sexta-feira, 6 de julho de 2012



IGREJA DE SANTA CRISTINA



A LENDA 

Diz a lenda que Cristina, filha de um oficial do exército da Toscânia, se recusou a adorar os deuses pagãos e abraçou o cristianismo.Urbano,seu pai,rude inimigo dos cristãos,mandou que a chicoteassem.Foi nesse momento que começou o longo martírio de Cristina.Como não conseguiu demover a filha,Urbano ordenou o seu lançamento às chamas,que não a queimaram. Decidiu então mandar atar uma pedra de moinho ao corpo da filha e que a lançassem ao lago.A pesada mó flutuou e Cristina não pereceu.Mas seu pai, apoplexo com estes acontecimentos,morreu súbitamente.Dio,seu substituto,continuou a martirizar Cristina,sempre sem conseguir os seus intentos e só sendo atingida por inúmeras setas é que Cristina sucumbiu,tendo assim alcançado a glória eterna. A jovem virgem toscana morreu no ano 300 d.C.,passando ao Calendário Geral Romano, Martirológico, como Santa Cristina.



A VILA

Condeixa é terra de muita água.Embora não possua rios de grande caudal,está implantada nas faldas de montes de pouca altitude que fazem parte do maciço rochoso onde se situam as Serras de Sicó. Daí,através de linhas subterrâneas,a água tem ressurgimentos significativos em Alcabideque, Arrifana e em muitas fontes. A configuração geográfica da zona,de pequeno desnível,permite a lenta condução das águas em direcção à foz, criando condições para a montagem de engenhos hidráulicos de moagem de cereais ou lagares de azeite,uma industria que,durante vários séculos, se manteve altamente produtiva.Para se ter ideia,Condeixa chegou a possuir cerca de 300 moinhos e mais de 30 lagares de azeite.
Facilmente se depreende que uma das mais activas profissões era a de moleiro.A escolha de Santa Cristina com a mó presa por uma corda ao pescoço,para padroeira da terra,é perfeitamente justificada. 
No século XVI, Condeixa era um pequeno povoado quando D.Manuel I fez a tradicional peregrinação a Santiago de Compostela.Ao passar no local que alguns historiadores referem ser “um pequeno casal chamado Outeiro”,mas que já seria a actual Condeixa,a nova,pois outra existia,mais antiga e,por esse motivo, chamada Condeixa-a-Velha,alguns notáveis do lugar mostraram-lhe a igreja(seria talvez apenas uma capela)muito velha e quase em ruínas,tendo o rei ordenado que novo templo fosse edificado.Disso encarregou o Mosteiro de Santa Cruz,de Coimbra,senhor de vastos terrenos nas proximidades.A nova Igreja deve ter sido acabada de construir só em 1543,já no reinado de D.João III, por ser de 7 de Julho desse ano a carta em que Frei Braz de Braga dá ordem para que se faça “o contrato de mudança da Igreja de Côdeixa,como havia sido determinado”.

A passagem do Rei por Condeixa teve também o efeito de concessão do foral,lavrado em 1514.( Na Monografia de Condeixa,do Capitão Augusto dos Santos Conceição descreve-se assim a criação da Igreja de Condeixa-a-Nova:
Três anos depois da concessão do foral,em 2 de Novembro de 1517 Condeixa-a-Nova é erigida em curato,por escritura lavrada nas notas de Afonso Mancelos,presbítero e notário apostólico,na qual foi combinado entre o cónego da Sé de Coimbra,o prior do Sebal,Fernão Pires e Pero Afonso,procuradores dos habitantes de Condeixa-a-Nova,mas pertencentes à freguesia do Sebal:

“que os de Condeixa ouvissem missa na Igreja de Santa Cristina e recebessem nela os sacramentos,com a condição de irem ao Sebal à missa,três vezes por ano,domingo de Páscoa,dia de S.Pedro e Fieis de Deus,mas isto sem prejuízo das benesses e o que não cumprisse estas condições pagaria um arrátel de cera para a Igreja do Sebal



A IGREJA



Da primitiva Igreja de Santa Cristina,hoje pouco resta.Muitas foram as razões que motivaram sucessivos restauros a modificar-lhe a traça original.Uma descrição muito antiga refere que:”...a Igreja é toda feita em pedra de Ançã curiosamente lavrada e as paredes interiores forradas com azulejos dourados.Tem duas sacristias,ambas bem providas de ricos ornamentos e pelo corpo da Igreja muitas capelas de boa pedra e todas com os seus retábulos dourados.A capela do Santíssimo Sacramento é de muito culto e asseio e prata para o seu serviço,tem por ano de renda 250 mil réis,tendo capelão.A de Nossa Senhora do Rosário tem capelão com missa todos os domingos e dias santos.Há nesta Igreja três capelas particulares,sendo a das Almas de D.Lourenço de Almada,Governador de Angola e Mestre-Sala de D.PedroII;outra de João de Sá Pereira,fidalgo de S.Magestade e Senhor do Palácio dos Sás,outra de invocação de Jesus que tem jazigo dos Morgados Morais Botelho com carneiro bem lavrado com as suas armas e um padrão gravado na parede da parte da epístola em que declara que o Dr.Heitor de Morais Teixeira,cidadão de Coimbra,aplicara certas missas por sua alma”. 

“...a Igreja tem onze capelas,a maior dedicada a Santa Cristina.Do lado da Epístola,vêem-se cinco:a primeira,na colateral,dedicada a Nosso Senhor Jesus Cristo,onde se venera uma devota imagem de perfeita escultura.A segunda é dedicada ao Santíssimo Sacramento e de perfeita arquitectura,com meia-laranja abatida ,muito galante,com entrada em que se elevam duas colunas torneadas de galante obra, encontradas ao pé direito e sobre os capiteis descansam umas represas que fazem uma comprida arquitrave.É tudo em pedra de Ançã,como também o retábulo e o sacrário e outras imagens.A terceira é dedicada à Senhora da Piedade e é uma preciosa escultura em pedra,tamanho natural,de manto azul,com valiosa coroa de prata.A quarta é dedicada a Nossa Senhora da Conceição e a quinta a S.Sebastião.Da parte do Evangelho,a primeira é dedicada a Nossa Senhora do Rosário e tem uma imagem de grande devoção(talvez fosse colateral).A segunda é da Ordem Terceira e igual em tudo à do Santíssimo Sacramento.A terceira é das Almas.A quarta é de outra invocação e a quinta é da Pia Baptismal.Do segundo estilo há o arco da capela de S.Francisco,que foi da Ordem Terceira.” 
A descrição refere cinco capelas do lado da Epístola.Contando com a colateral,hoje dedicada a Nossa Senhora da Soledade,existem apenas mais três capelas.Sabe-se que junto à porta lateral sob o púlpito,existia outra capela,que foi entaipada durante obras antigas de restauro.Seria essa que Santos Conceição afirma ser a de Nossa Senhora da Piedade?E que foi feito da “preciosa escultura em pedra,tamanho natural,de manto azul,com valiosa coroa em prata”?Na capela do Palácio dos Lemos,existiu um imagem em pedra polícroma, da Senhora da Piedade.Quando a família Lemos vendeu a propriedade,levou consigo essa imagem, substituida pelos novos donos por uma Pietá em madeira,obra do escultor espanhol José Planes.

Não existe qualquer descrição,mas é possível que tivesse existido também uma imagem em pedra,de Santa Cristina.Na Capela de Póvoa de Pegas,segundo informação do senhor Padre Idalino Simões,pároco de Condeixa,há uma linda imagem de Santa Cristina.



Como já referi,as várias obras sofridas,modificaram bastante a estrutura geral da Igreja.O mais importante motivo relaciona-se com as invasões francesas,quando as tropas de Ney e Massena,em movimento de fuga da batalha das Linhas de Torres,acamparam uma vez mais em Condeixa e,numa política de terra queimada,incendiaram mais de quarenta prédios.A Igreja foi totalmente destruída pelo fogo.

Nas obras de restauro,efectuadas no reinado de D.Maria I ,por manifesta falta de verbas,mas também porque não houve a necessária sensibilidade artística,quase tudo foi alterado.A própria fachada foi modificada e,no frontespício,em baixo relevo foi colocado o escudo e a coroa usados no reinado de D.Maria. Encima a fachada um cruz trevada,ladeada por esculturas de pedra em forma de facho.


Desta restauração,nos fala A.Santos Conceição:
“Apesar dos estragos do incêndio e deste primeiro restauro,apresenta ainda bons espécimes de arquitectura manuelina e renascença italiana,conservando do primeiro estilo a capela-mór,quadrada,de contrafortes angulares no extremo e cobre-se de abóbada manuelina em forma estrelada,com cinco chaves de ornatos renascentistas,vendo-se uma cabeça de velho ao centro.O arco cruzeiro é do tipo coimbrão de meados de quinhentos,e nele os pés direitos e a volta são cortados de perfil em S”. 

A RESTAURAÇÃO DO INÍCIO DO SÉCULO XX

Em finais do século XIX,chegou a Condeixa um homem que veio dar nova vida ao panorama cultural da vila.Ordenado padre e licenciado em direito,o Dr.João Augusto Antunes veio para esta vila como Conservador do Registo Predial.
Homem culto,reparou que algo na Igreja não estaria conforme os documentos que entretanto lera.Herdeiro de grande fortuna (seus pais eram ricos talhantes em Coimbra e possuidores de vastos terrenos na insua, cerca do local onde hoje está situado o Parque Dr.Manuel Braga)dispôs-se a restaurar a Igreja de Santa Cristina.Para tal,contratou o conhecido escultor de Coimbra, João Machado e,auxiliado nos conhecimentos de história por António Augusto Gonçalves e Isac Pinto,ordenou a restauração de altares e capelas.Ainda citando A.Santos Conceição:”Do segundo estilo há o arco da capela de S.Francisco,que foi da Ordem Terceira e mostra,entre estuques,elemento do velho arco de renascença do século XVI e duas capelas postas a descoberto,por iniciativa do padre Dr.João Antunes,que restaurou à sua custa a capela de S.Teresa e,por subscrição pública,a actual capela do Senhor dos Passos.Esta possui abóbada do século XVI,formada por dois arcos cruzados...”. 

“Fica sob a torre o baptistério,no qual se vê um arco do século XVI-XVII.A pia baptismal é obra manuelina,bem moldurada e com alguns ornatos naturalistas.A capela do Santíssimo teve arco semelhante ao da de S.Francisco,mas encontra-se cheio de estuques,segundo fórmulas clássicas,muito usadas aquando da reconstrução da Igreja.As janelas da capela-mór são do século XVIII,com cabeceiras de recorte mistilínio”.



A IGREJA DE S.CRISTINA,NA ACTUALIDADE



O que até agora referi,baseia-se em documentos registados na obra de António Augusto da Conceição,”Monografia de Condeixa-a-Nova” e nos cadernos “Subsídios para a História de Condeixa”,coordenação de Fernando de Sá Viana Rebelo e Isac Pinto.

No início da segunda metade do século XX,a Igreja apresentava-se bastante maltratada.O tecto,em abóboda e com afrescos,tinha forte infiltração de água da chuva.Nas obras então efectuadas,repararam o telhado e cobriu-se todo o tecto com paineis de madeira.Na parede norte foram abertas duas janelas em arco geminado.A nível das capelas,algumas foram restauradas e descobriu-se uma outra,do lado da epístola,que estava entaipada. Foi também retirada a grade que dividia a nave.
A última restauração,ocorreu já no final do século XX.Profunda remodelação que envolveu a substituição total do telhado,no qual foi colocada uma tela protetora contra infiltrações.Todo o soalho da nave foi retirado, substituido por tijoleiras,renovadas ou acrescentadas as pedras dos rebatos e colocado um lambril em azulejo.

Fazendo uma visita à Igreja de S.Cristina,na actualidade,podemos observar alguns pormenores curiosos que não são descritos na sua história e nem sequer chamam a atenção imediata dos visitantes.

São alguns desses pormenores que passo a descrever,advertindo que se trata apenas meros exercícios de curiosidade e como tal devem ser entendidos.



AS CURIOSIDADES




Na face lateral esquerda do exterior da igreja,há uma porta que dá acesso à capela de S.Francisco. Numa cantaria foi gravado um A,encimado por coroa de visconde. Entrando pela porta lateral do templo,encontra-se à esquerda a pia de água benta,logo seguida do arco da capela do Senhor dos Passos.Penso tratar-se do arco primitivo,restaurado por João Machado.No entanto,é intrigante notar-se à altura da cabeça de um homem,vários buracos na pedra, dando a ideia de terem sido provocados por impactos de projécteis de arma de fogo.Será que,durante a ocupação pelo exército francês, ali foi alguém fuzilado? 
Entre a capela do Senhor dos Passos e a capela de S.Francisco,há uma tribuna,descrita em “Subsídios para a História de Condeixa”desta forma:«Aos 9 dias do mês de Dezembro de 1715,na Igreja de Santa Cristina deste lugar de Condeixa-a-Nova,em mesa com o Juiz e mais oficiais da Irmandade do Santíssimo Sacramento onde todos estavam presentes,chamados pelo Andador ao som da campainha tangida como é antigo costume,pelo senhor João de Sá Pereira,foi mandado apresentar uma petição com visto de Sua Ilustríssima em que lhe concede licença para abrir uma tribuna no corpo da Igreja,consentindo o povo,na parte onde se acha o púlpito ou ficar mais decente para o púlpito ficar com mais decência e sendo necessário recorrer a dita Irmandade lhe desse licença para pôr o dito púlpito da outra parte defronte de onde estava antigamente e como acharam não resulta detrimento à Irmandade,antes dá mais utilidade para o ornato e compostura da Igreja concederam os ditos Irmãos a dita licença que pedia,do que se fez este termo que Juiz e Procurador e mais oficiais assinaram e mandam se lançasse este termo no L.º da Irmandade.Cristovão de Almeida,Juiz;João Dias,Escrivão,e Frutuoso Dias.»
A transcrição diz ainda que a tribuna pertence à casa dos Condes de Anadia.

A grade de ferro que protege a tribuna,tem um reposteiro preto em cujo centro se acha bordado um escudo de armas curioso.Muito semelhante ao emblema do Boavista Futebol Clube,apenas difere deste porque tem uma coluna no meio do quadriculado e nele não existirem as letras BFC (Boavista Futebol Clube)sob a coroa de marquês. Do mesmo lado da igreja,e logo a seguir,é a capela de S.Francisco.Esta, a encimar o arco já anteriormente descrito,tem uma pedra de armas e a coroa de conde em relevo. 




Três símbolos heráldicos diferentes numa propriedade que a Casa dos Sás,viscondes de Alverca,reivindica como sua!


No lado da Epístola, há a capela de de Santa Teresa (actualmente é dedicada a Rainha Santa Isabel),a mesma que foi mandada restaurar pelo padre Dr.João Antunes,como de resto se pode comprovar numa pedra colocada do lado de dentro. O lindo arco,executado por João Machado,tem alguns motivos lavrados.O mais interessante será uma cara em baixo relevo que parece ser a do próprio Dr.João Antunes. 

A TORRE SINEIRA

A torre tem quatro arcos sineiros,cada um com o respectivos sino, virados aos pontos cardeais.O sino de poente é o maior,datando de 1807.Vulgarmente,é conhecido como “panela de cozer batatas”porque é tangido durante a Procissão do Senhor dos Passos.O seu som grave tocado ritmicamente,dá solenidade ao acto que se recorda nessa época da Quaresma.Para dobrar o sino,é necessário mais que uma pessoa.Antigamente,levava-se o sino à posição vertical invertida(cozer batatas)e só depois se deixava tombar,numa sequência de volta completa.O sino pequeno,do lado nascente, é simultâneamente o mais antigo e data de 1778.Do lado norte,o sino é de 1879 e do lado sul,de 1825.
Tem ainda a torre um relógio mecânico/eléctrico de dois mostradores,com frentes para norte e poente.Este relógio esteve longos anos parado.Possuía um sistema eléctrico que martelava nos sinos os quartos de hora e as horas.Na impossibilidade de recuperar esse sistema e porque entretanto já tinha sido adquirido um relógio com aparelhagem electrónica reprodutora de vários sons,apenas se procedeu à reparação do maquinismo electro-mecânico do relógio.Desconheço a razão porque actualmente se encontra desactivado.A encimar a torre,um cata-vento em ferro simbolizando uma bandeira, sobreposto por cruz de ferro trevada.

Um final poético, do Cancineiro de João de Lemos:


Tange,tange,augusto bronze
Teu som alegre e festivo
Despertando ecos do peito
Faz-me ficar pensativo

Era assim que tu cantavas
Quando nasceu minha mãe
Quando a viste ser esposa
E após ter filhos também.

Choraste quando ao sepulcro...
Longe ideia tão funesta!...
Era assim que te alegravas
Todos os dias de festa.

Era assim que te folgavas
Quando fui,débil menino
Mergulhar nas santas águas
O meu corpo pequenino.

Era assim que ao Céu dizias
Acompanhando orações
-Mais um roubo a satanás
Para Deus,mais um cristão.

Vou partir...talvez não volte
Mas levem-me ecos da serra
Estes sons hei-de amar sempre
O sino da minha terra!

Se inda aqui vier morrer
Chora no meu funeral
E se for em terra alheia
Repete o alheio sinal.

Tange,tange,augusto bronze
Teu som,casado comigo
Inda na morte me agrada


Inda ali sou teu amigo!





Esta descrição da Igreja de Santa Cristina,Matriz de Condeixa,não deve ser entendida como trabalho histórico.Tem apenas o valor de tema para blogue.


NOTA: As fotografias que ilustram o texto foram gentilmente oferecidas pelo Sr.º Rui Figueiredo Saraiva. Para ele, os meus agradecimentos.
Cândido Pereira
Condeixa, Julho de 2012.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

SANTOS POPULARES

Pronto!Aí estão as festas aos  Santos Populares!
Correndo Junho,por toda a parte surgem festejos assinalando o orago,ou simplesmente folgando.
Nas grandes cidades,vem à cabeça o Santo António de Lisboa,com Marchas dos bairros mais castiços competindo na Avenida da Liberdade.O fradinho singelo toma assim ares de Rei,nesses festejos.E até fazem dele casamenteiro!
Mas também o circunspecto São João vira folião de traulitadas com o alho porro nas cabeças dos reinadios das ruas do Porto.E vai ver Braga por um canudo,cantando e bailando à boa maneira minhota.
Nas vilas e aldeias,a tradição de construir grandes fogueiras que os rapazes arrojadamente saltavam,a mostrar valentia perante as bonitas moçoilas,foi lentamente desaparecendo,na razão directa da reabilitação de poeirentas ruas em lisos tapetes de asfalto.
Em Condeixa festejava-se alegre e democraticamente a tríade de santos,sem particular predilecção.
Claro que me refiro a Condeixa, local,hoje vila,mas em tempos recuados,freguesia de Coimbra.E,como tal,pertença de D.Pedro,o "das sete partidas",que é como quem diz,o ilustre príncipe, filho de El Rei D.João I e feito Regente por morte de seu irmão D.Duarte e menoridade do sobrinho Afonso.
Desde tempos antigos a vila tem tradição de grandes romarias e festas.
António Nobre,o Poeta da Torre d'Anto dizia assim nas suas "Cartas a Manoel":
"...Vamos por aí fora
Lavar a alma.furtar beijos,velhas flores
Por esses lindos,deliciosos arredores
Que vistos uma vez,ah!Não se esquecem mais.
Torres,Condeixa,Santo António dos Olivais.
Lorvão,Cernache,Nazaré,Tentúgal,Celas!
Sítios sem par!Onde há paisagens como aquelas?
Santos lugares,onde jaz meu coração
Cada um é para mim uma recordação...
Condeixa?
Vamos ao arraial que ali há!
Sol,poeira,tanta gente!É o mesmo,vamos lá!
Olha!Estudantes dando o braço às raparigas
Arrancam-lhes do seio arfando as violetas
Aos ombros delas põem suas capas pretas...
Que deliciosas estudantes elas ficam!"

Talvez tenha sido o Poeta a inspirar muitas quadras populares,ou talvez a alma reinadia deste povo se ilustrasse na graciosidade do ambiente que inspirou também o alemão príncipe Lichonowsky quando afirmou ser Condeixa um cesto de flores,razão da escolha desse lema para brasão da vila.
Com a vinda nos finais do século XIX,do padre Dr.João Antunes,o panorama musical da vila sofreu forte impulso. Homem dado também às manifestações culturais populares ajudou,e de que forma,a desenvolver nestas gentes o espírito folgazão.Diz-se serem dele algumas quadras que antigamente se cantavam nos bailaricos.
As ruas mais propícias para que isso acontecesse,eram o Outeiro,Condeixinha e Rua Nova.Desnudadas,tendo apenas o macadame ou a calçada de seixo rolado,prestavam-se à feitura de alterosas fogueiras,onde todos os trastes serviam para as alimentar.Depois,trompetes e clarinetes das duas filarmónicas,animavam a festa que se esticava noite fora,com o "palhinhas" a dessedentar gargantas sequiosas e salgadas pelas sardinhas fumegantes.
Em Condeixinha,batia-se o vira de quatro,inventado pelo Maestro António do Zé Velho e letrado por seu filho Ramiro:

"Vamos lá dançar o vira
Ai gira que gira
Em volta do par
Que esta canção portuguesa
Tem graça e beleza
Não pode acabar
     Refrão
Bailai mas com graça
Ó moças airosas
Não sejam vaidosas
Dai voltas com siso
E vocês rapazes
Dançai com cuidado
Que um passo mal dado
Transtorna o juízo."

E marchava-se ao som de uma canção feita hino,dos mesmos autores do vira,mas ensaiada pelo Alvarito,da Quinta da Lapa:

"Cá vai a Marcha
 de Condeixinha,
 Traz a Lapinha
Traz o Travaz
Em cada canto
Palra um moinho
Que é um velhinho
Feito rapaz

Bairro das fontes E das levadas
Enamoradas
Que lhe dão vida
Onde o sol reza
Todos os dias
Avé-Marias
De despedida.
        Refrão
Se queres subir a ladeira
Que a água desce a cantar
Sem enfado nem canseira
Vai lá buscar o teu par

Na boca das raparigas
Desse bairro encantador
À mistura com cantigas
Andam promessas de amor!"

Virando para o Outeiro,era no Largo de S.Geraldo,feito mercado às terças e sextas,que se cantava também a Marcha,aqui às ordens do Senhor Ramiro,letrista das músicas do pai:

"Passa o Outeiro na graça
Da sua Marcha garrida
Leva aspecto domingueiro
E na rua quando passa
Deixa a impressão que a vida
É uma graça do Outeiro

Que a avida no Bairro lindo
Dos altos e dos recantos
Dos jardins e das Escolas
Passa cantando e sorrindo
Nos lábios e no encanto
Na graça das espanholas.
     Refrão
Tela de luz e de cor
Tem pinceladas de artista
Cada pedra é uma flor
Cada mulher um amor
Cada habitante um bairrista

O Outeiro é folião
Não há quem lhe leve a palma
Quando entoa uma canção
Canta com o coração
Canta com a própria alma!"

Mas não se pense que era pacífica a coexistência das Marchas!Não sei porquê,a rivalidade destes dois bairros era quase coisa de faca e alguidar.E os cachopos que frequentavam a Escola Primária,que o digam!Descer a ladeira daquele "feudo",era aventura castigada com pedras a tombar nem se sabia de onde!
Se em Condeixinha e no Outeiro havia festa rija,também na Rua Nova o forrobodó era grande.Com a existência de duas filarmónicas na vila,a Condeixa o que não faltavam era tocadores.Que moravam por vários sítios.
Da mesma família,chegou a ter a Rua Nova uma boa dezena de trompetes,clarinetes,saxofones,etc.
Mesmo ao cimo da rua,onde um cruzamento permitia mais espaço,armavam os garotos o trono a Santo António à beira do miradouro do Palácio.À noite,era só esperar a reunião de tocadores par que a função tivesse início.A Ti Caçaneta,com muitas décadas a parecer nem pesar-lhe no corpo miúdo,era a mais activa participante numa festa que durava até às tantas!
Para promover a reconciliação de bairros,cantou-se mais tarde a Marcha de S.João,com letra de Ramiro de Oliveira e música do seu irmão Saul de Oliveira Vaio:

"Cá vai Condeixa
Toda vestida de chita
Vai alegre e tão bonita
Ver e saltar as fogueiras
Que até S.Pedro
S.João Santo António
Para a livrar do demónio
Perdem três noites inteiras

Menina e moça
Nunca se deixou tentar
Não é cabeça no ar
Mas presa por tal encanto
Foi ao Terreiro
E embalada nas cantigas
Do peito das raparigas
Fez um trono a cada santo
        Refrão
Das grutas de Condeixinha
Ao Outeiro,com seus altares
Passa Condeixa inteirinha
Agora feita rainha
Destas festas populares

Há janelas enfeitadas
Manjericos e balões
Há alcachofras queimadas
Nas fogueiras apagadas
A desfazer corações!"

Era desta forma simples,mas autêntica,que se festejavam os Santos Populares em Condeixa!






quarta-feira, 7 de março de 2012

O CASO DO CRIME MISTERIOSO-por Cândido Pereira-Colecção "Eles comem tudo"

   A primeira pessoa a dar com "aquilo",foi a senhora Maria,cozinheira,lavadeira e criada para todo o serviço.
  Gritou horrorizada e fugiu espavorida!
  Vieram os vizinhos e veio o polícia que estava de serviço na rua.
  A porta foi aberta-perdão,já estava aberta,mas tiveram cautela,não fossem desaparecer possíveis impressões digitais.Entraram na cozinha e constataram que o susto da criada era justificado.
  Por toda a parte se via sangue.Os bancos estavam tombados,a loiça partida,uma panela de aluminio amolgada e a "arma do crime",uma faca de cozinha afiada e reluzente,manchada de sangue,no chão,junto à panela.
  O polícia,Cristiano de seu nome,influênciado por inúmeros romances da Vampiro,julgou-se nas docas de Londres,a braços com um abominável crime,quem sabe,perante um novo "Jack,o Estripador"!
  Proíbiu imediatamente que tocassem fosse no que fosse,encarregou um dos presentes de tomar conta da cena e foi telefonar ao "Chefe".
 -Está?É o Senhor Chefe?...daqui fala o Cristiano...não,não!Não é do Real Madrid.Ah!pois,mas eu até sou do Benfica!... Daqui fala o Cristiano,agente três quatro sete.O que foi?...houve aqui um crime.Onde?Na rua dos Candongueiros,Vila Joaquina...sim Chefe,eu espero!-
 Depois do telefonema,o três quatro sete voltou ao "lugar do crime".Passado algum tempo,chegou um carro cheio de polícias que começaram logo a tirar informações,impressões e conclusões.
 E a conclusão do Chefe,foi a seguinte:"Joaquina,uma senhora viúva e que vivia só,proprietária e habitante do prédio,foi assaltada por um ou mais ladrões,para lhe roubarem o "pé de meia"escondido debaixo do colchão.Provavelmente estava na cama,pois esta encontrava-se desfeita e,ao ouvir o barulho vindo da cozinha,(um vidro da janela estava partido)levantara-se e fora surpreendida pelos gatunos que a espancaram(uma tranca da porta estava também suja de sangue)e a mataram!
 -Bravo,Chefe!disse o polícia Cristiano.Mas onde está o corpo?
 -Levaram-no num carro e deitaram-no ao rio,sentenciou o Chefe!Imediatamente ordenou a dois subordinados que fossem fazer buscas no rio.Voltou a interrogar a criada chorosa.
-A minha patroa,coitadinha,era muito boazinha!Até costumava dar-me,de vez em quando,as roupas que já não queria.Eu bem as recusava,porque aquilo nem para panos de limpar o pó servia.Mas ela insistia tanto...
-Deixe-se de conversa fiada e vamos a factos,gritou o Chefe,com o seu vozeirão.
-Sim,meu senhor.Pois ontem ela estava um pouco adoentada.Ofereci-me para cá ficar,mas não aceitou.Ainda bem!
-Ainda bem?
-Sim,porque se eu cá ficasse,também morria,não era, meu senhor?
-Eu sei lá se era!...
 O interrogatório decorreu deste modo,ficando apenas apurado ter a senhora Maria sido despedida de outra casa,por roubar cinco quilos de açucar-aos bocadinhos-como ela dizia.
 O Chefe é que não foi mais em cantigas.Começou logo a desconfiar.E depois de várias contradições da mulher,chegou a uma conclusão-notável inteligência!-:O assassino era o mordomo...ou melhor,a   criada!
 Ninguém,melhor que ela sabia da existência do esconderijo do dinheiro.Quando nessa noite se ofereceu para ficar a fazer companhia à patroa,ao contrário do que disse,aceitou.Então,aproveitou a oportunidade,matou a pobre viúva,escondeu o corpo em qualquer sítio,talvez até o tenha enterrado no quintal e depois fez aquele alarido todo de manhã,como se estivesse inocente.Mas nem sequer tinha um alibi para justificar o tempo decorrido desde que supostamente saiu daquela casa,até que voltou no dia seguinte.
 E o Chefe não esperou mais nada.Toca a ir presa!Lá na esquadra se resolveria tudo e ela seria obrigada a confessar o crime.
 A senhora Maria gritou,esperneou,teve até um fanico,mas o Chefe não se condoeu.Um par de algemas e pronto,aí vão eles.
 Quando chegaram à porta,para sair,aparecer uma senhora,indignada.Trazia um braço e uma perna com grandes ligaduras e no rosto,três ou quatro cruzes de adesivos.
-Que faz esta gente toda na minha casa,senhora Maria?
 Mas a criada não respondeu.Desta vez,desmaiou de verdade!
 O Chefe exigiu à senhora que se explicasse e ficou tudo esclarecido.
 Como se sentisse doente,de manhã quando se levantou,preparou-se para matar um galo e fazer uma canjinha.O pior é que o capão era bravo e a senhora Joaquina tinha pouca prática de degoladora.Meteu a faca à goela do bicho e este,já a sangrar,saltou-lhe das mãos.A senhora Joaquina procurou agarrá-lo,mas partiu um vidro da janela e feriu-se no braço.Agarrou na tranca e só conseguiu partir a loiça.Depois,cortou-se no rosto e na perna.Saiu à pressa para ir fazer tratamento ao hospital,porque os ferimentos deitavam muito sangue.
 E assim ficou esclarecido "O caso do Crime Misterioso",como o polícia Cristiano,o três quatro sete,já intimamente lhe tinha chamado!Diga-se de passagem que não ficou lá muito satisfeito com esta solução,porque o Chefe descarregou nele toda a bílis provocada pela decepção e triste figura.
 A senhora Maria acordou do desmaio e,depois de saber a estória,abraçou-se à patroa e foram fazer a tal canjinha com o maldito galo,que foram encontrar morto,junto à capoeira.
 O polícia Cristiano jurou não voltar a ler romances da Vampiro.E um vizinho mais esperto,sentenciou:
"Nunca julgues os casos,só pela aparência"!