quarta-feira, 7 de março de 2012

O CASO DO CRIME MISTERIOSO-por Cândido Pereira-Colecção "Eles comem tudo"

   A primeira pessoa a dar com "aquilo",foi a senhora Maria,cozinheira,lavadeira e criada para todo o serviço.
  Gritou horrorizada e fugiu espavorida!
  Vieram os vizinhos e veio o polícia que estava de serviço na rua.
  A porta foi aberta-perdão,já estava aberta,mas tiveram cautela,não fossem desaparecer possíveis impressões digitais.Entraram na cozinha e constataram que o susto da criada era justificado.
  Por toda a parte se via sangue.Os bancos estavam tombados,a loiça partida,uma panela de aluminio amolgada e a "arma do crime",uma faca de cozinha afiada e reluzente,manchada de sangue,no chão,junto à panela.
  O polícia,Cristiano de seu nome,influênciado por inúmeros romances da Vampiro,julgou-se nas docas de Londres,a braços com um abominável crime,quem sabe,perante um novo "Jack,o Estripador"!
  Proíbiu imediatamente que tocassem fosse no que fosse,encarregou um dos presentes de tomar conta da cena e foi telefonar ao "Chefe".
 -Está?É o Senhor Chefe?...daqui fala o Cristiano...não,não!Não é do Real Madrid.Ah!pois,mas eu até sou do Benfica!... Daqui fala o Cristiano,agente três quatro sete.O que foi?...houve aqui um crime.Onde?Na rua dos Candongueiros,Vila Joaquina...sim Chefe,eu espero!-
 Depois do telefonema,o três quatro sete voltou ao "lugar do crime".Passado algum tempo,chegou um carro cheio de polícias que começaram logo a tirar informações,impressões e conclusões.
 E a conclusão do Chefe,foi a seguinte:"Joaquina,uma senhora viúva e que vivia só,proprietária e habitante do prédio,foi assaltada por um ou mais ladrões,para lhe roubarem o "pé de meia"escondido debaixo do colchão.Provavelmente estava na cama,pois esta encontrava-se desfeita e,ao ouvir o barulho vindo da cozinha,(um vidro da janela estava partido)levantara-se e fora surpreendida pelos gatunos que a espancaram(uma tranca da porta estava também suja de sangue)e a mataram!
 -Bravo,Chefe!disse o polícia Cristiano.Mas onde está o corpo?
 -Levaram-no num carro e deitaram-no ao rio,sentenciou o Chefe!Imediatamente ordenou a dois subordinados que fossem fazer buscas no rio.Voltou a interrogar a criada chorosa.
-A minha patroa,coitadinha,era muito boazinha!Até costumava dar-me,de vez em quando,as roupas que já não queria.Eu bem as recusava,porque aquilo nem para panos de limpar o pó servia.Mas ela insistia tanto...
-Deixe-se de conversa fiada e vamos a factos,gritou o Chefe,com o seu vozeirão.
-Sim,meu senhor.Pois ontem ela estava um pouco adoentada.Ofereci-me para cá ficar,mas não aceitou.Ainda bem!
-Ainda bem?
-Sim,porque se eu cá ficasse,também morria,não era, meu senhor?
-Eu sei lá se era!...
 O interrogatório decorreu deste modo,ficando apenas apurado ter a senhora Maria sido despedida de outra casa,por roubar cinco quilos de açucar-aos bocadinhos-como ela dizia.
 O Chefe é que não foi mais em cantigas.Começou logo a desconfiar.E depois de várias contradições da mulher,chegou a uma conclusão-notável inteligência!-:O assassino era o mordomo...ou melhor,a   criada!
 Ninguém,melhor que ela sabia da existência do esconderijo do dinheiro.Quando nessa noite se ofereceu para ficar a fazer companhia à patroa,ao contrário do que disse,aceitou.Então,aproveitou a oportunidade,matou a pobre viúva,escondeu o corpo em qualquer sítio,talvez até o tenha enterrado no quintal e depois fez aquele alarido todo de manhã,como se estivesse inocente.Mas nem sequer tinha um alibi para justificar o tempo decorrido desde que supostamente saiu daquela casa,até que voltou no dia seguinte.
 E o Chefe não esperou mais nada.Toca a ir presa!Lá na esquadra se resolveria tudo e ela seria obrigada a confessar o crime.
 A senhora Maria gritou,esperneou,teve até um fanico,mas o Chefe não se condoeu.Um par de algemas e pronto,aí vão eles.
 Quando chegaram à porta,para sair,aparecer uma senhora,indignada.Trazia um braço e uma perna com grandes ligaduras e no rosto,três ou quatro cruzes de adesivos.
-Que faz esta gente toda na minha casa,senhora Maria?
 Mas a criada não respondeu.Desta vez,desmaiou de verdade!
 O Chefe exigiu à senhora que se explicasse e ficou tudo esclarecido.
 Como se sentisse doente,de manhã quando se levantou,preparou-se para matar um galo e fazer uma canjinha.O pior é que o capão era bravo e a senhora Joaquina tinha pouca prática de degoladora.Meteu a faca à goela do bicho e este,já a sangrar,saltou-lhe das mãos.A senhora Joaquina procurou agarrá-lo,mas partiu um vidro da janela e feriu-se no braço.Agarrou na tranca e só conseguiu partir a loiça.Depois,cortou-se no rosto e na perna.Saiu à pressa para ir fazer tratamento ao hospital,porque os ferimentos deitavam muito sangue.
 E assim ficou esclarecido "O caso do Crime Misterioso",como o polícia Cristiano,o três quatro sete,já intimamente lhe tinha chamado!Diga-se de passagem que não ficou lá muito satisfeito com esta solução,porque o Chefe descarregou nele toda a bílis provocada pela decepção e triste figura.
 A senhora Maria acordou do desmaio e,depois de saber a estória,abraçou-se à patroa e foram fazer a tal canjinha com o maldito galo,que foram encontrar morto,junto à capoeira.
 O polícia Cristiano jurou não voltar a ler romances da Vampiro.E um vizinho mais esperto,sentenciou:
"Nunca julgues os casos,só pela aparência"!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

AS FILARMÓNICAS DE CONDEIXA

Um amigo,com ascendência directa em famílias antigas de Condeixa e,por isso, muito interessado no que à vila diz respeito,enviou-me há dias o retrato de uma filarmónica de Condeixa.Fotografia muito antiga,dos finais do século XIX,com a linda porta e janela da Capela da Quinta de S.Tomé como pano de fundo,interrogando se teria a ver com a possível presença de um seu antepassado.Questionava-me então porque nunca escrevi nada sobre as bandas de música de Condeixa.
É claro que o repto não podia ficar sem resposta!
O que sei sobre o tema,é muito pouco.Por essa razão,permito-me transcrever o texto escrito pela parceria Dr.Fernando Rebelo/Isac Pinto,editado em cadernos intitulados genéricamente "Subsídios Para a História de Condeixa",com o sub-título:


                                                    "A "Música Velha".







A conhecida família Bandeira,que sempre andou ligada às iniciativas construtivas que têm surgido em Condeixa,esteve unida à prmeira filarmónica da vila,por intermédio do seu representante,Fortunato Maria dos Santos Bandeira,que pode ser considerado o seu verdadeiro fundador.
Iniciada em 1850,foi seu primeiro regente José Patrício da Silva,figurando nela,como componentes mais entusiastas o citado Fortunato Bandeira(figle),Marcelino Rodrigues«Amâncio»(trompa lisa),José Simões(trombone de varas),José Vicente de Oliveira e Inácio de Magalhães(cornetas de chaves).
Também nela tocaram João Bandeira,João e Joaquim Patrício da Silva,Joaquim Antunes Buraca,Alexandre Dinis Leitão,António Canela,António Pessoa(pai),Francisco de Assunção(Boneco),António Fernandes da Piedade,Manuel Fernandes Pico,Francisco Rodrigues(Amâncio),José Duarte de Paula(Garoto),José Galvão,Francisco e José Maria Simões de Carvalho,Manuel Luís dos Santos e seu enteado António Duarte Braga.
Este conjunto musical possuía um grupo de cantores de Igreja,possivelmente criado mais tarde,talvez em 1863,dirigido por José Maria Perdigão que, naquela época,era apontado como muito sabedor,cantando ora como tiple,em falsete,ora como baixo profundo,na sua voz natural.Acompanhavam-no o tenor João Patrício da Silva e os baixos António Fernandes da Piedade e Francisco de Assunção.
Em Abril de 1852,esta filarmónica tocou durante a recepção feita na vila à Raínha D.Maria II,que pernoitou no Palácio de Francisco de Lemos Ramalho de Azeredo Coutinho,com seu marido, o rei consorte D.Fernando e seus filhos...( não tem interesse para o tema em questão)
...Até ao ano de 1877,já com a luta acesa na vila entre os partidos regenerador e progressista,a filarmónica de Fortunato Bandeira manteve-se independente,embora com altos e baixos.Porém, nesse ano,não resistiu ao abandono a que foi votada pelos músicos progressistas que,convidados pelo chefe local do partido,Conselheiro António Egípcio Quaresma Lopes de Vasconcelos,se juntaram em nova filarmónica.
A do Bandeira extinguir-se-ia se o já citado Francisco Lemos não a tomasse sob a sua protecção,passando a mantê-la e,desde então,começou a ser conhecida por Música do Partido Regenerador ou dos "Sardinhas",por ser regente dela José Silvestre Ferreira Sardinha.
Em 1880 foi a Coimbra tomar parte nas festas do trcentenário de Camões e em 1882 foi à mesma cidade por ocasião das Comemorações do Centenário do Marquês de Pombal.
Extinta a filarmónica progressista,por volta de 1895,os músicos desta ingressaram na regeneradora e da fusão nasceu o nome de Lealdade Condeixense,que por decreto de 17 de Outubro de1904,foi autorizada pelo rei D.Carlos,a ter o título de Real.
A Carta Régia respeitante a esta mercê,encontra-se registada no Real Arquivo da Torre do Tombo a fls.12 do livº19 de Registo de Mercês,estando original actualmente na posse de Miguel Carlos Quaresma.
Foi em 29 de Novembro de 1899 que se constituiu oficialmente,por escritura,a Filarmónica Lealdade Condeixense,assinada pelo escrivão Adelino Simões Ferreiura Godinho e pelos condeixenses Manuel Dias Coelho,António Oliveira Cabelo,António Loio Cera,João Marques Pita de Almeida,António Pessoa Júnior,António Augusto Quaresma,José da Costa,Jaime Fernandes da Piedade,Joaquim Pato,José Rasteiro Relvão,Joaquim da Assunção Preces,Albano Carlos Quaresma,Manuel Dinis Coelho,Manuel Firmino,José Simões Melâneo,João Fernandes Pico,ugusto Marta,Joaquim Cocenas,Aníbal Tavares Pessoa,Isac de Oliveira Pinto,António Maria Jacinto,João Ramos Sansão,Francisco dosSantos Oliveira,Manuel Antunes Cocenas e Alfredo Cocenas...

...Em 11 de Junho de 1907 tocou no jantar oferecido por Manuel Ramalho,no seu palácio, a El-Rei D. Carlos que neste dia visitou Condeixa,com o príncipe D.Luís Filipe.
Nessa data,era regida por António Ferreira Pena e tinha como executantes:António Oliveira Cabelo(o Camarão),António Loio Cera,Albano Carlos Quaresma;Adolfo Braga de Oliveira,Abel Ramos Sansão,José Policarpo da Costa,Semeão Braga de Oliveira,Teodorico Moita,Fernando Diniz Coelho,António de Oliveira,António Quaresma(Raça),Jaime Fernandes da Piedade,Francisco Marques Pita de Almeida,José Pereira da Fonte,Joaquim Pato,Aníbal Tavares de Almeida,José Rasteiro Relvão,Joaquim Abílio Preces,Joaquim Cocenas,António Pessoa,Artur Esteves,Francisco de Oliveira,João Fernandes Pico,António Gorgulho,João Bernardes da Silva,João Nogueira,Manuel Firmino,Hermitério Pato e António da Paula...

 ...E mais nove anos decorreram até que os músicos se dividiram para formarem a «Fina Flor Condeixense»,que fez a sua primeira apresentação na Barreira,em 2 de Fevereiro de 1920,dando início a uma rivalidade que durou trinta anos.
Embora se ressentisse,a «Música Velha» continuou tocando nas festas populares do concelho e outras,defendendo sempre o nome de Condeixa com afínco.
Vamos dar um exemplo desse bairrismo que poderá servir de exemplo aos que,actualmente,tanto dizem mal da sua terra.
À Festa da Senhora dos Milagres,em Cernache,no ano de 1932,foram duas filarmónicas:a Lealdade Condeixense e a do Cercal,regidas respectivamente,por Joaquim Jacinto e Oleiro.
Na noite do fogo,cerca das 3 da madrugada,como se tivesse esgotado o reportório da banda condeixense,o velhoAlbano Carlos mais o Francisco Pita,foram dizer ao Oleiro para acabar o arraial.Com ironia triunfante,foi-lhes respondido que«quem as tinha é que as jogava»,continuando a banda do Cercal a tocar,enquanto a de Condeixa se retirava envergonhada.
Desde esse dia, a Filarmónica viveu para a desforra e,esquecendo idades e melindres,entregou a direcção ao filho de Albano,o actual funcionário da Câmara Municipal,Miguel Carlos Quaresma,que então contava apenas 20 anos.
Na festa seguinte da Senhora dos Milagres,um ano depois,a «Música Velha» foi oferecer os seus serviços gratuitos à Comissão de de Cernache,com a condição de ali comparecer a banda do Cercal e,na noite do fogo,precisamente no mesmo local,os condeixensesz desforraram-se pois a banda adversária esgotou o seu reportório e a nossa continuou tocando.Foi um delírio a que não faltaram os foguetes,habituais companheiros das alegrias de Condeixa...
Até 1944,continuou a a música,a que também já chamavam do velho Albano,a percorrer algumas das festas mais importantes da região e mesmo a delocar-se longe.Assim,participou nos festejos anuais de Lamas,Miranda do Corvo,Muge,Atalaia, Eiras,Tovim,Glória,Penela,S.Martinho do Bispo,Torres do Mondego,Cernache,Soure,cidade de Coimbra,e tantos outros,não citando as dos concelhos de Condeixa,como as dos Passos,Ega,Furadouro,Zambujal,etc.
Em 1928,o ilustre pintor conimbricense Contente,pintou a bandeira da Lealdade Condeixense,que em 1944 amortalhou o corpo de Albano Carlos Quaresma,justa homenagem prestada pelos seus companheiros ao velho dirigente que,aos 69 anos,só tinha dois amores:o da família e o da sua música.
Falecido este baluarte da antiga banda dos Lemos,quando parecia que com ele morrera também a «Música Velha»,surgiu a dar-lhe novos alentos,uma comissão constituída por Dr.Fernando de Sá viana Rebelo,Dr.António Fortunato da Rocha Quaresma,António de Oliveira Cordeiro,Artur Varela,Isac de Oliveira Pinto,Jaime Francisco dos Santos e Álvaro Pedro Augusto.
E a velha filarmónica continuou,dirigida por Miguel Carlos Quaresma,regente encartado desde 1936,amadrinhada pela Senhora D. Maria Elsa da Piedade Sotto Mayor Matoso e com nova bandeira.
Teve seguidamente um período áureo sendo as suas exibições muito gabadas na Lousã(Senhora da Piedade),Coimbra(Rainha Santa),Figueira da Foz(S.João),Coimbrão,Muge,Atalaia,etc.,chegando a ser premiada com medalhas e fitas.
Instalando-se em Condeixinha,numa casa pertencente ao Dr.Joaquim Bandeira-mais uma vez a família Bandeira a acarinhar uma iniciativa-ali manteve a sua sede até 1949,data em que suspendeu a actividadedevido a exigências burocráticas e eclesiásticas,sobremaneira pesadas para os fundos da filarmónica.
Até quando?
Não é fácil vaticinar,pois a música velha tanto pode estar já amortalhada nas saudosas recordações dos seus fieis componentes,como de um momento para o outro,pode irromper pelas ruas da vila tocando marcial e entusiásticamemte o Hino dos Lemos,que pela última vez foi executado na Lousã,em 1948,frente à casa do Dr. Eugénio Viana de Melo,Governador civil de Coimbra,homenageando nele uma ilustre família que sempre acarinhou Condeixa,com particulares manifestações.



A ÚLTIMA FOTOGRAFIA DA FILARMÓNICA FINA-FLOR DE CONDEIXA(MÚSICA NOVA)


....E Condeixa nunca mais voltou a ter uma Filarmónica!

domingo, 18 de dezembro de 2011

O PRESÉPIO PORTUGUÊS

   A crise provocada pela ganância de banqueiros,políticos e mais personagens sem escrúpulos,está afectar todo o mundo.
   Portugal,pequeno país dependente económicamente,sofre bastante com as consequências.É já visível o efeito,mesmo nas classes consideradas de médio rendimento.Há um manifesto retraímento nas compras de celebração do Natal.Isso seria de menor importância, se não se traduzisse em incapacidade de atender as necessidades mais primárias!
  A sociedade de consumo,promovida pela criação de símbolos como o Pai Natal,tem-nos feito esquecer valores tradicionais muito mais genuínos,onde o espírito natalício era vivido de forma verdadeiramente familiar.
  Ao reler um velho livro,encontrei o texto de um grande escritor português,Ramalho Ortigão.Não resisti à tentação de o copiar,em memória de algo que está quase a desaparecer da nossa tradição:o Presépio!

                           PRESÉPIO DA MINHA INFÂNCIA,de Ramalho Ortigão.

   Era uma grande montanha de musgo,salpicada de fontes,cascatas,de pequenos lagos,serpenteada de estradas em ziguezague e de ribeiros atravessados de pontes rústicas.
  Em baixo,num pequeno tabernáculo,cercado de luzes,estava o divino bambino,louro,papudinho,rosado como um morango,sorrindo nas palhas do seu rústico berço,ao bafo quente da benígna natureza representada pela vaca trabalhadora e pacífica e pela mulinha de olhar suave e terno.A Santa Família contemplava em êxtase de amor o delicioso recém-nascido,enquanto os pastores,de joelhos,lhe ofereciam os seus presentes,as frutas,o mel,os queijos frescos.
  A grande estrela de papel dourado,suspensa do tecto por um retrós invisível,guiava os três reis magos,que vinham a cavalo descendo a encosta com as suas púrpuras nos ombros e as suas coroas na cabeça.Melchior trazía o ouro,Baltasar a mirra,e Gaspar vinha muito bem com o seu incenso dentro de um grande perfumador de família,dos de queimar pelas casas a alfazema com açúcar ou as cascas secas das maçãs camoesas.
 Atrás deles seguia a cristandade em peso,que se figurava descendo do mais alto do monte em direcção ao tabernáculo.Nessa imensa romagem do mais encantador anacronismo,que variedade de efeitos e de contrastes!Que contentamento!Que alegria!Que paz de alma!Que inocência!Que bondade!
 Tudo bailava em chulas populares,em velhas danças moiriscas,em ingénuas gavotas,em finos minuetes de anquinhas e de bico de pé afiambrado.
 Tudo ria,tudo cantava nesses deliciosos magotes de festivais romeiros de todas as idades,de todas as procissões,de todos os países,de todos os tempos!
 Alguns-os mais ricos presépios-tinham corda interior,fazendo piar passarinhos que voavam de um lado para o outro,mexiam as asas e davam bicadas nas fontes de vidro,em que caía uma água também de vidro,fingida com um cilindro que andava à roda por efeito de misterioso maquinismo.
 Todas estas figuras do antigo presépio da minha infância tinham uma ingénua alegria primitiva,patriarcal,como devia ser a de David dançando na presença de Saul.Dessas grandes caras de páscoas,algumas modeladas por inspirados artistas obscuros,cuja tradição se perdeu,exalava-se um júbilo comunicativo como de uma grande aleluia.