimentos de fotografia de Delfim Ferreira, à entrada da Rua Manuel Ramalho, junto às instalações da Santa Casa da Misericórdia.
Muito mais coisas deviam ser ditas sobre os moinhos de Condeixa e todas as actividades a eles directamente ligadas. Conheço várias obras versando este assunto, nenhuma de Condeixa! Não será já tempo de a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia ou qualquer outra entidade responsável, decidir mandar fazer e publicar um estudo sobre os Moinhos de Condeixa, enquanto é possível obter espólio fotográfico e informação fiel de pessoas ligadas ao tema?

- VOCABULÁRIO DOS MOINHOS-

AÇUDE- Construído em pedra, serve para represar a água do rio ou ribeiro.
LEVADA- Canal que tem origem no açude e transporta a água até à represa.
REPRESA- Local onde é recebida a água vinda do açude.
AGUEIRA- Canal condutor da água em cascata para o rodízio.
CUBO- Cabouco na parte inferior do moinho, onde está colocado o rodízio.
SETEIRA- Peça existente ao fundo da agueira, de onde sai a água projectada para o rodízio.
ZORRA- Peça de apoio ao rodízio.
PEGADOURO- Tábua que comanda a direcção da água.
COMANDO DO PEGADOURO- Serve para movimentar e parar o moinho.
RODIZIO- Roda com movimento horizontal, ligada à mó por um veio.
TAPUME- Tampão regulador da entrada da água para a agueira.
PEDRA- Mó em granito.
CUNHAS DA AGULHA- Tacos reguladores do controle e levantamento da pedra.
MOENGA- Peça em madeira, quadrada ou rectangular, onde é colocado o grão.
CALEIRA- Peça em madeira ou cortiça. Recebe o grão da moenga para o olho da mó.
TREMONHADO- Lugar para onde cai a farinha da mó.
ALQUEIRE- Medida em madeira que serve para medir os cereais.
TALEIGO- Saco em pano onde é transportado o grão ou a farinha.
MAQUIA- Parte retirada para o moleiro. Corresponde ao pagamento do seu trabalho.
TREMONHA OU QUELHO- Peça de madeira colocada no fundo da moenga.
RELA OU CHAMADOURO- Peça destinada a oscilar o quelho, para a queda do grão
SEGURELHA- Peça em ferro que suporta a mó “movente”.
VEIO- HASTE e PELA- Veio vertical que transmitia a rotação do rodízio à mó.
PENA (em Condeixa, chamada Badana)- Cada uma das hélices do rodízio.
PONTE- Barrote horizontal onde apoiava o aguilhão do rodízio.
TRAVE DO ALIVIADOURO- Veio vertical ligado à trave da ponte.
ALIVIADOURO- Manivela no interior do moinho, que comandava a ponte.
AGUILHÃO- Ponta metálica que apoiava o rodízio na zorra.

(a)-No volume “Tecnologia Tradicional Portuguesa-Sistemas de Moagem”, de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, afirma-se que o poeta islâmico se referia a Alcabideche, povoação do concelho de Sintra. Sem dados que me permitam formar opinião concreta, permito-me, no entanto, discordar de tal afirmação.

Quero deixar o meu agradecimento a António da Costa Pinto, fotógrafo condeixense, pela cedência das fotografias de moinhos e a Carlos Alberto Azenha, pelo empréstimo de livros que me facultaram a necessária informação técnica.

Condeixa, Abril de 2011
Cândido Pereira

terça-feira, 19 de abril de 2011

TEMPO DE RECORDAR

A palavra tempo é muito curiosa. Da forma como é usada, depende o sentido a entender. Se nos queremos referir à meteorologia, dizemos que o tempo está bom para a agricultura, porque choveu o tempo suficiente para regar os campos, mas está mau para quem tinha umas férias planeadas à beira-mar e não teve tempo para cancelar a marcação. Em termos desportivos então, a palavra assume designações complexas. O bom tempo não é bom para essas práticas, nomeadamente o futebol que é exactamente quando o tempo aquece que entra em defeso. Durante os noventa minutos do jogo (mais os descontos de tempo), também o factor tempo é muito importante. Se a nossa equipa está a ganhar, desejamos que o tempo passe depressa. Pelo contrário, parece que o tempo se esgota demasiado depressa.

Ainda há outro tempo! Aquele que já vivemos. Costumamos chamar-lhe bons tempos, embora por vezes, ao analisarmos bem, alguns desses tempos foram os piores da nossa vida. Até já cheguei a ouvir pessoas que passaram imensas dificuldades, inclusivamente fome, a dizerem “noutro tempo é que era bom”! Só se justifica a boa evocação, porque éramos mais novos.

Cá por mim, quando era novo tive as mesmas experiências de todas as crianças desse tempo. Vivi alegremente até dois meses antes de completar sete anos. Em Outubro, no dia sete, (sempre este místico número!), entrei para a Escola. E aí, começaram os sarilhos!

A Escola, no meu tempo, era algo complicada. Não na forma de aprender a tabuada, que a cantilena até servia de entretenimento: “Dois vezes um, dois; dois vezes dois, quatro; dois vezes três, seis…”, o Professor dizia e os cachopos repetiam, cadenciadamente. Já a cópia, com as letras arrumadinhas naquelas duas linhas paralelas do caderno, provocava reacções iradas do mestre, porque a escrita transbordava as linhas, ou porque a tinta tirada com o aparo metálico do tinteiro cerâmico colocado ao centro da carteira resolvia pingar nas folhas brancas, deixando feio borrão. Mas maçador, mesmo maçador, era aprender por onde viajavam os comboios, donde vinham e para onde iam os rios, saber o nome de todas as serras e serrinhas deste pequeno Portugal, que assim se tornava muito grande. As falhas deste importante conhecimento de cultura geral, eram punidas através do uso de maldita ripa que estalava dolorosamente nas mãos. Às vezes era tão fortemente utilizada que perdia toda a sua rijeza e quebrava-se de encontro às palmas bem evidentes, com os dedos virados para trás. No meu caso pessoal, ela teve pouca utilização, porque o mestre era mais adepto de uma boa chapada, dada a tempo, nas bochechas desprevenidas. No tempo das férias, havia tempo para tudo. Então nas Grandes, o tempo era enorme, porque multiplicado por dias e dias sem preocupações escolares, noites mais curtas porque a hora de fazer ó-ó passava a ser outra. Paradoxalmente, também parecia que o tempo passava a correr.

No meu tempo, dividíamos o tempo entre os jogos de futebol, à noite na Praça e os banhos tomados no tanque do Galaitas, no Marachão ou na Bajeira, junto à Quinta de S. Tomé. À luz dos actuais conhecimentos higiénicos, com as piscinas de água tratada, ainda é difícil compreender como era possível não apanhar doenças graves naquelas águas sujas, cheias bicharada de toda a espécie. No Marachão, as cobras de água picavam as pernas, e os alfaiates, animaizinhos que parecem aranhiços de longas pernas passeando levemente sobre a água, cobriam toda a superfície e obrigavam a gente a afastá-los para poder nadar. E bebia-se água por todo o lado! Nas fontes, se estavam à mão, mas também numa qualquer “rigueira”. Havia até uma cantilena destinada a purificar a água:”Água corrente, não mata gente, nem de noite, nem de dia, nem à hora do meio-dia, Padre-nosso, Avé Maria”. Depois da benzedura, podia matar-se a sede à vontade, que não havia micróbio incomodativo! Vá lá, de vez em quando aparecia uma dor de barriga com a consequente diarreia. Que se aliviava junto a qualquer muro, sem usar papel higiénico (quem sabia o que era isso?), servindo as ervas para o efeito. O pior é se vinha juntamente alguma urtiga!

As brincadeiras prosseguiam sem cuidado. Vícios, não havia. Claro, aqui não se contam os “cigarros” de barba de milho fumados às escondidas! Apenas nos podiam acusar de roubo de fruta pelos quintais. De vez em quando, lá havia um assalto às laranjas alheias ou aos melões madurinhos escondidos sob uma camada de palha.”Crimes” menores, executados mais pelo espírito aventureiro. Aventura, era o maior incentivo à imaginação dos miúdos. Sem as formas de diversão actuais, apenas restava o recurso a expedientes que mantivessem ocupada a energia da juventude. Sempre “no fio da navalha” mas nunca ultrapassando os limites do aceitável, éramos crianças sem problemas sociais. Nem a ida de vez em quando ao posto da guarda manchava a reputação, porque motivadas pela transgressão das jogatanas na Praça. Já mais “velho” (aí com 17 ou 18 anos!) fomos um dia chamados ao posto no fim de um cortejo de carnaval que organizámos. Parece que as frases usadas num determinado cartaz estavam fora dos parâmetros exigidos pela censura. Coisa de pouca monta, castigada com monumental reprimenda e consequente lição de moral e bons costumes.

A vontade de realizar coisas levava por vezes à assunção de projectos superiores às nossas forças. Recordo, por exemplo, as festas dos Santos Populares, que tiveram lugar na Quinta de S. Tomé. O Clube de Condeixa promoveu em 1950 grandes festejos no Campo dos Silvais (actual Casa de Saúde Santa Isabel). Nesse tempo de parcas diversões, uma realização de tamanha monta teve repercussão para além dos limites do concelho. O vasto programa (como se pode ver na reprodução do cartaz), movimentou Condeixa de maneira inesquecível. Nos anos seguintes, outros festejos de menor dimensão tiveram efeito. Mas a memória ficou sempre ligada aos “Grandiosos Festejos”. Os garotos de 1950, seis anos depois e já homenzinhos, deitaram ombros a uma empreitada que suplantasse o êxito anterior. Conseguida a autorização para utilizar a Quinta, que tinha singulares condições para este tipo de eventos, visto ser totalmente vedada, cinco aventureiros deitaram mãos à obra. É justo recordar os nomes: António Aires; Luís Pocinho; Joaquim Fontes e Joaquim Jacinto. O quinto elemento era eu.

É já difícil, mesmo para gente de outro tempo, imaginar o espaço envolvente da Quinta. Isolada no meio de terrenos férteis e rodeada de água, tinha três acessos às terras que outrora lhe pertenciam. Um desses caminhos chamava-se Serrada. Partia da Quinta até se encontrar com a Avenida Visconde de Alverca. Ladeado por sebes de buxo, tinha a meio uma grande eira de piso rígido e cobertura parcial (cerca do local onde actualmente estacionam os circos). Habitações, poucas, depois da casa do Capitão Alves (onde hoje é a Policlínica de Condeixa). Sem casas, também não existia iluminação pública. Um grave problema para a realização dos festejos. Não vale a pena descrever o trabalho insano de colocar postes de madeira ao longo de cerca de 500 metros, os respectivos fios e as lâmpadas para iluminação do caminho. Lá dentro, estava tudo que nem um brinquinho! Nos arcos onde passava o rio e as mulheres do campo punham as canastras com tremoço a demolhar, ficou instalada a tasca. No celeiro, sob a árvore de tília, o bar com esplanada e, sobre o rio, o pavilhão com espaço para a orquestra.

Para recompensar o imenso trabalho realizado, só faltava a adesão do público. No dia 12 de Junho, era grande a ansiedade do bilheteiro, junto ao portão principal, aquele que deita agora para a rotunda. Seria que os dez contos (muito dinheiro, em 1956!) gastos até ao momento, teriam retorno? O programa era aliciante: Ranchos Folclóricos e Orquestra para o baile, quermesse e barracas de “comes e bebes”. Embora o dia de abertura das festas calhasse à terça-feira, a afluência não foi má de todo, porém longe das expectativas. Pensámos: “a coisa vai melhorar nos restantes dias”. Mas não! Os tempos eram difíceis, o dinheiro não abundava e as coisas arrastaram-se sem grandes melhoras. Já fazíamos contas à vida, quando subitamente recebemos uma carta que nos pôs em alvoroço: a Empresa de Espectáculos de Alberto Ribeiro propunha realizar um espectáculo no nosso recinto. Da nossa parte, apenas devíamos proporcionar condições logísticas e eles faziam o resto, inclusivamente tomar conta da bilheteira. Do resultado desta, seria para nós determinada percentagem. Claro que aceitámos imediatamente. E assim foi! No dia 25 de Junho de 1956, um programa recheado de artistas de renome, com fama nos programas de rádio e Serões para Trabalhadores. A televisão só chegaria mais de um ano depois, mesmo assim toda a gente conhecia as canções desses artistas e, no caso especial de Alberto Ribeiro, não só as canções mas também a imagem de galã de cinema, ao lado de Amália Rodrigues.

 

O resultado da bilheteira compensou largamente o investimento feito, cobrindo todas as despesas, de forma que os restantes dias do programa serviram apenas para cumprimento do compromisso assumido. Repito, assumido estoicamente pelos promotores, sem qualquer subsídio. A nossa responsabilidade foi ao ponto de declarar que os lucros seriam totalmente entregues ao Clube, mas em caso de prejuízo, seriamos nós a comportá-lo. Jovens de vinte anos! Rapazes que podiam comodamente esperar a realização das festas por qualquer entidade que a isso se propusesse. Outros tempos!

Um tempo de juventude que se ía rapidamente esgotando a caminho de outras responsabilidades mais sérias. A tropa, primeiro, o emprego e o casamento, depois.

Agora, no fim do tempo, é altura de rememorar esses bons tempos, que afinal não foram maus de todo!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Crónicas de um tempo passado -O Robot do Professor Merlim

Considerações do autor (armado em dramaturgo)
Decorria a década de 1980. A CEE instalara-se em Portugal e os subsídios para “projectos” começaram a “chover”. Toda a gente se candidatava e os “chicos espertos” aproveitavam-se à fartazana. Só mais de duas décadas depois é que começámos a ter a consciência de quanto isso nos ia custar.
Na RTP passavam séries como “Knight Rider”, com David Hasseldorff mais o carro que falava, e o “MacGyver”, com as mirabolantes invenções. A chamada Guerra Fria, continuaria ainda por algum tempo a movimentar três potências: União Soviética; China e Estados Unidos.
Nos Bombeiros Voluntários de Condeixa, foi criado um Grupo de Teatro. Para estreia, escolheu-se a comédia de costumes “Frei Thomaz”, de Chagas Roquete. Com o fim de participar na festa de Natal dos Bombeiros, escrevi uma pequena farsa, que intitulei “ O Robot do Professor Merlim”. Invenções, espionagem e investigações burlescas, são o menu animado desta brincadeira.

O ROBOT DO PROFESSOR MERLIM


1º Quadro
(a cena representa o laboratório de um cientista: aparelhos eléctricos, muitos mostradores com ponteiros, algumas retortas e uma banca. As ferramentas utilizadas, serão de dimensões exageradas. Na EB está o cientista a trabalhar na montagem do Robot. Na DA, uma porta)
XINTÓ- (entrando) - Boa tarde, Professor Merlim!
MERLIM- Pim-Pim!
XINTÓ- Não percebo…
MERLIM- Professor Merlim Pim-Pim, é o meu nome. Tu só me chamaste Professor Merlim!
XINTÓ- Tem razão, desculpe, não me lembrei…
MERLIM- Mas devias ter-te lembrado! Fica sabendo que Pim-Pim, o meu apelido, é uma espécie de título honorífico, isto é, Sua Excelência deu-me esse nome porque quando acabo mais um dos meus importantes inventos, dou sempre duas pancadinhas assim: pim-pim! (demonstra)
XINTÓ- Ah! Agora compreendo porque quer que o chamem sempre Professor Merlim Pim-Pim. E a propósito, quando é que dá as duas pancadinhas no Robot?
MERLIM- Ainda falta um bocado! Construir um Robot, não é fácil! Primeiro, temos de fazer o tronco, onde estão os aparelhos e os motores que o vão movimentar. Depois, colocamos a cabeça…
XINTÓ- A cabeça? Não me diga que o Robot também tem cabeça, olhos, nariz, orelhas…
MERLIM- Claro que tem tudo isso! O meu Robot é especial. Tem olhos para ver por onde vai, nariz para captar os cheiros e proceder conforme, por exemplo, se cheirar a queimado acciona um dispositivo ligado directamente aos bombeiros. E tem orelhas, ou melhor, dois potentes microfones capazes de ouvir o som de um alfinete a cair no chão.
XINTÓ- Ena pá! Mas isso é um Robot muito completo!
MERLIM- Evidentemente! De resto, se fosse um vulgar Robot, não se justificava que um sábio como eu perdesse o seu precioso tempo. Mas há mais! A minha última e importantíssima invenção…
XINTÓ- Então qual é, qual é?
MERLIM- Não te posso dizer. É “Top secret”. Não calculas a quantidade de espiões que anda por aí para me roubar esse invento!
XINTÓ- Ó Professor Merlim…
MERLIM- Pim-Pim!
XINTÓ- Desculpe! Ó Professor Merlim Pim-Pim, não está a exagerar com essa do Top…Top…
MERLIM- “Top Secret”!
XINTÓ- Top…isso. Espiões, inventos secretos?
MERLIM-É que tu não sabes qual é a dimensão desta minha obra genial. Só te posso dizer que todos os Robots construídos até agora, são vulgares montes de lata ao pé do meu super invento!
(durante este diálogo o cientista foi montando o aparelho. Nesta altura da conversa, já o Robot está pronto, embora não se movimente) - Pronto, agora só falta colocar o CD especial e temos o Robot a trabalhar em toda a sua plenitude!
XINTÓ- Pleni…quê?
MERLIM- Plenitude! Quer dizer, a pleno. Ou seja, completamente pronto, utilizando toda a potencialidade!
XINTÓ- Ena! O que para aí vai! O Professor também está sempre a dizer palavras difíceis! Porque é que não diz assim: “Pronto, agora está a trabalhar em caroços de azeitona!”
MERLIM- Não pode ser! Se os sábios falassem como as outras pessoas, como é que se ia saber que são sábios?
XINTÓ- Quer dizer que o Robot está pronto? Então ligue-o para eu ver essa maravilha a trabalhar…
MERLIM- Já te disse que falta colocar o meu invento ultra-secreto, “Top secret”. Mas antes disso vou chamar Sua Excelência para proceder à inauguração solene.
XINTÓ- Ó Professor Merlim Pim-Pim, porque será que todas as inaugurações têm de ter a presença de Excelências?
MERLIM- És muito ignorante! Então, para que é que nós precisávamos de Sua Excelência, se não tivéssemos de o convidar para todas as inaugurações solenes? Mas não percamos mais tempo. Ainda tenho de me vestir solenemente. Anda daí tu também. (saem)
(Entram dois espiões. Um, tem óculos escuros, um gorro de pele e botas altas. O outro também tem óculos escuros, é baixinho e usa um barrete cónico. Entram com ar cauteloso, espreitando para todos os lados).
PEPINOFF- Não está aqui ninguém Vamos a trabalhar depressa e roubar o invento do Professor Merlim!
LIN-PÓ-PÓ- Pim-Pim!
PEPINOFF- O quê?
LIN-PÓ-PÓ- Merlim Pim-Pim! É como se chama o professor. Esse título foi-lhe dado…
PAPINOFF- E tu que não viesses com as chinesices! Importa-me lá que seja Pim-Pim ou Pom-Pom. O que eu quero é o invento!
LIM-PÓ-PÓ- Queremos! Ou já te esqueceste que somos sócios?
PEPINOFF- Claro, claro! Eu ia lá esquecer-me de uma coisa dessas! Mas deixemos de conversa fiada. Vê tu se chega alguém, que eu vou buscar o invento. (dirige-se ao cofre. Neste momento, surge Magáveas, o célebre espião)
MAGÁVEAS- Alto lá, seus espiões das dúzias. Não vão roubar invento nenhum, porque eu não deixo!
PEPINOFF-Ora viva quem é uma flor! Eu já estava admirado de o grande Magáveas ainda não ter aparecido. Se quiseres, também podes entrar na sociedade!
MAGÁVEAS- Sociedade? Qual sociedade?
LIM-PÓ-PÓ- Eu e o Pepinoff fizemos um contrato: roubamos o invento, vendemo-lo e repartimos os lucros.
MAGÁVEAS- Vendem a quem? Já viram que as grandes potências estão aqui todas representadas?
PEPINOFF- Ora, vendemos aos portugueses! Agora, com o dinheiro da “Se é és”, eles compram tudo o que lhes impingem!
MAGÁVEAS- Não está mal pensado, não senhor! Vamos lá então ao cofre buscar o tal invento.
(Neste momento apagam-se todas as luzes. Ouvem-se ritos e imprecações. Quando a luz volta, os três estão junto ao cofre que se encontra aberto)
PEPINOFF- (para Magáveas) -Passa para cá o invento!
MAGÁVEAS- Passo o quê? Tu estás maluco! Eu cá não roubei nada! (Olham ambos para Lim-Pó-Pó)
LIM-PÓ-PÓ- Não estejam a olhar para mim com essa cara porque não fui eu quem tirou essa coisa!
PEPINOFF- (puxando por um pistolão) -Ai não foste? Pois não sai daqui ninguém sem que isso apareça!
MAGÁVEAS- Se julgas que me assustas, estás enganado. Eu já sou espião de rabo pelado! (retira do bolso um facalhão).
LIM-PÓ-PÓ- (que está no meio dos dois) - Ai minha rica mãezinha! Virem para lá essas coisas, que sou muito novo para morrer!
(apaga-se novamente a luz. Gritos, tiros e alguém que diz: “agarra que é ladrão”. Quando de novo há luz, os espiões desapareceram. O Professor vem a entrar, já em traje de cerimónia, acompanhado de Xintó)
MERLIM- (como a continuar uma conversa) - Bem se vê que não percebes nada de política! Sua Excelência não vai lá fora fazer inaugurações, mas sim pedir dinheiro para as inaugurações que faz cá dentro. Percebes?
XINTÓ- Mais ou menos. Ó Professor Merlim…
MERLIM- Pim-Pim!
XINTÓ- Isso! Ó Professor Merlim Pim-Pim, não pode fazer assim uma inauguração a fingir, só para eu ver como funciona o Robot?
MERLIM- Claro que posso, e é isso mesmo que vou fazer. Mas fica sabendo que não se diz “inauguração a fingir”. Em termos científicos, chama-se “Sessão experimental”! Vamos então a isso. Vou só ao cofre buscar o invento para colocar no Robot. (dirige-se ao cofre, mas ao ver que ele está aberto, dá um grito e desmaia)
XINTÓ- O que foi, Professor? Então não querem lá ver? Deu-lhe uma coisa assim de repente e morreu! (observa o sábio) - Não está morto, está apenas desmaiado. Mas como vou acordá-lo? O melhor é telefonar aos bombeiros. (telefona) - Está? É dos bombeiros? Mandem depressa uma ambulância a casa do Professor Merlim. Pim-Pim! Sim, esse! Está bem, eu espero. Mas não se demorem muito! (quase de imediato aparecem dois bombeiros com uma maca) - Ena, que isto é que é rapidez! Qualquer dia nem é preciso telefonar, para vocês aparecerem! Cuidado! Transportem o Professor com cautela, porque ele é muito precioso! (saem todos, menos Xintó.
XINTÓ- Agora vamos lá a ver porque é que o Professor desmaiou. (vê o cofre aberto) - É claro! Roubaram aquela coisa top…isso! Mas quem teria sido? Afinal, parece que ele tinha razão quando disse que andavam por aí muitos espiões! Calma, Xintó! Esta pode ser a tua grande oportunidade. Armas-te em investigador, descobres o invento e tens o futuro garantido como detective. Até já estou a ver o título dos jornais: “O grande detective, Inspector Xintó, descobre o famoso invento que foi roubado ao Professor Merlim Pim-Pim e desmantela rede internacional de espiões”. Até pode ser que Sua Excelência me condecore com a Grã…Sim, porque isto de descobrir espiões, não é coisa que aconteça todos os dias! E depois, eu não sou menos que os outros que a receberam! Só que vou precisar de ajuda. Quem há-de ser? Olha, está ali o meu amigo Zé Tola, o aluno mais esperto da Escola! Vem mesmo a calhar. (chama) - Zé Tola! Hei! Zé Tola! Chega aqui, se fazes favor. (Zé Tola vem do lado do público).
ZÉ TOLA- Viva, Xintó! Queres alguma coisa de mim?
XINTÓ- Pois claro que quero. Andam para aí uns espiões que roubaram um invento muito importante ao Professor e eu quero ver se os encontro. Estás disposto a ajudar?
ZÉ TOLA- Isso nem se pergunta! Mas é tão importante esse invento do Professor Merlim?
XINTÓ- Pim-Pim!
ZÉ TOLA- Não percebo…
XINTÓ- Nunca te esqueças de dizer Merlim Pim-Pim! É assim que o Professor quer que o tratem. Sabes, foi Sua Excelência quem…
ZÉ TOLA- Eu já sei essa história, não vale a pena perderes tempo. Estava a perguntar se o invento é assim tão importante?
XINTÓ- Olha, se é ou não importante, não sei. Só sei que o Professor lhe chama Top…Top.
ZÉ TOLA- Top-Secret?
XINTÓ- Isso! Já vês que é importante! De resto, nem se justificava que um sábio tão grande perdesse o seu tempo com coisas sem importância, nem era lógico que andassem tantos espiões à procura de um invento vulgar!
ZÉ TOLA- Tem razão. Então, que vamos fazer?
XINTÓ- Sei lá… ou melhor, sei, pois claro que sei! Ou não fosse eu o grande detective Inspector Xintó!
ZÉ TOLA- Inspector? Tu? Não me faças rir! Ah! Ah! Ah!
XINTÓ- Não sei porquê! Afinal, para ser detective basta apenas ser-se inteligente, dinâmico e perspicaz. Eu acho que tenho todas essas qualidades, modéstia aparte. E tu, como meu amigo, devias apreciar-me melhor e não troçar dessa maneira…
ZÉ TOLA- Tens razão. Desculpa lá, mas achei piada a essa de Inspector Xintó. O que é que achas que vamos fazer? Chamamos a polícia?
XINTÓ- Isso é a última coisa a fazer! Para já, vamos ver se encontramos por aqui alguém suspeito. Vai tu por esse lado, que eu vou por este. Boa sorte! (saem pela plateia).
2º Quadro
(ao abrir o pano, está o cientista ao telefone e tem sobre a cabeça um grande saco com gelo)
MERLIM- Sim… e diga a Sua Excelência que não se pode fazer a inauguração solene do meu Robot. Porquê? Porque me roubaram o invento! O que era o invento? Não posso dizer, é ultra secreto. Top-Secret! Quer dizer, era! Agora já não é! Pelo menos para quem o roubou…não, roubou, do verbo roubar! Então, até depois. E apresente as minhas desculpas a Sua Excelência!
(neste momento dá-se grande burburinho na sala. Xintó e Zé Tola descobrem os espiões Pepinoff e Lim-Pó-Pó trazendo-os até ao palco).
XINTÓ- Pronto, Professor Merlim Pim-Pim! Aqui estão os ladrões do seu invento!
MERLIM- Foram então vocês que roubaram a minha preciosa criação?
LIM-PÓ-PÓ- Eu cá não roubei nada! Só se foi aqui o Pepinoff ou até o Magáveas!
PEPINOFF- Está calado! Não sabes que é feio fazer queixinhas?
MERLIM- Quer dizer então que o célebre Magáveas também está metido na marosca? Sendo assim, temos de ter muito cuidado, que ele é capaz de tudo.
XINTÓ- Ó Professor, e se a gente armasse uma ratoeira ao Magáveas? Prendemos estes dois e quando ele tentar salvá-los, caçamo-lo também.
MERLIM- Bravo, Xintó! Sabes que estou a gostar muito do teu raciocínio. Pareces um detective!
XINTÓ- Pareço, não! Eu sou o Inspector Xintó, o mais destemido detective das redondezas! Mas não percamos mais tempo. Vamos lá prender estes facínoras!
PEPINOFF- Alto lá, amigo! Nós não somos facínoras. Somos respeitáveis espiões ao serviço de quem pagar melhor!
ZÉ TOLA- Deixem-se de conversas e venham para aqui. Vamos prendê-los com estas correntes aqui à janela. Traga um cadeado e cordas, Professor Merlim.
MERLIM- Pim-Pim!
ZÉ TOLA- Desculpe o esquecimento! (o Professor entretanto vai buscar as cordas e o cadeado e entrega a Zé Tola. Atam e prendem os espiões) -Pronto, agora vamo-nos esconder e esperar que o Magáveas apareça.
(saem. Quase de imediato surge o Magáveas. Os presos fazem-lhe sinal para não fazer barulho)
MAGÁVEAS- O que é que se passa aqui?
LIM-PÓ-PÓ- Faz pouco barulho. Eles preparam uma armadilha para te apanhar.
MAGÁVEAS- Ora! Ainda está para nascer o primeiro que apanhar o grande Magáveas. Mas, por segurança, vamos trancar esta porta. (fecha a porta) - Vocês parecem dois chouriços mal atados. (repara no cadeado) - Ó diabo, com esta é que eu não contava. Mas não há problema. Vamos arranjar maneira de tirar isto.
LIM-PO-PÓ- Está ali um…
MAGÁVEAS- Cala-te, deixa concentrar-me. Ora bem, vamos lá a preparar a pólvora. Preciso de encontrar enxofre. O Professor deve ter por aí. (procura) - Aqui está. Agora preciso de salitre. Esta parede tem algum (raspa a parede).
LIM-PÓ-PÓ- Mas é que está ali um…
PEPINOFF- Está calado! Não vês que interrompes a concentração do Magáveas!
MAGÁVEAS- Agora só preciso de um pouco de carvão em pó. Não há problema, vou raspar este lápis. E pronto! Tenho todos os ingredientes. Vou pisá-los neste almofariz para obter a pólvora que necessito para rebentar este cadeado.
LIM-PÓ-PÓ- Não será melhor aquele…
MAGÁVEAS- Está calado! Agora, cuidado que isto vai dar um estoiro! (acende a pólvora que rebenta e cai o cadeado) - Pronto, como vêem, cá o Magáveas tem solução para tudo!
PEPINOFF- (que continua preso ao companheiro pelas correntes e cordas) -Ouve lá, ó Magáveas, como é que vais tirar as correntes? Nem penses utilizar a pólvora!
MAGÁVEAS- Tens razão! Fazia-nos jeito era um serrote!
LIM-PÓ-PÓ- É o que eu estou a tentar dizer ao tempo e vocês não me deixam! Está um serrote em cima daquela banca!
PEPINOFF- Ó meu grande estúpido, e só agora é que falas? Magáveas, vai lá buscar o serrote depressa porque já se ouve o barulho deles. (Magáveas corta as correntes e desata as cordas. Fogem todos pela plateia. O Professor e os companheiros acabam por arrombar a porta)
MERLIM- Já cá não estão, conseguiram fugir. Bem dizia eu que o Magáveas é perigoso. De certeza foi ele o autor da fuga. Estou desgraçado! Agora é que nunca mais vejo o meu invento!
(entra em cena o filho do Professor. Vem com um leitor enorme de CD e os fones na cabeça) –
TONECAS- Desculpa, pai. Podes atender-me por um bocado?
MERLIM- Ai filho, vens em tão má altura!
TONECAS- Pronto, fica para depois… (faz menção de sair)
MERLIM- Não, diz lá o que queres.
TONECAS- É que o meu leitor pifou. Meti-lhe este CD e só dá guinchos…
MERLIM- (agarrando o CD) - Mas…é este…é este…
TONECAS- É este o quê?
MERLIM- É este o CD do meu invento! Aquele que me tinham roubado!
TONECAS- Eu não roubei nada! Este CD estava em cima da mesa da cozinha e eu pensei que era o que eu pedi à mãe para comprar!
XINTÓ- Tem a certeza, Professor, que é o seu invento?
MERLIM- Absoluta! Até está aqui o meu nome: Professor Merlim!
XINTÓ- Pim-Pim! Ainda bem que tudo acaba em bem! Quer dizer que agora já pode experimentar o Robot?
MERLIM- Sim! Era só isto que faltava para o pôr a funcionar. Vamos lá fazer “A sessão experimental”! (durante esta fala, coloca o CD numa ranhura e prepara-se para ligar um botão)
XINTÓ- Espere lá, Professor! Não acha que falta qualquer coisa?
MERLIM- Não! Agora está tudo em ordem. Só falta fazer a ligação!
XINTÓ- Então o Professor não disse que sempre que termina um dos seus importantes inventos, dá sempre duas pancadinhas, assim: Pim- Pim!
MERLIM- Ai! É verdade! Onde é que eu tinha a minha cabeça! Também, com esta barafunda toda, não admira! Vou então dar as minhas célebres pancadinhas! (pega num grande martelo e dá duas pancadas no Robot. Este, agita-se, acende e apaga várias luzes e levanta-se)
ROBOT- Pronto, meu amo! Os seus menores desejos são ordens para mim. Mande que eu obedeço!
XINTÓ- Olha que engraçado. Parece o génio da lâmpada mágica do Aladino!
MERLIM- É como se fosse! Dei-lhe esta característica porque sempre gostei muito dos “Contos das mil e uma noites”. Querem ver como ele é obediente? Génio, vai buscar vinho do Porto para comemorar a tua inauguração!
ROBOT- Sim, meu amo! (vai buscar a garrafa e cálices ao armário).
MERLIM- E agora, meus amigos, nesta “Sessão inaugural” do meu Super-Robot, visto que a inauguração oficial vai ser feita por Sua Excelência, aproveito o facto de estarem aqui todos vocês a quem dedico uma especial amizade, para lhes fazer uma demonstração das potencialidades do meu invento. Como estão vendo, aparentemente é um vulgar robot. No entanto, graças ao meu extraordinário génio inventivo, possui características especiais. . Estou até a pensar em aplicar esta técnica à indústria automóvel. Por exemplo, um carro equipado com este invento, seria capaz de andar sozinho, conversar com o condutor, enfim, fazer uma série de operações nunca vistas!
ZÉ TOLA- Ó Professor Merlim…
MERLIM- Pim-Pim!
ZÉ TOLA- Isso! Desculpe Professor Merlim Pim-Pim, então não existe já um carro com estas coisas todas? Eu já o vi na televisão. Chama-se Kit!
MERLIM- Kit? Eu bem dizia! Roubaram-me o invento! Quem descobriu isso tudo, fui eu! Roubaram-me! Estou roubado!
MAGÁVEAS- (surgindo da plateia acompanhado por Pepinoff e Lim-Pó-Pó) - Alto lá, quem tem o direito de roubar alguma coisa, somos nós, profissionais. E até agora não fomos capazes de roubar sequer uma banana. Estamos cheios de fome!
XINTÓ- Então vocês tiveram o descaramento de aqui voltar?
PEPINOFF- Pois tivemos! Ouvimos falar em roubo e viemos saber se é connosco.
ZÉ TOLA- É claro! Para ladrões como vocês, roubar soa como chamamento, não é?
LIM-PÓ-PÓ- Tá visto! Mas afinal nós temos aqui qualquer coisa para roubar…
MAGÁVEAS E PEPINOFF- O quê?
LIM-PÓ-PÓ- Não vêem que já está pronto o Robot do Professor Merlim?
TODOS- Pim-Pim!
LIM-PÓ-PÓ- Isso! Portanto, vamos levar o Robot. Depois de vendido para a sucata, sempre dá para comprar umas sandes e umas bujecas. Não vamos sair daqui com as mãos a abanar!
MERLIM- Ai isso é que vocês não levam! O meu rico Robot custou muito a construir!
(entretanto disfarçadamente Magáveas esteve a fazer um jogo com espelhos e luzes) -
MAGÁVEAS- Pois se nós não o levamos, também não é para ninguém. Já activei um processo que vai fazer este laboratório arder e explodir! (em cima da banca começa um pequeno incêndio)
MERLIM- Nisso é que tu estás enganado. O meu Robot tem um sistema de detecção de incêndios ligado ao Quartel dos Bombeiros e neste momento, eles já estão a chegar. (Barulho de sirene. Os espiões fogem com a barafunda. Entram os bombeiros e apagam o fogo. Termina a pantomina!)