sexta-feira, 12 de agosto de 2011

TEATRO DE REVISTA EM CONDEIXA

Em 1979,Ramiro de Oliveira,o poeta popular que escreveu as letras de muitas e belas melodias de seu pai,Mestre António de Oliveira e de seu irmão Maestro Saúl de Oliveira Vaio,escreveu uma revista que chamou "CONDEIXA SEM MÁSCARA",contando para isso com a colaboração do Rancho Folclórico e Etnográfico da Casa do Povo de Condeixa e de alguns dos seus elementos para a representação de vários números de uma outra revista de muito êxito,representada em 1936 no Cine-Avenida de Condeixa.Foi com muito prazer que aceitei o convite para ensaiador.
Dos quadros que melhor aceitação tiveram,contava-se "A Escarpiada e o Licor de Leite",na original revista cantado por Maria Bernardes da Silva(Maria da Joana)e Raúl Geraldes.

Ela:
Eu sou a escarpiada
Muito doce e saborosa
Bastante apreciada
Por ser tão apetitosa
Muitos a mim se atiram
Com instintos de leoa
Também não admira
Pois que todos me acham boa.

Ele:
Sou o licor de leite
Branquinho e açucarado
Por isso quem me bebe
Depressa fica banzado
Descendo lá das mudas
E do Bairro do Quelhorras
É vê-los sair todos
Soltando vivas e morras.
Ó escarpiada
Mui saborosa
E amarelada
Chega-te a mim
Que quero dar-te
Uma dentada.

Ela:
Licor de Leite
Estás a mangar
Meu marotão
Estás todo feito
Com esse jeito
Mas isso não!

Ele:
Há gulosos por aí
E há gulosas também
Que não prescindem de mim
E me bebem muito bem
Quando lhes subo à cabeça
O delírio é permanente
Tudo baila,tudo brinca
Tudo canta,minha gente!

Ela:
Com açucar e canela
E a côr acastanhada
Além de doce e bela
Sou bem feita,bem formada
Dizem que abro o apetite
E também julgo que sim
Porque vejo os lambareiros
Todos de volta de mim.
Grande consumo
Por toda a parte
Cá e p'ra fora
Sou amassada
E sou formada
P'lo Ai que Chora.

Ele:
E eu também
Mas vendo bem
Há muitos anos
E que o digam
Os que aqui param
Do Costa Ramos!

Como explicação,Costa Ramos era uma referência aos motoristas dessa firma de transportes rodoviários que,na circulação Lisboa-Porto,aqui paravam para tomar as refeições,regra geral,na taberna do Zé David.
Da revista "Isto é Condeixa",representada na vila em 1964,foi recriada a fantasia "Condeixinha e Outeiro",nessa altura interpretada por Lurdes Loio e José Pinto:

Outeiro
Gabarolas!Folião e bairrista!Saiam para a rua,venham para a festa e veremos se há aí quem me resista!A mim,e até ao meu par!Se Condeixinha vier...vocês vão ver,se há alguém capaz de nos vencer!

Condeixinha(entrando como por acaso):
Não vencem,não!Mas tu sem mim,também não és ninguém.Senão,diz-me:onde é que tu tens graça que ultrapasse a minha graça?

Outeiro:
Aspiro o aroma sem igual,do arvoredo...do jardim do meu Hospício.Ouço cantar alegre o rouxinol!

Condeixinha.
Mas diz-me,com franqueza,se em beleza,o encanto do Travaz lhe fica atrás?

Outeiro:
Onde tens tu um pôr-do-sol tão belo como o meu?

Condeixinha:
Mas não tens o encanto da Lapinha!O cantar sempre moço da levada...não ouves os moinhos,cansados,velhinhos,mas sempre criancinhas no palrar!

Outeiro:
Mas tenho em altar,misteriosos recantos de belezas sem par!Das pedras do meu solo,rompem flores...

Condeixinha:
E eu tenho-as de mil cores(tantas vezes já o tenho dito),são silvestres,mas são flores,espalhadas pela encosta onde habito!

Outeiro:
Deixas-me falar?

Condeixinha:
Espera,temos outras contas a ajustar!Porque andaste a cantar que eras folião?Que eras o"Bairro Lindo das Espanholas"?Oh!meu grande gabarolas!O que és tu,sem mim?

Outeiro:
AH!Tu falas assim?Não te lembras,vaidosa miúdinha,oh!Condeixinha,quem começou?Tu não cantaste nada?Não vieste para a rua convidar os rapazes a subir a ladeira,sem canseiras,só para lá irem buscar o par?Não disseste que"o sol rezava no teu seio,todos os dias"?Como tu te iludias!

Condeixinha:
Não iludia,não!E tenho mais para dizer.Porque me chamaste regateira,Marcha dos filhos da rua?


Outeiro:
Não foste tu a primeira,não foste tu,minha tola quem primeiro cantou então,que eu trazia na cachola,chapeu de grude e cartão?

Condeixinha:
Nãofalemos então mais,nas coisas que já lá vão!

Outeiro:
Bom,semprefoi bom recordar,e lembrar de viva voz,aos de mais fraca memória,que a nossa história...é tão comum,tão igual, que sempre que há festival,não podem passar sem nós!!!

(Cantando)

Condeixinha:
Tu tens "galinhas" eu "patos"
"cavacas"temos iguais
Já lá tiveste uns "patacos"
Mas notas eu tive mais.

Tive conversa barata
Mas cabecinha entendida
Tu tinhas uma de"prata"
E até fugiu p'rá Avenida.

A cadeia foi-se embora
O teu Colégio também
Já pouco mais tens agora
Sabes isso muito bem!

Outeiro:
Com moedas aos alqueires
Porque és tu tão mafarrica?
Cala a garganta que tens
E faz figura de rica

Tenho Alcobaça,Viseu
E tu Braga e Guimarães
Tudo o que tens,tenho eu
Tudo o que tenho,tu tens

Não contesto essa verdade
Mas ouve,que não te engano
Ainda tenho Caridade
E Salicús todo o ano!


Era assim que se demonstrava a velha rivalidade Condeixinha-Outeiro!
Para finalizar,dizia ainda o Compére:

Este espectáculo está a chegar ao fim,mas antes queremos apresentar-vos uma canção,ou antes,um Hino a Condeixa,que foi cantado há cerca de vinte anos por António Pessoa,numa das festas realizadas na Casa do Povo,por ocasião dos Santos Populares.Vai cantá-la o mesmo António Pessoa.

Entre a serra e a campina
Que o Mondego vem beijar
Há uma terra pequenina
Que em beleza não tem par

Não mora nela a tristeza
Mas quem por ela passar
Parte triste e com certeza
Vive triste até voltar!

Palácios velhinhos
Solares de saudade
Palreiros moinhos
Hospitalidade!
Recantos de sonho
Que a graça não deixa
Não tiro nem ponho
Tudo isto é Condeixa!

Nesta terra portuguesa
Que a natureza moldou
Há legados que a nobreza
Longos anos habitou
Vê-se o sol ao fim do dia
Pôr em festa o horizonte
Com recitais de poesia
Ao redor de cada fonte.



domingo, 17 de julho de 2011

O ENTERRO DO BACALHAU

Há tempos um amigo ofereceu-me um livrinho manuscrito em bonita letra escolar,daquela redondinha que não podia ultrapassar as linhas paralelas dos cadernos.
Curioso,fui desfolhando as páginas e li uma das mais antigas tradições portuguesas,um estilo teatral de origem popular,geralmente chamado "literatura de cordel".
Procurei informação sobre o tema e encontrei em Luiz Francisco Rebelo,o seguinte:"É um erro,em que muitos incorrem ainda com frequência,conceber a história do teatro como simples capítulo da história da literatura...".Mais adiante,diz:"Assim, o teatro é uma totalidade,em que o texto-a componente literária-se não situa antes nem para além do espectáculo,mas no centro deste,núcleo de que irradiam os demais elementos integrntes dessa totalidade.Na verdade,a criação teatral não se esgota no acto puramente literário que lhe está na origem,pois as palavras escritas pelo autor(o «corpo da peça»,dizia Craig)exigem a voz dos actores que hão-de murmurá-las ou gritá-las;as personagens a quem o autor atribui essas palavras requerem o corpo dos comediantes em que hão-de habitar;essas personagens,que ao serem concebidas pelo autor possuem apenas uma dimensão temporal,reclamam o espaço físico onde possam descrever a parábola da sua existência fictícia,mas nem por isso menos autêntica".
Ao citar estas considerações,estou a recordar a ideia generalizada de que teria sido Gil Vicente o "pai" do teatro português. No entanto, bastante tempo antes,mais própriamente no ano 314 d.C.,o Concílio de Arles proscreveu actores,saltimbancos e jograis. Ora o entremêz que vou reproduzir,insere-se mais na linha popular dos jograis e saltimbancos,sem preocupação pela qualidade literária de texto,com "versos de pé quebrado",ao contrário de Gil Vicente,muito mais elaborado. O título desta obra que me ofereceram é "O Enterro do Bacalhau".Versa um tema curioso:o período da Quaresma é, por determinação da Igreja Católica,tempo de abstenção do consumo de carne.Os fiéis cumpridores deste preceito procuravam alternativas alimentares, bastantes para quem tinha recursos económicos,mas escassas para os restantes.
Actualmente o bacalhau é um dos mais caros produtos alimentares.Porém,nem sempre assim foi.Dadas as suas características peculiares-capacidade de longo armazenamento sem necessidade de condições específicas e preço acessível-o bacalhau era "o amigo do povo".Mas tudo o que é de mais enjoa.E assim acontecia na Quaresma. Quarenta dias sem provar o gosto da carne,pior,quarenta dias de alimentação quase exclusiva de bacalhau criava nos consumidores um sentimento generalizado de revolta.
É claro que na teatralização do tema,também há exagero.Vê-se claramente que este tipo de "vingança" é mais ditado pelo aproveitamento da ocasião para fazer alguma crítica ao sistema e mostrar os dotes teatrais dos participantes.
A peça representa o julgamento de um "réu" que, como em qualquer tribunal,deve ter direito a defensor.A acusação é feita por quem afinal é a culpada:a Páscoa!A vida também é assim!Quantas vezes o povo sofre as consequências do mal feito por alguém que acaba por ser algoz!
(faço a transcrição integral do manuscrito)
E agora,senhoras e senhores,vai começar a função!

FALA O JUIZ
1
A minha lei estremosa
Dá o direito e a razão
Todo o réu seja ouvido
Na primeira ocasião
2
Vamos decidir com isto
A sorte do misero bacalhau
Negro como a ferrugem
Duro e sêco nem um pau
3
Não se lhe nega o direito
Nem a defesa que mostrar
Mas há-de sumáriamente
Toda a inocência provar
4
Deste modo ficarão
Neste serviço logrados
Felizes procuradores
Escrivães e delegados
5
Demandas que nos deram
Nos escritórios demorados
Morreram filhos e netos
E nunca foram acabados
6
As partes que estão presentes
Ainda em cima do seu mal
Pelo intrudo e pela páscoa
Pelo S.João e Natal
7
Apareça o réu à frente
Para aqui ser interrogado
Depois da verdade conhecida
Ser logo sentenciado

FALA A PÁSCOA
1
Finalmente chegou o dia
Que por nós era desejado
Só por termos alegria
Do bacalhau ser enforcado
2
Acabou-se a nossa tristeza
Vamos gozar de alegria
Enforcar o bacalhau
Que tanto mal nos fazia
3
Há hoje sete semanas
Que todos tens governado
Eu protesto e não me engano
Que hei-de ser de ti vingado
4
Hei-de ser de ti vingado
Disso te dou a certeza
Vais morrer enforcado
Podes tratar da defesa

FALA O BACALHAU
1
Eu em minha defesa
Muito tenho a chamar
Mas é tal a minha fraqueza
Que nem sequer posso falar
2
Mas sempre farei esforços
De ao povo perguntar
Se não tem alguns remorsos
Do bacalhau enforcar
3
Há hoje sete semanas
Que a todos tenho governado
Não sei que mal eu fiz
Para eu ser enforcado

FALA A PÁSCOA
1
Na forca tu vais morrer
Diante de toda a gente
Não te posso ouvir dizer
Que é condenar o inocente
2
Queria p'rá Pascoa ficar
Isso tinha muito que ver
Não te estejas a alterar
Que na forca vais morrer
3
Tu pergunta a esta gente
Qual a sua opinião
Todos te dirão na frente
Que te trincam o coração
4
Ao almoço e ao jantar
Vem o bacalhau ao prato
Mas não se pode tragar
Atira-se de presente ao gato
5
Dizes que não és criminoso
Bacalhau, peixe nojento
Morres por seres teimoso
Faz tu teu testamento

FALA O BACALHAU
1
Quaresma eu vou morrer
Amiga do coração
Tu não me podes valer
Nesta minha aflição
2
Eu com as ânsias da morte
Vou fazer meu testamento
Já não há quem me conforte
Quem me dê algum alento

FALA A QUARESMA
1
Eu tenho estado a ver
Ao povo a ingratidão
Mas não te posso valer
Nessa tua aflição
2
Eu hoje também acabo
E choro minha triste sorte
Não sei qual seja a razão
Que nos dêm pena de morte
3
Tu ó Páscoa tens a culpa
De tanto mal se penar
Mas tu não és absoluta
Ninguém podes tu matar
4
A paga hás-de receber
Juro-te do coração
Por tu mandares fazer
Duas mortes sem razão
FALA A PÁSCOA
1
Acabou-se o vosso tempo
Nada mais tenho a dizer
Até causa aborrecimento
O modo de se defender
2
A Páscoa tem valentia
E nada tem a temer
Tenho por mim toda a gente
Para a justiça fazer
3
Será preciso dizer
Façam o vosso testamento
Tu na forca vais morrer
Não tardará muito tempo
4
Eu não temo tua espada
Nada mais tenho a dizer
Mas sempre logo direi
O bacalhau há-de morrer

FALA O DEFENSOR
1
Alto e pára traidora
Se matares o bacalhau
Tens guerra declarada
Tens tudo contra ti
Até a própria pescada
2
Mas sendo tu inocente
Sofres tudo quanto é mau
Vejo aqui toda a gente
Tudo contra o bacalhau
3
No tempo da inquisição
Que os criminosos iam morrer
Mesmo se houvesse muita razão
Sempre se havia de absolver
4
Mas eu sou dos mais antigos
Todos me hão-de obedecer
Com meus papeis e amigos
Esta batalha vou vencer
5
Eu estou convencido
Que eles me vêm ajudar
Até vos posso dizer
Que tudo hei-de evitar
6
Ó mar valei-me,ó mar
Eu vos peço protecção
Que me venham ajudar
Satisfazer minha paixão
7
Os peixes lá no mar andam
Todos num desespero
Se chegam a saltar fora
Engolem o mundo inteiro
8
Não matem o bacalhau
Que ainda é meu parente
Não me queiram dar desgosto
Diante de toda a gente
9
Já que forças eu não tenho
Para mais continuar
Peço a Vossa Excelência Juíz
Para esta sentença embargar

FALA O JUIZ
1
Bacalhau se tens uma coisa
A alegar aproveita a ocasião
Fala a todos com franqueza
E propõe tua razão

FALA O BACALHAU
1
Eu para minha defesa
Nada mais tenho a dizer
Querem que eu morra enforcado
Paciência,que hei-de fazer

(nota:este texto está em prosa)

O Juiz fala ao oficial-Ó ofícial
Oficial-Pronto,Senhor Juiz
Juiz-Traz cá o livro da lei
Oficial-Eu peço a V.Exª que decida
Com esta justiça
Eu como oficial de diligências
Quero comer pão,vinho e cortiça
Juiz-Cortiça,oficial?
Oficial-Perdoe-me Sr.Dr.,enganei-me
O que eu quero é chouriça.

FALA O JUIZ
1
Visto que a minha lei me diz
A favor do bacalhau
Com alho vinagre e azeite
É um petisco menos mau
2
Não se vê bêbado algum
Que não deixe de gabar
Agora posto em trabalhos
E ninguém te vem livrar
3
Acabou-se a quarentena
Que tanto nos serviste
Os mesmos que te comeram
Te dão a paga tão triste
4
Bacalhau da minha alma
Quem te viu e quem te vê
Os mesmos que ti serviram
Que dão com o bico do pé
5
Por mais recto que eu seja
Causas tenha a defender
Chego a pontos tais que veja
Mais não seja o que fazer
6
A lei tem todo o poder
Eu forças trago comigo
Nada mais há a fazer
Será isto o que digo
7
Tu Páscoa és delambida
E tu falas sem razão
Mas talvez te custe a vida
Essa tua ingratidão
8
Eu de hoje a um ano
Falarei com mais razão
Contra ti sou um tirano
Durante esta extensão
9
Queres matar o inocente
Com a força da vingança
Mas não vais levar avante
Eu juro e tenho esperança
10
A minha lei absoluta
Sempre há-de vigorar
Tu Páscoa és uma bruta
Não te estejas a cansar

FALA A PÁSCOA
1
Tenho pouco a dizer
E estou quase cansada
Nada mais vai haver
Isto é uma caçoada
2
Vá o bacalhau para a forca
Já devia estar enforcado
Não há carne que sustente
Como a carne de capado
3
Eu quero,faço e digo
Quero,posso,hei-de vingar
A força está comigo
Para o fedorento matar

FALA O DEFENSOR
1
Bacalhau,bacalhau
Bem nascido e mal-fadado
Vieste das partes do norte
Para aqui seres julgado
2
Salta carrasco mal feito
Ao bacalhau inimigo
Três formigas te rapem a pele
Carrega o demónio contigo

O JUIZ LÊ A SENTENÇA
1
Bacalhau,bacalhau
Vou ler a tua sentença
Tu estás absolvido
Por ver a tua inocência
2
Tirai exemplo disto
Amigos e caminhantes
Acaba aqui a tragédia
Amiguinhos como dantes!

VÁ O BACALHAU PARA A RUA!!!










1

sexta-feira, 10 de junho de 2011

HÁBITOS HIGIÉNICOS DOS CONDEIXENSES DE OUTRORA

O título é enganoso, pois presume que os condeixenses tinham hábitos higiénicos diferentes de toda a gente, o que não é verdade. Ainda nos anos quarenta do século XX, vi em Lisboa os moradores de algumas ruas (pelo menos as menos expostas) lançarem das janelas embrulhos de jornais que se estatelavam na calçada espalhando o conteúdo por todo o lado, e que aí ficava até à passagem do varredor. Se recuarmos um pouco mais na época, era comum o grito “Aí vai áuga”, aviso de quem imediatamente atirava para a via pública o líquido emporcalhado.
Em Condeixa, terra de muitos ribeiros, nada melhor para transportar a porcaria produzida diáriamente. E quando falo em porcaria, refiro-me quase exclusivamente à que a função digestiva considerava inútil ao bom funcionamento do organismo. Porque a outra era aproveitada, quer para alimentar porcos e galinhas, quer para aumentar o monte de estrume para adubar as terras. Aliás, todos os detritos organicos faziam parte dessa forma de obter nutrientes para o solo arável. Na falta de retretes (eufemisticamente designadas agora “casas de banho”), o depósito dos penicos caseiros juntava-se ao monte onde já estava o resultado da limpesa das capoeiras e coelheiras que todas as casas possuiam. E, se nas habitações do povo assim acontecia, nas casas ricas só diferia porque o trabalho era executado pelos serviçais. O resultado, no fim de contas era o mesmo. Conheci bastante bem três dos palácios da vila. Em todos, as casas de banho resultaram da adaptação de antigos quartos ou dependências com dimensões adequadas à nova função. Quer dizer, nenhuma dessas moradas senhoriais foi construida privilegiando instalações sanitárias. No Palácio dos Figueiredos, actuais Paços do Concelho, ao fundo do corredor da ala sul existia um pequeno compartimento onde, no meio de um estrado de madeira havia um buraco ligado directamente às cavalariças e de onde eram vertidos os detritos que caiam mesmo em cima do monte de estrume. Mais tarde, já no tempo de Artur Barreto, este aproveitou um quarto da mesma ala sul e adaptou-o a casa de banho, mas expressamente dedicado a esta função. O tal compartimento sobre as cavalariças continuou a ser usado, agora ligado ao cano que conduzia a uma linha de água, porque as cavalariças deixaram de ter essa função e passaram a... armazém de mercearias!
É curiosa a maneira como um subdelegado de saúde do século dezanove propunha a solução do problema sanitário. A obra “Subsídios para a História de Condeixa”, de Fernando Rebelo e Isac Pinto, conta-nos como foi, numa carta enviada ao Vice-Presidente da Câmara, Wenceslau Martins de Carvalho, em 13 de Agosto de 1898, pelo Subdelegado de Saúde de Condeixa:
“O assunto para que V. Exª. chama a minha atenção, é de tal modo importante e presta-se a tão longas considerações que mal cabiam elas nos limites de uma simples resposta a ofício. É muito para lastimar que Condeixa, a qual pelas suas condições topográficas poderia ser uma população modelo com relação à sua limpeza e à sua higiene, esteja desde há muito tanto e tão descurada nesse sentido, parecendo até ter sido votada a um ostracismo completo. Condeixa, disposta num declive em forma triangular, apresentando a base desse triângulo na sua parte superior, pela qual poderia entrar a água a jorros por diferentes pontos e percorrer toda a povoação, vindo sair no seu ponto inferior onde está colocado o vértice do triângulo, encontraria em si todas as condições de lavagem perfeita e de limpeza completa, se fosse envolvida por um sistema de canos de esgoto por onde a água pudesse circular à vontade. Realizada essa rede de esgotos, o canto de saida de todos os detritos não podia deixar de ser o cano construido na Rua da Assunção que faz parte da estrada municipal de Condeixa ao Casal da Légua, a desaguar ao fundo da ladeira do Amparo e, como principio de um sistema de esgotos que a Exª Câmara diz tenciona levar a efeito, não pode deixar de ter uma importância e vantagens incontestáveis para a higiene desta povoação. Dos três pontos diferentes em que poderia ter lugar a abertura de saida deste cano- Vala da Lapa, Regueira Pública de Condeixinha e Várzea de Condeixinha- é este o único ponto possível perante a higiene em que pode ter lugar esse desaguamento. A Vala da Lapa, recebendo já no seu percurso bastantes detritos que, entrando em decomposição, vão encher de miasmas todo o bairro da Lapa e Travaz, não pode nem deve receber a mais os que lhe viriam do cano de receptáculo de toda a povoação; e nem este fim pode ser preenchido pela Regueira Pública de Condeixinha que, atravessando a descoberto toda a comprida rua de Condeixinha iria mimosear os habitantes de toda aquela àrea, com um extenso e comprido foco de infecção; a Varzea de Condeixinha, extenso campo, longe da povoação e separada dela por lindos e magníficos pomares, seria o único ponto admissível para a boca de saida dum cano de esgoto geral e aquele que a higiene aconselharia, rejeitando por completo os outros dois. Sobre isso, repito, muito haveria a dizer, mas termino aqui as minhas considerações, concuindo que é toda a vantagem, debaixo do ponto de vista higiénico, o cano feito com o princípio dum sistema de esgoto e que a boca de saida, colocada ao fundo da ladeira do Amparo desaguando nos campos da Varzea, tem uma supremacia higiénica evidente sobre os outros dois citados sítios. Mas quando o cano em questão não fosse suficiente para dar saida às águas de lavagem, ou a qualquer enxurrada intempestiva, fácil seria abrir canos de derivação para aqueles pontos, ampliando assim a rede de esgotos e, bem mereceria do município a vereação que levasse a efeito obra tão útil e humanitária”.
Nesta interessante carta, há vários e importantes pontos a considerar. Em primeiro lugar, a constatação daquilo que já referi, a intenção de utilizar as linhas de água como principal condutor dos detritos de toda a vila, o que veio a acontecer exactamente como o profissional da saúde propunha. Muitos anos passaram com esse sistema de drenagem. Foi já no final do século vinte que Condeixa instalou a central de saneamento e estação de tratamento de esgotos.
Segundo ponto, a Vala da Lapa é a linha de água que deriva do Caldeirão, junto à Quinta de S. Tomé, passa pela Rua da Água, Rio do Cais e segue pela vertente sudoeste de Condeixinha, Pelomes, Lapa, Entre-Moinhos, Travaz e as terras planas do Espírito Santo, Ribeira, etc. Imagine-se a quantidade de casas abrangidas por este ribeiro! Todas a despejar continuamente lixo para a água! Não admira, pois que, já no século dezanove o responsável pela saúde pública entendesse que “vão encher de miasmas...”.
Em terceiro lugar, a solução preconizada por esse responsável, de considerar a Varzea de Condeixinha, com “os seus agradáveis e magníficos pomares”, ponto de recepção dos despejos de parte importante da vila é, no mínimo, curiosa.
Mas o plano foi adiante e, durante um século, constituiu a drenagem possível da terra. A Varzea e Condeixinha tiveram de aceitar o esterco que outros faziam. O “extenso campo, longe da povoação”, cada vez foi ficando mais perto, obrigando os pobres moradores a suportar o “foco de infecção” desviado do Travaz.
Se em sistema de esgotos a Condeixa de outros tempos era assim, a higiene corporal condizia com a situação. A lavagem corporal estava restringida ao “banho semanal”, que era efectuado numa larga bacia de zinco onde a água, trazida a custo de uma fonte ou poço, servia para lavar quase uma família inteira. Primeiro cada familiar lavava o tronco e a cabeça, e só depois desta fase se passava à seguinte, a lavagem do resto do corpo. Isto, se as condições da água o permitissem!
Estes factos são tão surrealistas, que parecem pura invenção. Porém, compreenda-se que o conceito de higiene era muito diferente de agora.
Já noutro local do meu blogue fiz referência ao Tanque do Galaitas, no Paço, como local privilegiado para a higiene dos homens e rapazes de Condeixa, até meados do século XX. A inauguração do sistema de abastecimento domiciliario de água, em 1950, veio terminar com as práticas colectivas de banho. Agora sim, as casas dispunham de água limpa a correr das torneiras. Pouco a pouco, melhoraram os hábitos, felizmente. As habitações foram adquirindo espaços destinados à higiene.
Porém, a rede esgotos continuava a “desaguar” nos ribeiros. O aumento de utilização da água e o progressivo abandono da recolha de residuos para estrumar as terras, motivou o aparecimento das famigeradas fossas sépticas, o que contribuiu para contaminar as linhas subterrâneas de água. As fontes deixaram de poder matar a sede a quem passa, porque as suas águas ficaram impróprias para consumo. E se eram agradáveis as fontes de Condeixa!De água fresquíssima, mesmo em tempo de prolongado estio, poucas foram as que secaram. Condeixa tinha várias fontes, cada uma com as suas próprias caracteristicas. Em Condeixinha curiosamente a Fonte das Bicas
possui apenas uma saída de água. Num outro local do meu blogue “Lugares de Condeixa-Condeixinha” descrevo as razões que motivaram a mudança do local da fonte, então com três bicas, para onde agora se encontra e a remodelação a que foi sujeita em 1930.
Na Faia (R.D.Elsa Franco Sotto Mayor) existiu uma fonte, inexplicávelmente designada Fonte da Caraça

. Localizada em frente às instalações da Casa do Povo, ficava em plano inferior ao nível da estrada. Possuia um lindo painel de azulejos que foi retirado quando a fonte foi desactivada e não se sabe onde foi parar.
No Outeiro, descendo para as terras do Paraíso, sem qualquer adorno, surge um cano a sair do muro. É a Fonte do Outeiro

com a água a ser aproveitada para o lavadouro, escorrendo depois em regueira abençoada a alimentar as pequenas, mas produtivas hortas. Daí, certamente, a designação de Paraíso.
Já a fugir da vila, no meio-termo a caminho da Barreira, a Fonte dos Amores

, lindo local outrora rodeado de altas nogueiras que lhe conferiam o estatuto de espaço fresco e agradável. Possui ao lado um tanque de pedra que recebe a água das bicas e servia para dessedentar os animais vindos da Feira dos Quatro, na Barreira. Por ser local recatado, era também preferido pelas moças no encontro com os namorados.
Longe também, nas ricas terras das Fontaínhas, uma gruta de estalagtites orlada de avencas, a Fonte da Costa, com a água muito fresca a brotar do seio de areia branca. E, mais adiante, ao fundo da ladeira da capelinha da Senhora da Lapa, a Fonte da Lapa

com o seu belo painel de azulejos.
Eram as Fontes de Condeixa, tantas vezes citadas pelos poetas locais. Ramiro de Oliveira e Álvaro Pedro Augusto escreveram uma letra para canção, afinal uma ode às lindas fontes:

Se vais à fonte sozinha
Olhas tanto para trás
Que quebras a cantarinha
A pensar no teu rapaz

Se quebrar o meu asado
Santo António vou jurá-lo
A pensar no namorado
É capaz de consertá-lo!

Não corras cachopa
Que eu te quero falar
Co’a pressa até podes
O asado quebrar

Olha lá não quebre
Ora diz-me então
Palavras que alegrem
O meu coração!

Meu amor fazias bem
Se me desses, uns golinhos.
Na boca como também
Assim fazem os pombinhos!

Não corras cachopa...


Condeixa, Junho de 2011.
Cândido Pereira