domingo, 18 de dezembro de 2011

O PRESÉPIO PORTUGUÊS

   A crise provocada pela ganância de banqueiros,políticos e mais personagens sem escrúpulos,está afectar todo o mundo.
   Portugal,pequeno país dependente económicamente,sofre bastante com as consequências.É já visível o efeito,mesmo nas classes consideradas de médio rendimento.Há um manifesto retraímento nas compras de celebração do Natal.Isso seria de menor importância, se não se traduzisse em incapacidade de atender as necessidades mais primárias!
  A sociedade de consumo,promovida pela criação de símbolos como o Pai Natal,tem-nos feito esquecer valores tradicionais muito mais genuínos,onde o espírito natalício era vivido de forma verdadeiramente familiar.
  Ao reler um velho livro,encontrei o texto de um grande escritor português,Ramalho Ortigão.Não resisti à tentação de o copiar,em memória de algo que está quase a desaparecer da nossa tradição:o Presépio!

                           PRESÉPIO DA MINHA INFÂNCIA,de Ramalho Ortigão.

   Era uma grande montanha de musgo,salpicada de fontes,cascatas,de pequenos lagos,serpenteada de estradas em ziguezague e de ribeiros atravessados de pontes rústicas.
  Em baixo,num pequeno tabernáculo,cercado de luzes,estava o divino bambino,louro,papudinho,rosado como um morango,sorrindo nas palhas do seu rústico berço,ao bafo quente da benígna natureza representada pela vaca trabalhadora e pacífica e pela mulinha de olhar suave e terno.A Santa Família contemplava em êxtase de amor o delicioso recém-nascido,enquanto os pastores,de joelhos,lhe ofereciam os seus presentes,as frutas,o mel,os queijos frescos.
  A grande estrela de papel dourado,suspensa do tecto por um retrós invisível,guiava os três reis magos,que vinham a cavalo descendo a encosta com as suas púrpuras nos ombros e as suas coroas na cabeça.Melchior trazía o ouro,Baltasar a mirra,e Gaspar vinha muito bem com o seu incenso dentro de um grande perfumador de família,dos de queimar pelas casas a alfazema com açúcar ou as cascas secas das maçãs camoesas.
 Atrás deles seguia a cristandade em peso,que se figurava descendo do mais alto do monte em direcção ao tabernáculo.Nessa imensa romagem do mais encantador anacronismo,que variedade de efeitos e de contrastes!Que contentamento!Que alegria!Que paz de alma!Que inocência!Que bondade!
 Tudo bailava em chulas populares,em velhas danças moiriscas,em ingénuas gavotas,em finos minuetes de anquinhas e de bico de pé afiambrado.
 Tudo ria,tudo cantava nesses deliciosos magotes de festivais romeiros de todas as idades,de todas as procissões,de todos os países,de todos os tempos!
 Alguns-os mais ricos presépios-tinham corda interior,fazendo piar passarinhos que voavam de um lado para o outro,mexiam as asas e davam bicadas nas fontes de vidro,em que caía uma água também de vidro,fingida com um cilindro que andava à roda por efeito de misterioso maquinismo.
 Todas estas figuras do antigo presépio da minha infância tinham uma ingénua alegria primitiva,patriarcal,como devia ser a de David dançando na presença de Saul.Dessas grandes caras de páscoas,algumas modeladas por inspirados artistas obscuros,cuja tradição se perdeu,exalava-se um júbilo comunicativo como de uma grande aleluia.
  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ESPIRITISMO OU ESPIRITUALIDADE

Estes são temas que devem ser separadamente tratados,embora no fundo, a raíz seja muito próxima,em alguns aspectos.
Não vou,evidentemente,fazer o tratamento de cada um.Este não é o lugar próprio,nem os meus conhecimentos o permitem.Conheço apenas a concepção básica:"espiritualidade é a busca do transcendente,entendendo que cada um de nós possui uma alma(o espírito),que se liberta do corpo no momento do falecimento".Já o espiritismo,diz Allan Kardec,"é a comunicação com esses espíritos".A prática desta comunicação obtem-se com a utilização de "médiuns",individuos que se pressupõe estarem dotados com a capacidade de entrar nesse mundo fantástico,onde moram as almas.
A abordagem destes temas,serve-me apenas como prefácio para mais um dos meus "exercícios de memória",relatando coisas que se passaram numa época já bem remota,no tempo da minha juventude.

No início da década de 1950,alguns jovens,estudantes liceais,(creio que já frequentavam o Externato Infante D.Pedro),decidiram criar em Condeixa uma agremiação estudantil do género das repúblicas coimbrãs.
Num velho casarão,fundaram então a Real República das Catacumbas,esta última designação  devida ao facto de a parte de trás da casa confinar com uns moinhos,dando a vaga ilusão de grutas catacumbianas.
É claro que a república não servia de moradia aos estudantes e apenas era utilizada como ponto de reunião daquele grupo de amigos e local de ensaios para as serenatas que,no tempo,se faziam às bonitas raparigas de Condeixa e arredores.
Um dia,dois elementos do grupo trouxeram a ideia de realizar sessões de espiritismo.Não mais na minha vida fui aliciado para tais práticas,logo não sei se aquilo era bem executado.
"Falar" com os mortos,não é tarefa que se possa fazer de qualquer maneira!Exige tratamento personalizado,com ambiente propício.Por isso,à roda de uma mesa de pé-de-galo,reunia-se um grupo,sempre ímpar, de pessoas.A utilização daquele tipo de mesa era indispensável,como adiante se verá!
Sentados com as mãos abertas em cima da mesa e os dedos da extremidade de cada mão a tocarem-se nos dedos vizinhos(só assim "a corrente", qual circuito eléctrico,se pode estabelecer),iniciava-se a função.A luz do candeeiro era substituida pela amarelenta vela de estearina ou,melhor ainda,pelo morrão da candeia de azeite.Seguia-se um curto período de concentração.Depois,um dos "espiritas"informava o "além"que pretendia iniciar a comunicação e que a resposta devia ser dada por batimentos da mesa,um só para repostas sim,dois para não.Após esta indispensável informação,convocava-se o espírito com quem se pretendia "falar"..E começava a consulta,género:"És o espírito de fulano?"
Muito raramente a alma invocada se recusava a participar.Mas,quando tal acontecia,era porque estava presente algum céptico.Aí,não havia maneira de convencer o espírito a colaborar!A mesa entrava em batimentos descontrolados,cheia de tremeliques e a confundir as respostas.
Um dia em que isso aconteceu,fomos encontrar o intruso incrédulo,bem escondidinho para ver no que aquilo dava!
Mas,regra geral,até se conseguia um bom nível de conversação.É certo que bastante cansativa para o desgraçado do "médium"que tinha de suportar a mesa constantemente a bater-lhe nos joelhos.
As perguntas não podiam ser complicadas.Nada de querer saber como era a "vida"lá nos confins,ou se estava bem quentinho na brasa das penas do inferno.Aliás,estes desgraçados não tinham licença para comunicar.Nem os do purgatório!Sómente as almas puras e,por especial deferência,as que ainda "viviam"no limbo,que é assim uma coisa "nem carne,nem peixe",um espaço onde se fica transitóriamente,até à decisão suprema.
Visto à distância de não sei quantas dezenas de anos,até dá para fazer graça.Mas na altura,a questão era muito séria!
Um dia,estávamos na Praça a conversar sobre essas estórias fantasmagóricas,sentados num banco.Na altura havia uma grande vala,aberta para a colocação de cabos telefónicos.No auge da conversa,quando um dos intervenientes contava o episódio daquela alma que foi recambiada para o inferno,por castigo de dar com a língua nos dentes e revelado segredos que não devia,um curto-circuito nos cabos eléctricos de uma consola provocou grande clarão e o respectivo estrondo.
Aquilo parecia ensaiado!De uma só vez,todos se lançaram em salto acrobático para dentro da vala!
Bem,o susto foi tão grande que dois dos elementos do grupo,moradores numa aldeia próxima,não quiseram ir para casa sózinhos e um dos restantes companheiros teve de os acompanhar.Pudera,ele também não tinha coragem de ir para casa!
Mas as sessões não se limitavam à sala da república.A fama dos espiritas ultrapassou as paredes e o grupo começou a fazer sessões ao domicílio.
Um dia,fomos a casa de um conhecido e excêntrico clínico.A função decorreu tão bem,com a as almas bem dóceis ,a responderem ao longo interrogatório.Logo o anfitrião passou um atestado de competência ao grupo!Evidentemente,para gozar com a malta.Ou talvez não.Ele era mesmo excêntrico!
Numa terra pequena,onde tudo se sabia,o assunto passou a ser motivo de várias discussões.Os mais crentes afirmavam a pés juntos que aquilo era mesmo a sério.Mas há sempre os desmancha-prazeres!E resolveram desmontar o imbróglio.
Foi o grupo convidado para realizar mais uma sessão domiciliária.Quais actores participantes numa peça,ou músicos convidado para um forrobodó,lá fomos,convencidos da nossa superioridade de pessoas capazes de comunicar com o além.
Chegados à casa em questão,apresentaram-nos uma mesa de pé-de-galo enorme,em sólido bronze.
Inocentes,nem desconfiámos da marosca..Apagaram-se as luzes ficando apenas a bruxuleante vela e toca a iniciar a necessária concentração..O "médium" convocou os espíritos.Nada!.Mais uma chamada.Nem sequer uma leve oscilação da mesa!Ainda pensámos que a situação era devida à presença do dono da casa,com fama de bruxo!Rogámos-lhe que saísse,o que fez,contrariado.
Mas o mal estava feito!
Portando-se como meninos birrentos,os espíritos recusaram qualquer convite,sem nos dar cavaco!Já estávamos a ficar azuis.Então não é que as alminhas nos íam daixar ficar mal?
E foi isso que aconteceu,ninguém compareceu aos insistentes apelos!Não havia lugar para dúvidas,eles estavam mesmo zangados com a utilização da mesa de bronze!
Anos mais tarde,decobrimos que as mesas de pé-de-galo em madeira,são muito mais fáceis de manobrar!