O título é enganoso, pois presume que os condeixenses tinham hábitos higiénicos diferentes de toda a gente, o que não é verdade. Ainda nos anos quarenta do século XX, vi em Lisboa os moradores de algumas ruas (pelo menos as menos expostas) lançarem das janelas embrulhos de jornais que se estatelavam na calçada espalhando o conteúdo por todo o lado, e que aí ficava até à passagem do varredor. Se recuarmos um pouco mais na época, era comum o grito “Aí vai áuga”, aviso de quem imediatamente atirava para a via pública o líquido emporcalhado.
Em Condeixa, terra de muitos ribeiros, nada melhor para transportar a porcaria produzida diáriamente. E quando falo em porcaria, refiro-me quase exclusivamente à que a função digestiva considerava inútil ao bom funcionamento do organismo. Porque a outra era aproveitada, quer para alimentar porcos e galinhas, quer para aumentar o monte de estrume para adubar as terras. Aliás, todos os detritos organicos faziam parte dessa forma de obter nutrientes para o solo arável. Na falta de retretes (eufemisticamente designadas agora “casas de banho”), o depósito dos penicos caseiros juntava-se ao monte onde já estava o resultado da limpesa das capoeiras e coelheiras que todas as casas possuiam. E, se nas habitações do povo assim acontecia, nas casas ricas só diferia porque o trabalho era executado pelos serviçais. O resultado, no fim de contas era o mesmo. Conheci bastante bem três dos palácios da vila. Em todos, as casas de banho resultaram da adaptação de antigos quartos ou dependências com dimensões adequadas à nova função. Quer dizer, nenhuma dessas moradas senhoriais foi construida privilegiando instalações sanitárias. No Palácio dos Figueiredos, actuais Paços do Concelho, ao fundo do corredor da ala sul existia um pequeno compartimento onde, no meio de um estrado de madeira havia um buraco ligado directamente às cavalariças e de onde eram vertidos os detritos que caiam mesmo em cima do monte de estrume. Mais tarde, já no tempo de Artur Barreto, este aproveitou um quarto da mesma ala sul e adaptou-o a casa de banho, mas expressamente dedicado a esta função. O tal compartimento sobre as cavalariças continuou a ser usado, agora ligado ao cano que conduzia a uma linha de água, porque as cavalariças deixaram de ter essa função e passaram a... armazém de mercearias!
É curiosa a maneira como um subdelegado de saúde do século dezanove propunha a solução do problema sanitário. A obra “Subsídios para a História de Condeixa”, de Fernando Rebelo e Isac Pinto, conta-nos como foi, numa carta enviada ao Vice-Presidente da Câmara, Wenceslau Martins de Carvalho, em 13 de Agosto de 1898, pelo Subdelegado de Saúde de Condeixa:
“O assunto para que V. Exª. chama a minha atenção, é de tal modo importante e presta-se a tão longas considerações que mal cabiam elas nos limites de uma simples resposta a ofício. É muito para lastimar que Condeixa, a qual pelas suas condições topográficas poderia ser uma população modelo com relação à sua limpeza e à sua higiene, esteja desde há muito tanto e tão descurada nesse sentido, parecendo até ter sido votada a um ostracismo completo. Condeixa, disposta num declive em forma triangular, apresentando a base desse triângulo na sua parte superior, pela qual poderia entrar a água a jorros por diferentes pontos e percorrer toda a povoação, vindo sair no seu ponto inferior onde está colocado o vértice do triângulo, encontraria em si todas as condições de lavagem perfeita e de limpeza completa, se fosse envolvida por um sistema de canos de esgoto por onde a água pudesse circular à vontade. Realizada essa rede de esgotos, o canto de saida de todos os detritos não podia deixar de ser o cano construido na Rua da Assunção que faz parte da estrada municipal de Condeixa ao Casal da Légua, a desaguar ao fundo da ladeira do Amparo e, como principio de um sistema de esgotos que a Exª Câmara diz tenciona levar a efeito, não pode deixar de ter uma importância e vantagens incontestáveis para a higiene desta povoação. Dos três pontos diferentes em que poderia ter lugar a abertura de saida deste cano- Vala da Lapa, Regueira Pública de Condeixinha e Várzea de Condeixinha- é este o único ponto possível perante a higiene em que pode ter lugar esse desaguamento. A Vala da Lapa, recebendo já no seu percurso bastantes detritos que, entrando em decomposição, vão encher de miasmas todo o bairro da Lapa e Travaz, não pode nem deve receber a mais os que lhe viriam do cano de receptáculo de toda a povoação; e nem este fim pode ser preenchido pela Regueira Pública de Condeixinha que, atravessando a descoberto toda a comprida rua de Condeixinha iria mimosear os habitantes de toda aquela àrea, com um extenso e comprido foco de infecção; a Varzea de Condeixinha, extenso campo, longe da povoação e separada dela por lindos e magníficos pomares, seria o único ponto admissível para a boca de saida dum cano de esgoto geral e aquele que a higiene aconselharia, rejeitando por completo os outros dois. Sobre isso, repito, muito haveria a dizer, mas termino aqui as minhas considerações, concuindo que é toda a vantagem, debaixo do ponto de vista higiénico, o cano feito com o princípio dum sistema de esgoto e que a boca de saida, colocada ao fundo da ladeira do Amparo desaguando nos campos da Varzea, tem uma supremacia higiénica evidente sobre os outros dois citados sítios. Mas quando o cano em questão não fosse suficiente para dar saida às águas de lavagem, ou a qualquer enxurrada intempestiva, fácil seria abrir canos de derivação para aqueles pontos, ampliando assim a rede de esgotos e, bem mereceria do município a vereação que levasse a efeito obra tão útil e humanitária”.
Nesta interessante carta, há vários e importantes pontos a considerar. Em primeiro lugar, a constatação daquilo que já referi, a intenção de utilizar as linhas de água como principal condutor dos detritos de toda a vila, o que veio a acontecer exactamente como o profissional da saúde propunha. Muitos anos passaram com esse sistema de drenagem. Foi já no final do século vinte que Condeixa instalou a central de saneamento e estação de tratamento de esgotos.
Segundo ponto, a Vala da Lapa é a linha de água que deriva do Caldeirão, junto à Quinta de S. Tomé, passa pela Rua da Água, Rio do Cais e segue pela vertente sudoeste de Condeixinha, Pelomes, Lapa, Entre-Moinhos, Travaz e as terras planas do Espírito Santo, Ribeira, etc. Imagine-se a quantidade de casas abrangidas por este ribeiro! Todas a despejar continuamente lixo para a água! Não admira, pois que, já no século dezanove o responsável pela saúde pública entendesse que “vão encher de miasmas...”.
Em terceiro lugar, a solução preconizada por esse responsável, de considerar a Varzea de Condeixinha, com “os seus agradáveis e magníficos pomares”, ponto de recepção dos despejos de parte importante da vila é, no mínimo, curiosa.
Mas o plano foi adiante e, durante um século, constituiu a drenagem possível da terra. A Varzea e Condeixinha tiveram de aceitar o esterco que outros faziam. O “extenso campo, longe da povoação”, cada vez foi ficando mais perto, obrigando os pobres moradores a suportar o “foco de infecção” desviado do Travaz.
Se em sistema de esgotos a Condeixa de outros tempos era assim, a higiene corporal condizia com a situação. A lavagem corporal estava restringida ao “banho semanal”, que era efectuado numa larga bacia de zinco onde a água, trazida a custo de uma fonte ou poço, servia para lavar quase uma família inteira. Primeiro cada familiar lavava o tronco e a cabeça, e só depois desta fase se passava à seguinte, a lavagem do resto do corpo. Isto, se as condições da água o permitissem!
Estes factos são tão surrealistas, que parecem pura invenção. Porém, compreenda-se que o conceito de higiene era muito diferente de agora.
Já noutro local do meu blogue fiz referência ao Tanque do Galaitas, no Paço, como local privilegiado para a higiene dos homens e rapazes de Condeixa, até meados do século XX. A inauguração do sistema de abastecimento domiciliario de água, em 1950, veio terminar com as práticas colectivas de banho. Agora sim, as casas dispunham de água limpa a correr das torneiras. Pouco a pouco, melhoraram os hábitos, felizmente. As habitações foram adquirindo espaços destinados à higiene.
Porém, a rede esgotos continuava a “desaguar” nos ribeiros. O aumento de utilização da água e o progressivo abandono da recolha de residuos para estrumar as terras, motivou o aparecimento das famigeradas fossas sépticas, o que contribuiu para contaminar as linhas subterrâneas de água. As fontes deixaram de poder matar a sede a quem passa, porque as suas águas ficaram impróprias para consumo. E se eram agradáveis as fontes de Condeixa!De água fresquíssima, mesmo em tempo de prolongado estio, poucas foram as que secaram. Condeixa tinha várias fontes, cada uma com as suas próprias caracteristicas. Em Condeixinha curiosamente a Fonte das Bicaspossui apenas uma saída de água. Num outro local do meu blogue “Lugares de Condeixa-Condeixinha” descrevo as razões que motivaram a mudança do local da fonte, então com três bicas, para onde agora se encontra e a remodelação a que foi sujeita em 1930.
Na Faia (R.D.Elsa Franco Sotto Mayor) existiu uma fonte, inexplicávelmente designada Fonte da Caraça
. Localizada em frente às instalações da Casa do Povo, ficava em plano inferior ao nível da estrada. Possuia um lindo painel de azulejos que foi retirado quando a fonte foi desactivada e não se sabe onde foi parar.
No Outeiro, descendo para as terras do Paraíso, sem qualquer adorno, surge um cano a sair do muro. É a Fonte do Outeiro
com a água a ser aproveitada para o lavadouro, escorrendo depois em regueira abençoada a alimentar as pequenas, mas produtivas hortas. Daí, certamente, a designação de Paraíso.
Já a fugir da vila, no meio-termo a caminho da Barreira, a Fonte dos Amores
, lindo local outrora rodeado de altas nogueiras que lhe conferiam o estatuto de espaço fresco e agradável. Possui ao lado um tanque de pedra que recebe a água das bicas e servia para dessedentar os animais vindos da Feira dos Quatro, na Barreira. Por ser local recatado, era também preferido pelas moças no encontro com os namorados.
Longe também, nas ricas terras das Fontaínhas, uma gruta de estalagtites orlada de avencas, a Fonte da Costa, com a água muito fresca a brotar do seio de areia branca. E, mais adiante, ao fundo da ladeira da capelinha da Senhora da Lapa, a Fonte da Lapa
com o seu belo painel de azulejos.
Eram as Fontes de Condeixa, tantas vezes citadas pelos poetas locais. Ramiro de Oliveira e Álvaro Pedro Augusto escreveram uma letra para canção, afinal uma ode às lindas fontes:
Se vais à fonte sozinha
Olhas tanto para trás
Que quebras a cantarinha
A pensar no teu rapaz
Se quebrar o meu asado
Santo António vou jurá-lo
A pensar no namorado
É capaz de consertá-lo!
Não corras cachopa
Que eu te quero falar
Co’a pressa até podes
O asado quebrar
Olha lá não quebre
Ora diz-me então
Palavras que alegrem
O meu coração!
Meu amor fazias bem
Se me desses, uns golinhos.
Na boca como também
Assim fazem os pombinhos!
Não corras cachopa...
Condeixa, Junho de 2011.
Cândido Pereira
sexta-feira, 10 de junho de 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
MOINHOS DE CONDEIXA
O tema em título merecia um trabalho bem desenvolvido, tratado com a importância que a existência dos cerca de 40 moinhos de Condeixa exige. Não tenho capacidade literária, nem suficiente informação para trabalho de tal monta. Mas, porque entendo que o assunto tem sido sistematicamente esquecido por quem o devia tratar, arrisquei escrever o presente artigo. Pelo menos, foi a maneira que encontrei para homenagear os nossos moleiros, embora da forma ligeira que o blogue apenas permite. 
Condeixa era das terras do país com mais moinhos. Não foi por acaso a escolha da padroeira, Santa Cristina, a romana mandada atirar ao mar presa a uma pedra de moinho, pelo próprio pai, por se recusar a renunciar a fé cristã.O milho, cereal primordial na alimentação, apenas surgiu na Europa depois das Descobertas, vindo do continente americano. No entanto, certamente antes do século XVI já existiam moinhos em Condeixa, nesse caso para moer outro tipo de grão, o centeio e o trigo. Mas o advento do milho criou um ritual que formou tradição nas nossas aldeias. Quando se fazia a colheita, as espigas eram reunidas num terreiro (eira) e à noite, após os restantes trabalhos agrícolas, juntava-se um grupo de homens e mulheres formando roda para a desfolhada (ou, como se dizia em Condeixa, “descamisada”), operação destinada a retirar a capa envolvente das espigas. Estas concentrações rurais constituíam verdadeira festa. Cantava-se ao desafio, contavam-se histórias e aproveitava-se o facto de haver pouca iluminação para se roubar um beijo à conversada. Júlio Dinis, na obra “As pupilas do Senhor Reitor”, retrata bem essa forma rural de viver os trabalhos do campo, em especial as desfolhadas.
Os moinhos, em algumas terras popularmente chamados “munhos”, concentravam-se ao longo de três linhas de água, sendo que uma delas, só desde a Quinta de S. Tomé até ao Travaz, a travessia da vila, possuía quinze engenhos.
Para a existência de moinhos, era necessária a água. E isso nunca aqui faltou!
(extracto do poema “A nossa grande casa azul” de Linda Glaser e Elisa Kleven)
Partilhamos a água
Salpicamos, chapinhamos e nadamos
Na água
E todos bebemos água
Baleias, golfinhos, manatins
Pinguins, palmeiras, tu e eu
Todos partilhamos a terra
A nossa grande casa azul.
A importância da água no planeta! No caso de Condeixa, fundamental para o seu desenvolvimento, quer na irrigação dos terrenos, quer na movimentação dos moinhos e lagares de azeite. Em termos de utilização em escala industrial mais ampla, existiu só uma exploração onde a água, vinda da “regueira de Santo António” era acumulada (tanque do Galaitas)e depois enviada por um canal de desnível, a accionar o rodízio que transformava a força hidráulica em força motriz,para o descasque de arroz. Esta fábrica, interessante exemplar da era da Revolução Industrial, desde muito cedo porém passou apenas a lagar de azeite.
RIBEIRA DE ALCABIDEQUE
Formada a partir da bacia de nascente que os romanos aproveitaram para recolher a água e enviá-la, através de longo aqueduto a fim de abastecer Conímbriga, tem também o seu caudal acrescido pela ribeira de Bruscos e o ressurgimento do Ramo. Logo a partir daqui começava o aproveitamento hidráulico.
No percurso, o rio encontra a Quinta de S.Tomé, importante exploração agrícola em tempos proprietária de meia Condeixa. Um canal entrava na propriedade murada para movimentar o moinho, juntando-se depois ao rio que contornava a Quinta em direcção ao nome que então adquire: Caldeirão. No começo deste, o boqueirão do Olho a regular o caudal, permite a existência de dois canais distintos, criados artificialmente para permitir a instalação de lagares de azeite e moinhos de grão. À esquerda, o ribeiro da Serrada alimentava três moinhos e um lagar, transformando-se depois em linha de água destinada a fins sanitários, acabando por ligar-se ao rio original a jusante. À direita, outro ribeiro mais farto, accionava vários moinhos no seu percurso até à vila, passando a descoberto na Rua da Água e na Praça, aqui a tomar o nome de Rio do Cais e a continuar, Condeixinha abaixo, a caminho do Travaz. Por sua vez, o Caldeirão movia lagares e moinhos e ainda tinha tempo para formar cascata no Cigano. Lá vai seguindo, mais suave nas terras baixas da planície poente, a caminho de caudais de outra dimensão. Dizia-se que o Caldeirão era um “braço de mar”. Provavelmente! Em tempos muito remotos, seria um rio de maré, tal como o Rio dos Mouros. As margens profundas assim o sugerem. A monografia “Condeixa-a-Nova” de Augusto dos Santos Conceição, na 2ª edição apresentada por José Maria Gaspar, referindo-se a Conímbriga, diz-nos “…Só no século XVI é que alguns escritores se referem às ruínas de Condeixa-a-Velha. Frei Bernardo de Brito escreveu então as mais fantasiosas referências acerca da sua fundação e da existência das suas ruínas. No século imediato porém, Miguel Leitão de Andrade não quis ficar por menos imaginoso, pelo que afirmou que em certo ano teriam aparecido na Conímbriga – que era porto de mar – numerosas naus, donde desembarcaram aguerridos inimigos a saquear a cidade e a desbaratar os seus habitantes…”, mas acerca disto, diz J.M.Gaspar em rodapé: “ A distância dalgumas léguas a que fica o mar e a própria ondulação do terreno, não depõem apesar do enorme tempo decorrido a favor de semelhante presunção; confirma-o não se encontrarem, a qualquer profundidade da terra, quaisquer vestígios marinhos. A verdade porém é que ali perto, no Lezeirão da Ega, há muitos fósseis de origem marinha quase à superfície da terra. No rio há o “Porto das Negras” e, cinquenta anos atrás ainda corriam entre o povo alusões a raptos e roubos feitos na região por barcos velozes e poderosos… ”. (Dados históricos apenas para justificar uma teoria. No local onde actualmente estão localizados os edifícios das Piscinas Municipais, Pavilhão Desportivo e Quartel da G.N.R., existiu em tempos muito remotos, uma lagoa com provável ligação ao mar, como se pode comprovar pelo extracto geológico do monte cortado na altura da construção do IC3. Terá sido por aí que chegaram as “numerosas naus”?)O desenvolvimento de Condeixa-a-Nova deveu-se principalmente, às muitas linhas de água que alimentam as terras úberes. Os terrenos vão-se estendendo em declive suave, evitando que as águas ganhem velocidade e mais depressa se misturem com o mar. Recuando ao tempo da fundação da nacionalidade, Afonso Henriques entregou as terras de Condeixa à guarda dos frades cruzios, com responsabilidade pelo repovoamento e arroteamento dos vastos espaços agrícolas.
Alcabideque, a principal origem das águas, já era povoação, supondo-se fundada pelos romanos, com o nome provável de “caput aque”, a que os mouros teriam aposto o sufixo “Al” e modificando o resto da grafia. Assim a cantou o poeta islâmico Abu Zeide Mohamede Ibne Mucana, no século XII:(a)
(alcabideque-2) Ó tu que vives em Alcabidek
Oxalá nunca faltem
Nem grão para semear
Nem cebolas, nem abóboras…
A agricultura, sempre referida, porque fonte de rendimento para os senhores e subsistência para o povo.
Desde tempos imemoriais, o homem serve-se dos cereais como alimentação. Para se tornar mais fácil a utilização, o grão era triturado entre duas pedras que se adaptavam à concha da mão. Evolutivamente, passou-se ao almofariz, de pedra ou madeira, e ao rebolo, constituído este por uma pedra base, rectangular, e outra redonda que se movimentava em vaivém. O movimento circular só apareceu em Roma à roda dos séculos V ou IV aC. O passo seguinte foi a invenção da mó com punho, para girar manualmente. Ainda existem algumas dúvidas sobre qual o principal meio usado inicialmente para movimentar mecanicamente as mós, se a tracção animal ou a utilização hidráulica, mas tudo indica que tenha sido esta última.
Nesse sentido, “escreve Lopes Marcelo, na sua obra “Moinhos da Baságua”: “A mais antiga referência ao moinho de água consta de um epigrama de Antípatros de Salónica que se presume ser de 85 aC, embora alguns autores o situem na época de Augusto. Tal epigrama “é uma elegia poética ao carácter feminino da moagem primitiva”. Também Luís Filipe Rosa Santos, na obra "Os moinhos de maré da Ria Formosa" refere o mesmo epigrama, dizendo: «Sossega as tuas mãos, oh! Mulher que fazes girar a mó! Dorme bem, mesmo que o galo anuncie a aurora, porque as ninfas, por ordem de Deméter, fazem o trabalho que ocupava teus braços: atira-se sobre a roda e os seus raios, forçando em volta o eixo que põe em movimento o peso das mós côncavas de Nysiros!» “Trata-se inequivocamente de um moinho hidráulico de rodízio com a particularidade de fazer referência à disponibilidade que este novo engenho permitia ao homem, neste caso às mulheres que teriam a seu cargo a farinação dos cereais.”
Pensa-se que remonta ao século XIII a existência em Portugal dos primeiros moinhos de vento. Em Condeixa ainda se pode ver um destes, bastante degradado, na Serra de Janeanes. Não é de cúpula giratória tipo moinho mediterrânico, mas sim construído para que fosse toda a estrutura a movimentar-se. Na sua base estão colocadas rodas de pedra que corriam num leito de lajes colocadas ao redor do moinho. Deste modo, o moleiro colocava o engenho na posição mais favorável à tomada de vento para as velas. Na freguesia do Bom Sucesso, Figueira da Foz, existe um moinho idêntico, completamente restaurado, como demonstra a fotografia.Voltando aos moinhos de água, primitivamente a impulsão do rodízio horizontal dava-se na parte inferior dele, o que implicava a necessidade de impulsão liquida bastante forte, que nem sempre era conseguida. Assim, quando foi inventado um novo método que consistia na condução da água através de canal que impulsionava as pás do rodízio pela parte superior, obtendo-se com menos água maior capacidade motriz para movimentar, não só moinhos, mas também lagares, serras mecânicas e outros engenhos, vulgarizou-se o sistema que chegou aos nossos dias, com as inevitáveis e necessárias alterações.
O moinho de cereal, na sua simplicidade aparente, é um engenho complexo. Desde a tomada de água, até ao processo da moagem do grão, todas as operações são cuidadosamente estudadas e executadas, para que resulte em pleno o trabalho do moleiro e a obtenção do produto final, a farinha. A água dos ribeiros era conduzida por um canal, a “levada”, no extremo da qual havia uma “comporta” para regular a entrada, descendo ela por uma conduta até à casa dos rodízios, onde saía em pressão pela abertura chamada “seteira” e impulsionava o rodízio que, por sua vez possuía um veio vertical. Este atravessava o olho da mó de baixo (dormente), e suportava com a “segurelha” a mó de cima (movente ou andadeira) para triturar o grão. As mós eram anéis maciços de pedra. Condeixa-a-Velha contribuiu enormemente para a produção de mós, chegando a fazer exportações para o estrangeiro porque era grande a qualidade da pedra. Ainda hoje é possível observar um dos locais onde ela se retirava e se trabalhava, junto às Ruínas Romanas de Conímbriga.
A duração de uma mó dependia da qualidade da pedra, mas variava entre cinco e dez anos. O desgaste provocado pelos cereais, a regular picagem que se fazia para aumentar a capacidade de moagem e o atrito, deixavam as mós reduzidas na espessura, sendo necessário proceder-se à sua substituição. Ainda assim, eram aproveitadas para lajear o piso das casas ou reforçar as paredes, como aconteceu na casa actualmente de Fortunato B. Pires da Rocha, cujo avô, como proprietário das pedreiras de Condeixa-a-Velha, utilizou bastantes mós na construção do seu prédio.
O interior da casa do moinho era dominado pela presença do engenho de farinha, composto pelas duas mós e pela “moenga”, armação em madeira de aspecto rudimentar, mas bastante funcional. Tinha a forma de gamela ou pirâmide invertida, sem topos. Nesta caixa era colocado o cereal a moer. O grão saía para a “quelha”, peça de madeira com o feitio de caleira e tombava no “olho da mó andadeira". Para que o cereal caísse regularmente, existia uma peça, o “tangedouro”, normalmente obtida de um pequeno ramo curvo de árvore, fixo à peça que se apoiava na “quelha” e assente sobre a mó. A rugosidade e rotação desta imprimiam o movimento continuo de oscilação necessária à caída do grão, função importante porque se caisse pouca quantidade, as pedras aqueciam e queimavam a farinha, além de provocar maior desgaste das mós; caso contrário, a farinha empapava as pedras, provocando a paragem súbita do rodizio e provovando neste graves avarias. As mós possuíam sulcos concêntricos destinados a impulsionar o grão no sentido da moagem e, por efeito centrífugo, fazer a saida da farinha para a caixa, “tremonhado”, colocada na frente do engenho, sendo depois metida em “taleigas”, sacos de pano onde era armazenada. Toda a estrutura da “moenga” estava suportada por barrotes de madeira, corda e arame. O MOLEIRO
Falando de moinhos, tem de se referir o profissional que tudo fazia, desde preparar a condução da água, até entregar a farinha aos clientes e trazer de volta o cereal para moer. Lopes de Macedo, na sua obra "Moinhos da Baságueda”, pág. 60, diz assim: “Tal como os restantes ofícios, a profissão de moleiro estava sujeita a normas de regulamentos ou leis avulsas, Regimentos Municipais e Códigos de Posturas. Em termos de registos que chegaram até aos nossos dias, destaca-se a região norte, em particular a zona de Guimarães." Em destaque, tem ainda a seguinte e curiosa nota: "Os moleiros, assim de trigo como de broa eram obrigados a terem os seus guarda-pós(os panais de protecção da farinha que vai saindo das mós)em panos "que não esponjem",ou em estopa, fechados e cobertos por uma esteira;e seus tremonhados(locais para onde cai a farinha)"bem varridos e limpos",para o que terão sempre "suas vassouras ou juncos";e não terão nos seus moinhos galinhas,nem cães,nem porco,mas sim,pelo contrário,ratoeiras armadas e um gato. (do Regimento municipal de 1719 e Acta de 1829 (Guimarães).Transcrito do livro Sistemas de Moagem,SNIC,Centro de Estudos de Etnologia,pág.93".
O moleiro era auxiliado no seu trabalho pela mulher e filhos, que dividiam entre si as muitas tarefas. Não implica, contudo que o trabalho deixasse de ser exaustivo! Como já disse, periodicamente tinha de proceder-se à desmontagem das pedras para a picagem. Este serviço era executado pelo próprio moleiro, bem como a reparação de todo o conjunto bastante pesado do rodízio. Este estava assente numa barra, a “ponte”, com um furo central onde encaixava o “aguilhão”. A ponte era comandada por um veio vertical, o “aliviadouro”. Na casa do moinho, existia uma manivela que subia ou descia o “aliviadouro”, permitindo a afinação das mós. Da distância entre estas, dependia a qualidade da farinha. O moleiro conhecia tão bem o seu moinho que bastava a alteração do “cantar” das mós, para saber o seu estado e se tinham grão suficiente para moer. No entanto, porque as diversas tarefas podiam eventualmente distrair-lhe a atenção, era comum utilizar um estratagema que consistia em colocar um pedaço de cortiça preso a uma corda, com chocalho na ponta. A cortiça era metida no meio do grão. Quando ele começava a escassear, o chocalho caía sobre a pedra e, ao soar, avisava o moleiro.(moinho)A farinha é a base da alimentação quer através do pão, quer mesmo utilizada directamente na culinária, por exemplo, nas “papas laberças", prato que se obtem juntando a farinha à sopa já confecionada. O nome “pão” é genérico de toda a alimentação. No entanto, é especificamente aplicado ao “bolo" de farinha de trigo ou centeio. Sendo de milho, já se chama broa. Para cozer o pão ou a broa, os lares de melhores condições sociais possuiam forno próprio, aquecido com lenha.Tinham o feitio abobadado e apenas uma porta. Mas também existiam fornos comunitários. Em Condeixa eram chamados "fornos da poia", locais onde as familias mandavam cozer o "pão" laborado em casa. Sendo terra de moinhos, Condeixa tinha também muitos fornos comunitários. A actual Rua 25 de Abril chamou-se outrora Rua dos Fornos, depreende-se por que razão. Na Serrada e no Outeiro, existiram “fornos da poia”, no entanto, o forno mais conhecido era o da Ti Prazeres, localizado onde hoje se encontra um dos estabelecimentos de fotografia de Delfim Ferreira, à entrada da Rua Manuel Ramalho, junto às instalações da Santa Casa da Misericórdia.
Muito mais coisas deviam ser ditas sobre os moinhos de Condeixa e todas as actividades a eles directamente ligadas. Conheço várias obras versando este assunto, nenhuma de Condeixa! Não será já tempo de a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia ou qualquer outra entidade responsável, decidir mandar fazer e publicar um estudo sobre os Moinhos de Condeixa, enquanto é possível obter espólio fotográfico e informação fiel de pessoas ligadas ao tema?
- VOCABULÁRIO DOS MOINHOS-
AÇUDE- Construído em pedra, serve para represar a água do rio ou ribeiro.
LEVADA- Canal que tem origem no açude e transporta a água até à represa.
REPRESA- Local onde é recebida a água vinda do açude.
AGUEIRA- Canal condutor da água em cascata para o rodízio.
CUBO- Cabouco na parte inferior do moinho, onde está colocado o rodízio.
SETEIRA- Peça existente ao fundo da agueira, de onde sai a água projectada para o rodízio.
ZORRA- Peça de apoio ao rodízio.
PEGADOURO- Tábua que comanda a direcção da água.
COMANDO DO PEGADOURO- Serve para movimentar e parar o moinho.
RODIZIO- Roda com movimento horizontal, ligada à mó por um veio.
TAPUME- Tampão regulador da entrada da água para a agueira.
PEDRA- Mó em granito.
CUNHAS DA AGULHA- Tacos reguladores do controle e levantamento da pedra.
MOENGA- Peça em madeira, quadrada ou rectangular, onde é colocado o grão.
CALEIRA- Peça em madeira ou cortiça. Recebe o grão da moenga para o olho da mó.
TREMONHADO- Lugar para onde cai a farinha da mó.
ALQUEIRE- Medida em madeira que serve para medir os cereais.
TALEIGO- Saco em pano onde é transportado o grão ou a farinha.
MAQUIA- Parte retirada para o moleiro. Corresponde ao pagamento do seu trabalho.
TREMONHA OU QUELHO- Peça de madeira colocada no fundo da moenga.
RELA OU CHAMADOURO- Peça destinada a oscilar o quelho, para a queda do grão
SEGURELHA- Peça em ferro que suporta a mó “movente”.
VEIO- HASTE e PELA- Veio vertical que transmitia a rotação do rodízio à mó.
PENA (em Condeixa, chamada Badana)- Cada uma das hélices do rodízio.
PONTE- Barrote horizontal onde apoiava o aguilhão do rodízio.
TRAVE DO ALIVIADOURO- Veio vertical ligado à trave da ponte.
ALIVIADOURO- Manivela no interior do moinho, que comandava a ponte.
AGUILHÃO- Ponta metálica que apoiava o rodízio na zorra.
(a)-No volume “Tecnologia Tradicional Portuguesa-Sistemas de Moagem”, de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, afirma-se que o poeta islâmico se referia a Alcabideche, povoação do concelho de Sintra. Sem dados que me permitam formar opinião concreta, permito-me, no entanto, discordar de tal afirmação.
Quero deixar o meu agradecimento a António da Costa Pinto, fotógrafo condeixense, pela cedência das fotografias de moinhos e a Carlos Alberto Azenha, pelo empréstimo de livros que me facultaram a necessária informação técnica.
Condeixa, Abril de 2011
Cândido Pereira
terça-feira, 19 de abril de 2011
TEMPO DE RECORDAR
A palavra tempo é muito curiosa. Da forma como é usada, depende o sentido a entender. Se nos queremos referir à meteorologia, dizemos que o tempo está bom para a agricultura, porque choveu o tempo suficiente para regar os campos, mas está mau para quem tinha umas férias planeadas à beira-mar e não teve tempo para cancelar a marcação. Em termos desportivos então, a palavra assume designações complexas. O bom tempo não é bom para essas práticas, nomeadamente o futebol que é exactamente quando o tempo aquece que entra em defeso. Durante os noventa minutos do jogo (mais os descontos de tempo), também o factor tempo é muito importante. Se a nossa equipa está a ganhar, desejamos que o tempo passe depressa. Pelo contrário, parece que o tempo se esgota demasiado depressa.
Ainda há outro tempo! Aquele que já vivemos. Costumamos chamar-lhe bons tempos, embora por vezes, ao analisarmos bem, alguns desses tempos foram os piores da nossa vida. Até já cheguei a ouvir pessoas que passaram imensas dificuldades, inclusivamente fome, a dizerem “noutro tempo é que era bom”! Só se justifica a boa evocação, porque éramos mais novos.
Cá por mim, quando era novo tive as mesmas experiências de todas as crianças desse tempo. Vivi alegremente até dois meses antes de completar sete anos. Em Outubro, no dia sete, (sempre este místico número!), entrei para a Escola. E aí, começaram os sarilhos!
A Escola, no meu tempo, era algo complicada. Não na forma de aprender a tabuada, que a cantilena até servia de entretenimento: “Dois vezes um, dois; dois vezes dois, quatro; dois vezes três, seis…”, o Professor dizia e os cachopos repetiam, cadenciadamente. Já a cópia, com as letras arrumadinhas naquelas duas linhas paralelas do caderno, provocava reacções iradas do mestre, porque a escrita transbordava as linhas, ou porque a tinta tirada com o aparo metálico do tinteiro cerâmico colocado ao centro da carteira resolvia pingar nas folhas brancas, deixando feio borrão. Mas maçador, mesmo maçador, era aprender por onde viajavam os comboios, donde vinham e para onde iam os rios, saber o nome de todas as serras e serrinhas deste pequeno Portugal, que assim se tornava muito grande. As falhas deste importante conhecimento de cultura geral, eram punidas através do uso de maldita ripa que estalava dolorosamente nas mãos. Às vezes era tão fortemente utilizada que perdia toda a sua rijeza e quebrava-se de encontro às palmas bem evidentes, com os dedos virados para trás. No meu caso pessoal, ela teve pouca utilização, porque o mestre era mais adepto de uma boa chapada, dada a tempo, nas bochechas desprevenidas. No tempo das férias, havia tempo para tudo. Então nas Grandes, o tempo era enorme, porque multiplicado por dias e dias sem preocupações escolares, noites mais curtas porque a hora de fazer ó-ó passava a ser outra. Paradoxalmente, também parecia que o tempo passava a correr.
No meu tempo, dividíamos o tempo entre os jogos de futebol, à noite na Praça e os banhos tomados no tanque do Galaitas, no Marachão ou na Bajeira, junto à Quinta de S. Tomé. À luz dos actuais conhecimentos higiénicos, com as piscinas de água tratada, ainda é difícil compreender como era possível não apanhar doenças graves naquelas águas sujas, cheias bicharada de toda a espécie. No Marachão, as cobras de água picavam as pernas, e os alfaiates, animaizinhos que parecem aranhiços de longas pernas passeando levemente sobre a água, cobriam toda a superfície e obrigavam a gente a afastá-los para poder nadar. E bebia-se água por todo o lado! Nas fontes, se estavam à mão, mas também numa qualquer “rigueira”. Havia até uma cantilena destinada a purificar a água:”Água corrente, não mata gente, nem de noite, nem de dia, nem à hora do meio-dia, Padre-nosso, Avé Maria”. Depois da benzedura, podia matar-se a sede à vontade, que não havia micróbio incomodativo! Vá lá, de vez em quando aparecia uma dor de barriga com a consequente diarreia. Que se aliviava junto a qualquer muro, sem usar papel higiénico (quem sabia o que era isso?), servindo as ervas para o efeito. O pior é se vinha juntamente alguma urtiga!
As brincadeiras prosseguiam sem cuidado. Vícios, não havia. Claro, aqui não se contam os “cigarros” de barba de milho fumados às escondidas! Apenas nos podiam acusar de roubo de fruta pelos quintais. De vez em quando, lá havia um assalto às laranjas alheias ou aos melões madurinhos escondidos sob uma camada de palha.”Crimes” menores, executados mais pelo espírito aventureiro. Aventura, era o maior incentivo à imaginação dos miúdos. Sem as formas de diversão actuais, apenas restava o recurso a expedientes que mantivessem ocupada a energia da juventude. Sempre “no fio da navalha” mas nunca ultrapassando os limites do aceitável, éramos crianças sem problemas sociais. Nem a ida de vez em quando ao posto da guarda manchava a reputação, porque motivadas pela transgressão das jogatanas na Praça. Já mais “velho” (aí com 17 ou 18 anos!) fomos um dia chamados ao posto no fim de um cortejo de carnaval que organizámos. Parece que as frases usadas num determinado cartaz estavam fora dos parâmetros exigidos pela censura. Coisa de pouca monta, castigada com monumental reprimenda e consequente lição de moral e bons costumes.
A vontade de realizar coisas levava por vezes à assunção de projectos superiores às nossas forças. Recordo, por exemplo, as festas dos Santos Populares, que tiveram lugar na Quinta de S. Tomé. O Clube de Condeixa promoveu em 1950 grandes festejos no Campo dos Silvais (actual Casa de Saúde Santa Isabel). Nesse tempo de parcas diversões, uma realização de tamanha monta teve repercussão para além dos limites do concelho. O vasto programa (como se pode ver na reprodução do cartaz), movimentou Condeixa de maneira inesquecível. Nos anos seguintes, outros festejos de menor dimensão tiveram efeito. Mas a memória ficou sempre ligada aos “Grandiosos Festejos”. Os garotos de 1950, seis anos depois e já homenzinhos, deitaram ombros a uma empreitada que suplantasse o êxito anterior. Conseguida a autorização para utilizar a Quinta, que tinha singulares condições para este tipo de eventos, visto ser totalmente vedada, cinco aventureiros deitaram mãos à obra. É justo recordar os nomes: António Aires; Luís Pocinho; Joaquim Fontes e Joaquim Jacinto. O quinto elemento era eu.
É já difícil, mesmo para gente de outro tempo, imaginar o espaço envolvente da Quinta. Isolada no meio de terrenos férteis e rodeada de água, tinha três acessos às terras que outrora lhe pertenciam. Um desses caminhos chamava-se Serrada. Partia da Quinta até se encontrar com a Avenida Visconde de Alverca. Ladeado por sebes de buxo, tinha a meio uma grande eira de piso rígido e cobertura parcial (cerca do local onde actualmente estacionam os circos). Habitações, poucas, depois da casa do Capitão Alves (onde hoje é a Policlínica de Condeixa). Sem casas, também não existia iluminação pública. Um grave problema para a realização dos festejos. Não vale a pena descrever o trabalho insano de colocar postes de madeira ao longo de cerca de 500 metros, os respectivos fios e as lâmpadas para iluminação do caminho. Lá dentro, estava tudo que nem um brinquinho! Nos arcos onde passava o rio e as mulheres do campo punham as canastras com tremoço a demolhar, ficou instalada a tasca. No celeiro, sob a árvore de tília, o bar com esplanada e, sobre o rio, o pavilhão com espaço para a orquestra.
Para recompensar o imenso trabalho realizado, só faltava a adesão do público. No dia 12 de Junho, era grande a ansiedade do bilheteiro, junto ao portão principal, aquele que deita agora para a rotunda. Seria que os dez contos (muito dinheiro, em 1956!) gastos até ao momento, teriam retorno? O programa era aliciante: Ranchos Folclóricos e Orquestra para o baile, quermesse e barracas de “comes e bebes”. Embora o dia de abertura das festas calhasse à terça-feira, a afluência não foi má de todo, porém longe das expectativas. Pensámos: “a coisa vai melhorar nos restantes dias”. Mas não! Os tempos eram difíceis, o dinheiro não abundava e as coisas arrastaram-se sem grandes melhoras. Já fazíamos contas à vida, quando subitamente recebemos uma carta que nos pôs em alvoroço: a Empresa de Espectáculos de Alberto Ribeiro propunha realizar um espectáculo no nosso recinto. Da nossa parte, apenas devíamos proporcionar condições logísticas e eles faziam o resto, inclusivamente tomar conta da bilheteira. Do resultado desta, seria para nós determinada percentagem. Claro que aceitámos imediatamente. E assim foi! No dia 25 de Junho de 1956, um programa recheado de artistas de renome, com fama nos programas de rádio e Serões para Trabalhadores. A televisão só chegaria mais de um ano depois, mesmo assim toda a gente conhecia as canções desses artistas e, no caso especial de Alberto Ribeiro, não só as canções mas também a imagem de galã de cinema, ao lado de Amália Rodrigues.
O resultado da bilheteira compensou largamente o investimento feito, cobrindo todas as despesas, de forma que os restantes dias do programa serviram apenas para cumprimento do compromisso assumido. Repito, assumido estoicamente pelos promotores, sem qualquer subsídio. A nossa responsabilidade foi ao ponto de declarar que os lucros seriam totalmente entregues ao Clube, mas em caso de prejuízo, seriamos nós a comportá-lo. Jovens de vinte anos! Rapazes que podiam comodamente esperar a realização das festas por qualquer entidade que a isso se propusesse. Outros tempos!
Um tempo de juventude que se ía rapidamente esgotando a caminho de outras responsabilidades mais sérias. A tropa, primeiro, o emprego e o casamento, depois.
Agora, no fim do tempo, é altura de rememorar esses bons tempos, que afinal não foram maus de todo!
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