domingo, 4 de setembro de 2011

AS PROFISSÕES E OS ARTISTAS DE CONDEIXA

"...pomposo e artístico retábulo de talha dourada formando uma sumptuosa capela,para ser colocada a imagem de S.Tomaz de Vila Nova,na Sé Nova,foi feito por um entalhador de Condeixa e os cónegos ficaram tão satisfeitos com o trabalho,que em 29 de Maio de 1864 resolveram dar-lhe,além do ajustado,mais uma gratificação de 20$000 réis,havendo respeito a fazer o retábulo com toda a perfeição e perder na quantia em que tomou a obra".(in Condeixa-a-Nova,de A.Santos Conceição).
A descrição refere-se ao século XIX,mas para além da segunda metade do século XX era possível encontrar na vila pequenas lojas de sapateiro,alfaiate,barbeiro,marceneiro/entalhador,ferreiro,ferrador,tanoeiro,latoeiro e serralheiro.Moleiros então,existiam dezenas e os pedreiros,bastantes,trabalhavam ao dia,nas raras construções,mais frequentemente na reparação ocasional de paredes,telhados e muros.
Mas para ser um bom profissional,era necessário aprender.E a aprendizagem do ofício fazia-se desde pequenino,alguns mal acabavam a instrução primária,outros nem isso conseguiam.E pagava-se para aprender!Regra geral,quando os pais punham o miúdo como aprendiz,pagavam ao mestre,normalmente com produtos da terra.
Por vezes acontecia uma criança ser de fraca compleição.Nesse caso,não ia para profissões de esforço mas sim para caixeiro de loja ou ajudante de qualquer escritório.Curiosamente,não se tratando própriamente de um ofício,a condição funcionava, apesar disso, como estatuto social!
Mais comum porém era a transmissão dos saberes,de pais para filhos.Daí as gerações continuadas de profissionais da mesma arte.
O Padre Dr.João Antunes,homem de franca apetência pelas artes,quando patrocinou a reconstrução da Igreja de Santa Cristina,apercebeu-se que os profissionais contratados para as reparações,tinham capacidades inatas,porém apenas empíricas.Executavam bem os trabalhos,mas não se interrogavam porque um determinado serviço podia ser melhor conseguido com conhecimentos técnico/científicos.
Tendo contratado a colaboração de mestres de reconhecido valor,como João Machado e António Augusto Gonçalves para realizar os mais delicados reparos,surgiu-lhe a ideia de criar uma escola destinada a ministrar aos operários o necessário saber científico.Desta forma e inteiramente a suas expensas,contratou como professores António Gonçalves, Abel Manta e Pedro Olaio e fundou a Escola de Artes e Desenho Industrial,a funcionar na sua residência.
Cerâmica,pintura, música,artes manuais, foram disciplinas que devotados alunos aprenderam durante os treze anos de existência desse polo de ensino.
O romancista Fernando Namora,aluno também de artes plásticas nessa notável escola,disse em autobiografia,referindo-se ao Padre Dr.Antunes""Financiava do seu desgovernado bolso uma escola de artes e ofícios,com mestres de quilate, e morreu sem um lençol na cama.Mas entretanto a vila multiplicara-se em pintores de domingo,marceneiros-artistas,ferreiros,compositores populares".
Nos ofícios,cedo se revelaram os conhecimentos adquiridos e ainda hoje,mais de oitenta anos passados após o fim da Escola,se pode apreciar o talento transmitido através de gerações.
Felizmente,embora o facto me pese demasiado na idade,recordo bem os grandes artistas de Condeixa.Tive o gosto de conviver com a maior parte deles,admirava-lhes o saber,aprendi a respeitá-los.
É com esse respeito que me permito nomeá-los pelas alcunhas,afinal segundos nomes que se colavam perfeitamente a cada personalidade,sem que daí  viesse qualquer conotação depreciativa.
Começo por referir os barbeiros,pois as barbearias eram estabelecimentos peculiares.Nas terras pequenas,meio urbanas/meio rurais,o trabalho do barbeiro manifestava-se mais ao sábado à noite,embora também se pudesse assistir a curiosas cenas de corte cabelo e barba,ao domingo de manhã.
Como já tive ocasião de referir noutro local do blogue,antigamente os barbeiros tinham uma função que ultrapassava o simples corte de cabelo.Nas terras pequena onde escasseavam os serviços clínicos,para arrancar um dente,espremer um furúnculo ou aplicar tisanas,bastava a"competência" do fígaro,auto-intitulado "Cirurgião-barbeiro"!.
A única referência que conheço sobre essas populares figuras,diz respeito a um barbeiro chamado Ti Ernesto que, a par da profissão,também "tratava"doentes e arrancava dentes.Pelas imagens que decoram alguns consultórios de dentista,imagina-se como isso se processava,assim a sangue frio,sem dó nem piedade.
O filho do Ti Ernesto,Adolfo Leitão,também era barbeiro.Lá está a transmissão de conhecimentos através de gerações.
Porém o estabelecimento que mais profissionais formou,foi a Barbearia Progresso,de António de Oliveira.Mestre António do Zé Velho,assim vulgarmente conhecido, além de competente profissional, era inspirado compositor de temas de música popular.Seu filho Ramiro de Oliveira,igualmente barbeiro e poeta,escrevia os poemas que o pai musicava.
Um pouco mais adiante, na mesma rua,situava-se a barbearia de Manuel Quaresma,o popular Manel Tagarela.Tive o gosto de ser seu cliente e amigo.Acérrimo adepto do Benfica, formava com o Zé Bacalhau(José Júlio Bacalhau),sportinguista ferrenho,Carlos Gualdino(Carlos Ramos Pereira),igualmente sportinguista e Zé Capado(José Luís Torres),benfiquista,um grupo que à segunda feira discutia calorosamente os desafios da véspera.
O Ganga(António Pessoa),inicialmente estabelecido em Condeixinha,ocupou posteriormente o rés do chão do esguio Ferro de Engomar, à esquina da Rua 25 de Abril com a Praça.Dono de linda voz de tenor,era frequentemente solicitado para cantar nas revistas musicais e em serenatas.
As restantes barbearias de Condeixa, pertenciam respectivamente a João Rito,à esquina da Praça com a Rua Dr.Fortunato Bandeira de Carvalho,a João Borrega(João Ramos)em frente ao Palácio Sotto Mayor e, ao princípio da Rua D. Elsa Sotto Mayor, o Sr. Rosa, avô dos agora também barbeiros, Alexandre e António Rosa.
No Outeiro, o Ti Picaroto(Francisco Caridade),fazia barbas e cortava cabelos ao domingo de manhã,em frente à sua casa,no Largo de S.Geraldo.

Está terminado o capítulo referente às barbearias.Outras profissões ocuparão os próximos episódios.

domingo, 14 de agosto de 2011

SOBRE O TEMA "A BALADA DA NEVE"

A Balada da Neve,de Augusto Gil, é um dos poemas mais divulgados em Portugal. Incluido em diversos manuais escolares,faz parte do meu imaginário, como o fará de tantas outras pessoas que o leram ou declamaram em récitas de Escola.
O grande João Villaret "dizia-o"com a simplicidade que os versos sugerem,mas, simultâneamente, com a ternura comovente do seu final.
Nesta tarde calma de verão,deu-me para comentar em verso este lindo poema.

"Batem leve,levemente..."
Os livros antigamente
Tinham histórias e poemas
Recordo ainda temas
Que ensinavam a gente
A gostar do que se lia
Fosse prosa,poesia
Teatro de Gil Vicente
"Como quem chama por mim..."
É uma coisa que se sente
"Será chuva,será gente
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim..."
Da cabeça não saía
O dia envolto num véu
"Fui ver, a neve caía
Do azul cinzento do Céu..."
Como é linda, a neve!
"Branca e leve,leve e pura..."
É bela a sua brancura
De noite, parece dia!
"Há quanto tempo a não via
E que saudade, Deus meu!..."
Meu bafo a janela embaça
"Passa gente e quando passa..."
Os dias parecem iguais
"E noto,por entre os mais
Os passos miniaturais
Duns pézinhos de criança..."
Recordo os versos sofridos
"E descalcinhos,doridos
A neve deixa 'inda vê-los
Primeiro,bem definidos
Depois, em sulcos compridos
Porque não podia erguê-los..."
Sofra o mundo,em redor
"Mas as crianças,Senhor!
Porque lhes dais tanta dor
Porque padecem assim..."
Não era p'ra mim surpresa
O final da oração
"Uma infinita tristeza
Uma funda turbação
Entra em mim,fica em mim presa
Cai neve na Natureza
E cai no meu coração!"

Condeixa,14 de Agosto de 2011
Cândido Pereira

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

TEATRO DE REVISTA EM CONDEIXA

Em 1979,Ramiro de Oliveira,o poeta popular que escreveu as letras de muitas e belas melodias de seu pai,Mestre António de Oliveira e de seu irmão Maestro Saúl de Oliveira Vaio,escreveu uma revista que chamou "CONDEIXA SEM MÁSCARA",contando para isso com a colaboração do Rancho Folclórico e Etnográfico da Casa do Povo de Condeixa e de alguns dos seus elementos para a representação de vários números de uma outra revista de muito êxito,representada em 1936 no Cine-Avenida de Condeixa.Foi com muito prazer que aceitei o convite para ensaiador.
Dos quadros que melhor aceitação tiveram,contava-se "A Escarpiada e o Licor de Leite",na original revista cantado por Maria Bernardes da Silva(Maria da Joana)e Raúl Geraldes.

Ela:
Eu sou a escarpiada
Muito doce e saborosa
Bastante apreciada
Por ser tão apetitosa
Muitos a mim se atiram
Com instintos de leoa
Também não admira
Pois que todos me acham boa.

Ele:
Sou o licor de leite
Branquinho e açucarado
Por isso quem me bebe
Depressa fica banzado
Descendo lá das mudas
E do Bairro do Quelhorras
É vê-los sair todos
Soltando vivas e morras.
Ó escarpiada
Mui saborosa
E amarelada
Chega-te a mim
Que quero dar-te
Uma dentada.

Ela:
Licor de Leite
Estás a mangar
Meu marotão
Estás todo feito
Com esse jeito
Mas isso não!

Ele:
Há gulosos por aí
E há gulosas também
Que não prescindem de mim
E me bebem muito bem
Quando lhes subo à cabeça
O delírio é permanente
Tudo baila,tudo brinca
Tudo canta,minha gente!

Ela:
Com açucar e canela
E a côr acastanhada
Além de doce e bela
Sou bem feita,bem formada
Dizem que abro o apetite
E também julgo que sim
Porque vejo os lambareiros
Todos de volta de mim.
Grande consumo
Por toda a parte
Cá e p'ra fora
Sou amassada
E sou formada
P'lo Ai que Chora.

Ele:
E eu também
Mas vendo bem
Há muitos anos
E que o digam
Os que aqui param
Do Costa Ramos!

Como explicação,Costa Ramos era uma referência aos motoristas dessa firma de transportes rodoviários que,na circulação Lisboa-Porto,aqui paravam para tomar as refeições,regra geral,na taberna do Zé David.
Da revista "Isto é Condeixa",representada na vila em 1964,foi recriada a fantasia "Condeixinha e Outeiro",nessa altura interpretada por Lurdes Loio e José Pinto:

Outeiro
Gabarolas!Folião e bairrista!Saiam para a rua,venham para a festa e veremos se há aí quem me resista!A mim,e até ao meu par!Se Condeixinha vier...vocês vão ver,se há alguém capaz de nos vencer!

Condeixinha(entrando como por acaso):
Não vencem,não!Mas tu sem mim,também não és ninguém.Senão,diz-me:onde é que tu tens graça que ultrapasse a minha graça?

Outeiro:
Aspiro o aroma sem igual,do arvoredo...do jardim do meu Hospício.Ouço cantar alegre o rouxinol!

Condeixinha.
Mas diz-me,com franqueza,se em beleza,o encanto do Travaz lhe fica atrás?

Outeiro:
Onde tens tu um pôr-do-sol tão belo como o meu?

Condeixinha:
Mas não tens o encanto da Lapinha!O cantar sempre moço da levada...não ouves os moinhos,cansados,velhinhos,mas sempre criancinhas no palrar!

Outeiro:
Mas tenho em altar,misteriosos recantos de belezas sem par!Das pedras do meu solo,rompem flores...

Condeixinha:
E eu tenho-as de mil cores(tantas vezes já o tenho dito),são silvestres,mas são flores,espalhadas pela encosta onde habito!

Outeiro:
Deixas-me falar?

Condeixinha:
Espera,temos outras contas a ajustar!Porque andaste a cantar que eras folião?Que eras o"Bairro Lindo das Espanholas"?Oh!meu grande gabarolas!O que és tu,sem mim?

Outeiro:
AH!Tu falas assim?Não te lembras,vaidosa miúdinha,oh!Condeixinha,quem começou?Tu não cantaste nada?Não vieste para a rua convidar os rapazes a subir a ladeira,sem canseiras,só para lá irem buscar o par?Não disseste que"o sol rezava no teu seio,todos os dias"?Como tu te iludias!

Condeixinha:
Não iludia,não!E tenho mais para dizer.Porque me chamaste regateira,Marcha dos filhos da rua?


Outeiro:
Não foste tu a primeira,não foste tu,minha tola quem primeiro cantou então,que eu trazia na cachola,chapeu de grude e cartão?

Condeixinha:
Nãofalemos então mais,nas coisas que já lá vão!

Outeiro:
Bom,semprefoi bom recordar,e lembrar de viva voz,aos de mais fraca memória,que a nossa história...é tão comum,tão igual, que sempre que há festival,não podem passar sem nós!!!

(Cantando)

Condeixinha:
Tu tens "galinhas" eu "patos"
"cavacas"temos iguais
Já lá tiveste uns "patacos"
Mas notas eu tive mais.

Tive conversa barata
Mas cabecinha entendida
Tu tinhas uma de"prata"
E até fugiu p'rá Avenida.

A cadeia foi-se embora
O teu Colégio também
Já pouco mais tens agora
Sabes isso muito bem!

Outeiro:
Com moedas aos alqueires
Porque és tu tão mafarrica?
Cala a garganta que tens
E faz figura de rica

Tenho Alcobaça,Viseu
E tu Braga e Guimarães
Tudo o que tens,tenho eu
Tudo o que tenho,tu tens

Não contesto essa verdade
Mas ouve,que não te engano
Ainda tenho Caridade
E Salicús todo o ano!


Era assim que se demonstrava a velha rivalidade Condeixinha-Outeiro!
Para finalizar,dizia ainda o Compére:

Este espectáculo está a chegar ao fim,mas antes queremos apresentar-vos uma canção,ou antes,um Hino a Condeixa,que foi cantado há cerca de vinte anos por António Pessoa,numa das festas realizadas na Casa do Povo,por ocasião dos Santos Populares.Vai cantá-la o mesmo António Pessoa.

Entre a serra e a campina
Que o Mondego vem beijar
Há uma terra pequenina
Que em beleza não tem par

Não mora nela a tristeza
Mas quem por ela passar
Parte triste e com certeza
Vive triste até voltar!

Palácios velhinhos
Solares de saudade
Palreiros moinhos
Hospitalidade!
Recantos de sonho
Que a graça não deixa
Não tiro nem ponho
Tudo isto é Condeixa!

Nesta terra portuguesa
Que a natureza moldou
Há legados que a nobreza
Longos anos habitou
Vê-se o sol ao fim do dia
Pôr em festa o horizonte
Com recitais de poesia
Ao redor de cada fonte.